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Número 841,

Cultura

Exposição

O discurso do Método, por Marina Abramovic

por Rosane Pavam publicado 22/03/2015 09h53
O Sesc Pompeia abriga complexo de performances da artista sérvia que tornou-se célebre após levar longas filas ao MoMa, em NY
Acervo Marina Abramovic
Abramovic

Marina Abramovic: "O que me diferencia é o contexto"

Entre a arte que diz praticar e a santidade que lhe atribuem, Marina Abramovic percorreu um longo purgatório. Nascida na então Iugoslávia em 1946, filha de comunistas alçados à burocracia, ela feriu-se nas intervenções com chicote, fogo ou faca desde a juventude universitária. Até completar 29 anos, contudo, realizou tais performances antes das 22 horas, para evitar que a mãe lhe fechasse a porta na cara. Longe da família, atirou-se à sua realização existencial. Em um evento, postou-se diante de um burro e o encarou por horas até que o animal desviasse ocasionalmente os olhos, dir-se-ia, constrangido com tamanha platitude.

Virou celebridade depois que visitantes fizeram filas no MoMa, em 2010, apenas para encará-la em silêncio. É que esta sérvia estabelecida em Nova York, diretora de um instituto que leva seu nome, faz promessas. A primeira é aplacar a angústia geral por meio de seus ensinamentos. A segunda, desacelerar nosso tempo para podermos experimentá-lo em plenitude.O mundo divide-se entre os originais e os repetidores, como ela diz. E entre quem tem carisma e quem não tem.

Na entrevista coletiva que abriu o complexo de intervenções, brasileiras e estrangeiras, a ocorrer em Terra Comunal, lembrou que este é um elemento essencial à performance. Mas, se você não tem carisma, não fique triste. Ainda haverá o Método Abramovic, “muito simples”, para que possa respirar, olhar as paredes, tocar os cristais e, com isso, experimentar o tempo suspenso.

Muitos perguntam o que diferencia o Método daquilo que fazem a ioga ou o curandeiro João de Deus de Abadiânia. “O que me diferencia é o contexto”, explica a performer. No Sesc Pompeia de Lina Bo Bardi, respirar e experimentar o quartzo rosa constituem arte, algo que talvez interessasse a João de Deus saber. Mas o importante mesmo é entender que arte vem a ser o que Marina Abramovic faz. Os outros são os outros.

Aliás, ela está farta de artistas. Bebem demais. Estão gordos e ricos. Com seu vestido Givenchy ornado com fita crepe, sem rugas na testa, os cabelos presos em rabo de cavalo jogado de um só lado, como ocorre a Yoani Sánchez, ela se diz humilde como foi Lady Gaga ao experimentar o Método. Mas, observa, é uma artista, enquanto Gaga, coisa bem diferente. Uma grande verdade quando nos lembramos que Gaga sabe cantar.