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Número 841,

Cultura

QI

Graças a RuPaul, drag queens estão na moda

por Willian Vieira — publicado 22/03/2015 09h54, última modificação 23/03/2015 18h10
O famoso reality show 'RuPaul’s Drag Race' tem algo único: humanizar as drag, escancarando tanto o antes-depois da montagem como a biografia de indivíduos reais
Alex Santana
Ru Paul

Símbolo em preto e branco: Alaska, uma das mais excêntricas drags da nova geração, prepara-se para um show em seu camarim em São Paulo

A fila dá volta no quarteirão em frente à boate, onde dezenas de garotas e centenas de garotos – alguns travestidos dos pés à cabeça, outros só com peruca ou um arremedo de maquiagem – esperam a meia-noite, quando se abrirão as portas para o primeiro meet and greet em São Paulo de uma das drag queens mais famosas do mundo. Dentro, há 120 fãs ainda mais dedicados. Eles pagaram 150 reais por um momento com ela – 10 segundos, talvez 15, o tempo de um “oi”, um “I love you”, uma selfie, um “good bye”. Ali estão desde o menino barbado com vestido de chita a drags experientes, e meninos e meninas dando saltinhos como se esperassem o líder de uma boy band. No centro das atenções, sob o espocar dos flashes, com seus gigantescos óculos cor-de-rosa no rosto quadrado ultramaquiado, está a diva: Alaska.

Drag queens sempre cativaram um público específico no mundo da noite do gueto gay. Mas o zum-zum de celebridade em torno de Alaska reflete um fenômeno mais amplo, recente e com assinatura – no caso, a do criador de RuPaul’s Drag Race. Estreado em 2009, o reality show retrata até 14 candidatas se enfrentando em desafios artísticos, como costurar vestidos temáticos em horas, dançar peças da Broadway sobre saltos 15, destruir as colegas em ácidos stand-ups com plateia e cantar, desfilar, atuar e dublar em frente a implacáveis jurados, tudo por um prêmio de 100 mil dólares, um estoque “doentio” de maquiagem e a chance de ser lançada ao estrelato. Tal fórmula, com todos os elementos do show bizz, já explicaria por que o programa virou fenômeno, e não só entre homossexuais – as mulheres são as maiores fãs.

Mas há algo mais, único, em jogo: a ideia de humanizar as drag queens, escancarando tanto o antes-depois da montagem como a biografia de indivíduos reais. Quem é a criatura de carne e osso por trás de tanto pano e maquiagem, o ser humano frágil escondido pela peruca? A resposta mostra-se no dia a dia dos desafios, nas  confissões, no choro diante dos relatos de pais que retomam o contato após anos de desprezo, choro devidamente consolado pela veia psicanalítica de “mamma Ru”. Nesse inseparável intercâmbio entre atuação e vida real, entre ilusão de gênero e sexualidade, há um manancial ético e estético nunca antes traduzido pelo entretenimento de massa – até que RuPaul, visionário na arte e nas cifras, encontrasse seu lugar.

“Eu só faço o que sempre fiz, o resto do mundo é que aderiu”, diz RuPaul. “Mas me fascina saber que outras pessoas se inspiram na minha experiência. Há uma nova geração de queens fabulosas, corajosas e belas, que inspiram qualquer um com um sonho.” É um discurso bem maquiado, alternando política e glamour. Foi graças a ele e seu 1,93 metro de altura (sem salto) coberto  por eleganza e stravaganza, que RuPaul virou a musa da geração em que o show bizz descobriu, e entendeu, o fenômeno drag.

É, como nunca, a vez delas. A sétima temporada de RuPaul’s Drag Race foi ao ar nos EUA há poucos dias e deve se juntar às outras seis disponíveis no Netflix. Apenas no Brasil, na esteira do sucesso do reality, surgiu Glitter, versão nordestina transmitida pela TV Diário, de Fortaleza, e Academia de Drags, similar (levemente tosco) feito para o YouTube e apresentado por Silvetty Montilla, drag queen mais conhecida do País. E está em produção a webserie Drag-se, que retratará a rotina de drag queens cariocas. “Existe grande interesse por elas fora da noite, em sua vida cotidiana”, diz a produtora Bia Medeiros.

“Devido ao RuPaul, a gente tem tido mais espaço para mostrar nosso trabalho”, diz Silvetty Montilla, que há duas décadas vive do métier. “E uma profissão cada vez mais aceita.” Que o diga Tifanny Bradshaw, que, com metade da idade de Silvetty (que só Deus sabe qual é), já se jacta de ser “drag profissional full time” há dois anos. “Meu maior orgulho é poder viver do meu trabalho.” Pois “virou tendência”, diz Silvetty. “Menino, o que mais tem é gente querendo virar drag.”

Elas nunca tiveram tanta exposição positiva. E nunca ganharam tão bem por sua arte. Hoje, muitas deixam os realities para virar cantoras, DJs, apresentadoras – fazem parte de uma engrenagem econômica própria. Alaska é símbolo disso. Nem sequer ganhou a disputa, mas estourou. Tanto que foram as mensagens de fãs que levaram o produtor Leo Polo a trazê-la ao Brasil, assim como outras drags do programa, para turnês em várias capitais. “O sucesso é garantido, todo mundo ama”, diz Polo, suando em bicas no evento de Alaska.

À 1 da madrugada, ao som de She’s a Maniac, chega a vez de um casal sui generis: um rapaz de tênis, bermuda e óculos e outro com vestido florido de chita, cachinhos, salto e barba. “Foi meu presente de aniversário pra ele”, diz o técnico de som Cairo Braga, 25 anos, mostrando a selfie com Alaska no celular. Inspirado por ela, ele tem se “montado” há dois meses. “Me dá uma sensação de liberdade ser outra pessoa em público” – algo transgressor, completa seu companheiro, o professor Theo Maluf. “Eu detesto reality shows, mas esse tem um componente político. Ele dá um espaço inédito a um universo que estava dormente.”

Quando RuPaul Andre Charles nasceu, em 1960, não havia sequer ocorrido o embate de Stonewall, quando gays enfrentaram a polícia nova-iorquina por seus direitos. Após uma carreira em clubes seguida por aparições na tevê, RuPaul ganhou fama com singles de house e estrelou uma campanha de cosméticos – foi a “primeira modelo drag queen”. Mas nada o alçou à fama como o reality com seu nome. Hoje, em tempos de direitos gays em ascensão, Ru virou uma espécie de embaixador do mundo drag. “Eu faço drag há 33 anos, então conquistei a responsabilidade”, diz.

A responsabilidade é real. “O reality, ao destacar as drags em suas especificidades e dificuldades, possibilita a construção de uma autoimagem positiva, contrapondo-se ao discurso heteronormativo que estigmatiza a existência drag”, diz o sociólogo Emerson Pessoa, professor da Universidade Federal de Rondônia. Por meio desses programas, um público mais amplo tem acesso a algo além do estereótipo. Pois drag não é apenas sexualidade ou gênero, mas performance, diz a professora Anna Paula Vencato, do Grupo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade da UFSCar. “Fazer drag é também uma profissão, especificidade que as torna diferentes de outras identidades como travestis, transexuais ou cross-dressers.”

Ao martelar frases de efeito (if you can’t love yourself, how the hell you gonna love somebody else), fazer libelos contra a opressão e mostrar histórias de vida, além de dar vazão à criatividade do transformismo, RuPaul tem propalado a cultura drag mundo afora. Aos poucos, o drag sai do gueto. Daí uma menina viajar 12 horas para encontrar uma drag. “Alaska tem uma arte incrível”, diz, minutos após a selfie, a estudante Sam Schimitd, 21 anos. Ao lado, Denise Carrato, mesma idade, confessa: “Aprendi a fazer maquiagem com elas”.

Enquanto retoca o batom em frente ao espelho, a diva, agora cansada, só de sutiã e calcinha, beberica uma Brahma sem álcool e reflete. “A recepção foi linda”, diz, prestes a colar uma fita isolante na bochecha. O que achou ao ver tantos jovens inspirados por ela? “Recebo muitas mensagens de fãs brasileiros, mas não imaginava isso. É lindo saber que você pode incentivar alguém a fazer o que quer da vida sendo você mesmo.” E conclui. “O que me inspira são essas queens brasileiras. Esse bate-cabelo que eu vi no palco? Uau, eu amo! Isso é arte.”