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Número 841,

Política

Análise / Mauricio Dias

C, de cangaço

por Mauricio Dias publicado 14/03/2015 10h08, última modificação 11/06/2015 17h43
Até quando Renan Calheiros vai agir contra o governo de Dilma Rousseff e contra si mesmo?
Waldemir Barreto
Renan Calheiros

Se não recua, arrisca-se a ficar isolado

Renan Calheiros, presidente do Senado, e Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados, jogam bruto contra o governo. Entretanto, caso não recuem, terminarão isolados e, por isso, mais expostos às decisões tomadas pela Justiça a partir das revelações da Operação Lava Jato.

Mais que isso, essa reação pode dissolver, mesmo que informalmente, o conjunto já em desarmonia da chamada “base governista” no Senado e na Câmara. Nela, o PMDB de Renan e Cunha é uma viga fundamental.

Numa ação política semelhante ao cangaço, Renan atirou contra a presidenta Dilma Rousseff, a qual, para ele, juntou-se ao procurador-geral da União, Rodrigo Janot, com o objetivo de torná-lo o vilão número 1 da corrupção na Petrobras.

A insurgência de Renan Calheiros é resultado do temor de ser forçado a renunciar, pela segunda vez, à presidência do Congresso.

Ele recusou um convite para jantar com Dilma e a cúpula do PMDB e devolveu a Medida Provisória enviada pela presidenta ao Congresso, na qual elevava a tributação sobre a folha de empregados das empresas privadas. Renan Calheiros impôs outras derrotas políticas ao governo. Vale-se do oportunismo movido pela baixa popularidade do governo e da presidenta.

Tropeçou, no entanto, ao tentar criar uma CPI do Ministério Público Federal para dar o troco em Rodrigo Janot. Não conseguiu apoio dos pares.

Até onde continuará a seguir esse caminho perigoso para ele próprio?

A importância da Petrobras na história da industrialização brasileira levou pela primeira vez, após a empresa ter sido criada, o poder financeiro e o poder político ao confronto. Parte dessa consequência advém da presença do Estado nos objetivos de Dilma. Um confronto visível na disputa presidencial entre a petista Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves.

A disputa árdua da eleição, decidida em segundo turno, não foi a divisão entre dois Brasis. Expressou mais uma luta de classes, sem sangue, travada entre classe média alta contra a população mais pobre. “A burguesia voltou a se unificar (...) Surgiu um fenômeno que nunca tinha visto no Brasil. De repente, vi um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, contra um partido e uma presidente. Não era preocupação ou medo. Era ódio”, segundo análise insuspeita do economista Bresser Pereira, ministro nos governos Sarney e FHC.

Para Bresser Pereira, a luta de classes emergiu com força: “Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia, que está infeliz”. Os perdedores demonstram uma forte intolerância contra os vencedores, agora expressada nas manifestações verbais agressivas contra o PT e Dilma. Situação aguçada pela roubalheira de alguns funcionários da Petrobras casada com a cúpula das empreiteiras e grande quantidade de políticos, inscritos nos maiores partidos com representação no Congresso.

Essa é a crise política mais intensa e mais extensa nos governos petistas, duas vezes com Lula e o começo do segundo mandato de Dilma.  O senador Renan Calheiros é um protagonista importante nesse tabuleiro político e econômico de resultado ainda indefinido.