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Número 841,

Política

Análise/Vladmir Safatle

A Nova República acabou

por Vladimir Safatle publicado 15/03/2015 10h33, última modificação 16/06/2015 17h52
O modelo de governabilidade sintetizado no fim da ditadura não faz mais sentido. Cabe à esquerda defender seu fim
Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
Base Aliada

O vice-presidente Michel Temer e o presidente do Senado Renan Calheiros

Sim, nenhuma reflexão política sobre a situação brasileira atual pode dar conta da realidade se não partir de uma constatação clara a respeito do fim da Nova República. De fato, não é apenas o ciclo de desenvolvimento do lulismo que acabou. O modelo de governabilidade sintetizado no fim da ditadura militar, com sua dinâmica de conflitos, suas polaridades e projetos, não faz mais sentido algum. Nesse sentido, de nada adianta alimentar a ilusão de que o Brasil anda lentamente em direção ao “aperfeiçoamento democrático” e à “consolidação de suas instituições”. Difícil falar em aperfeiçoamento quando se percebe a impossibilidade da estrutura institucional brasileira em aumentar a densidade da participação popular nos processos decisórios do Estado, a permeabilidade da partidocracia brasileira a interesses econômicos, sua corruptibilidade como condição geral de funcionamento e sua representação imune a qualquer crítica às distorções.

Quando junho de 2013 explodiu, esperava-se que, ao menos, entrássemos em um processo de debate sobre a reinvenção da estrutura política brasileira, criticada nas ruas por seu autismo e seu cheiro de negociata. Estamos em 2015 e a única “reforma política” no horizonte consegue piorar ainda mais o que já era bastante ruim, ainda mais ao ser capitaneada por pessoas do quilate dos “indiciados lutando para sobreviver através de toda forma de chantagem”, Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

 

Sim, meus amigos, tudo isso apenas demonstra como a Nova República acabou. Sua governabilidade foi fundada em dois pilares: a cooptação constante de trânsfugas da ditadura (Sarney, ACM, Jorge Bornhausen etc.) e a gestão da massa fisiológica alimentada pelos cálculos oligárquicos locais. Essa era a forma de “evitar conflitos”, criando uma aparência de estabilidade paga com inércia, violência policial e espasmos de crescimento com alta concentração.

Dois atores apareceram como gestores desse modelo de governabilidade. Primeiro, o setor do PMDB com mais capacidade de formulação, a saber, aquele que resultou no PSDB. Segundo, a união entre sindicalistas, intelectuais e setores progressistas da Igreja Católica que levou à fundação do PT. Os dois terminaram de forma muito parecida: reféns de políticas que prometeram combater, professando uma racionalidade econômica no limite do indistinguível, lutando para sobreviver ao final diante de profundo desencanto social expressado em depressão econômica, política, intelectual e cultural. Nos dois casos, a população brasileira viu o espetáculo deprimente de atores que paulatinamente foram mudando de rosto até chegarem ao irreconhecível. Isso ocorreu porque a essência da Nova República foi a reversão do potencial de transformação em conservação.

Agora, a política brasileira volta às ruas. Infelizmente, pelas mãos de uma direita descomplexada, com sua indignação farsesca, seu moralismo a servir apenas como arma contra os inimigos porque se cala diante dos amigos, suas propostas medievais de produzir uma sociedade na qual políticas de solidariedade social e de combate à desigualdade se resolvem ao deixar a elite rentista vampirizando, de maneira intocada, a economia brasileira. Mas esse é o resultado de termos uma esquerda acuada à procura de salvar um governo que já naufragou e não pode ser salvo. Esse governo cometeu dois erros imperdoáveis: desmobilizou seu próprio campo ao escolher o lado das políticas a serem aplicadas e deixou o medo se transformar no afeto político central. A questão para a esquerda é se quer naufragar com ele ou não.

À esquerda, cabe agora dizer com todas as letras que se trata de abandonar de vez esse modelo de governabilidade com seus acordos paralisantes, esses atores políticos e suas leituras de ideias. Em uma situação na qual, desde de 2013, a sociedade brasileira luta desesperadamente por se reinventar, abrindo espaço para o seu melhor, mas também para o seu pior, não é possível fazer da esquerda o defensor do partido da ordem. Esse sempre foi um país que nunca deixou de sonhar e produzir modificações brutais nesses últimos anos, um país que mesmo na época da ditadura conseguia lutar sonhando. Nada pior do que não contar agora com a força dos sonhos.