Você está aqui: Página Inicial / Revista / Classe C, do sonho ao pesadelo / A felicidade por linhas tortas
Número 841,

Internacional

Islândia

A felicidade por linhas tortas

por Gianni Carta publicado 20/03/2015 05h05
O governo da Islândia pretendia salvar banqueiros e especuladores, mas a pressão popular obrigou-o a mudar de rumo. Por Gianni Carta, de Reikjavik
Arnaldur Halldorsson/Bloomberg/Getty Images/AFP
islândia

O banco quebrou, e nem por isso a população sofreu

De Reikjavik

Reykjavik, cenário deslumbrante de dia e de noite, povo civilizado além da conta. Segunda 2, 1 hora da manhã no bar e restaurante Bunk. Mais uma enxurrada de chopes Viking, cerveja popular na capital da Islândia, servida a um grupo de islandeses sedentos. Há sedentas também, visto que em nível de igualdade entre os sexos, a Islândia é, segundo o índice de disparidade entre os sexos do Fórum Econômico Mundial, o país com o menor índice de diferença entre homens e mulheres em termos de poder político, oportunidade econômica e saúde e educação. E elas bebem. Muito.

“Mas ainda há discrepâncias”, diz Halla Kristín Einarsdóttir, documentarista premiadíssima. Por exemplo, os homens ainda ganham salários maiores. Apesar de sua aparência viking, isto é, uma imponência loira, olhos azuis. Além de pontos de vista esclarecidos em qualquer assunto, por vezes polêmicos, Halla, 39 anos, não é fã dos business vikings, que entre 2000 e 2008 trouxeram pujança econômica para os endinheirados da Islândia. “Eles têm más conotações, mas se veem como heróis.” Por que as más conotações? “Os business vikings quebraram o país.”

Como sustentam os atropólogos Gisli Palsson e Paul Durrensberger no livro Gambling Debt (University Press of Colorado, 2015), a Islândia não ficou “imune” à influência dos economistas de Chicago e à ideolgia do neoliberalismo. Os mestres de Chicago, vale lembrar, são aqueles que apoiaram a morte e deposição de Salvador Allende no Chile, em 1973, e aprovaram a política econômica do general Augusto Pinochet. Os vikings businessmen, todos homens, donde a resistência compreensível de Halla no Bunk Bar and Restaurant, acreditavam nessa política neoliberal com origens em Chicago. E isso a ponto de se considerarem uma classe especial isenta das penalidades impostas pela legislação da finança internacional. Resultado: a Islândia mergulhou em um mar de dívidas.

“É por isso”, diz Halla, “que contesto esse espírito dos vikings no mundo das finanças.” De fato, a base da crise bancária tem origens na crença de uma superioridade dos vikings no campo das finanças. O historiador Gudni Jóhannesson escreveu como os business vikings, banqueiros e especuladores, usaram as famosas sagas do século IX para explicar o milagre econômico do fim do século XX. Os vikings de antanho eram nada mais do que guerreiros corajosos, atirados mar adentro, quando os americanos resolveram comemorar a descoberta da América pelos vikings, que teria precedido a de Colombo, sem esquecer os pescadores portugueses de merluza que iam até as costas do Labrador ainda nos anos 1000, o presidente Grímsson disse como os islandeses devem se esforçar para “não se diferenciar como os nossos antepassados poetas e pioneiros, sonhadores e descobridores, e trazer o nosso espírito empreendedor para o mundo”. Grímsson não hesita em falar em um assalto viking contra o mundo financeiro, uma tentativa de repetir os velhos tempos. De todo modo, altera a posição das cartas na mesa.

Grímsson não se diferencia muito de um líder populista latino-americano. Na essência, uma espécie de Pinochet mais civilizado no sentido dos Direitos Humanos. Mas, como diz o ex-ministro da Fazenda Sígfusson, ao cabo deu tudo certo. O historiador Jóhannesson comenta como Grímsson apoiou febrilmente as privatizações do anos 1990. Em discurso na Associação dos Historiadores Islandeses, Grímsson disse: “Os empreendedores de nossos tempos são frequentemente julgados por essas normas, e nós olhamos para eles como para os herdeiros de uma tradição que vai todo o caminho de volta para a época dos colonos pioneiros da Islândia”. Aos poucos, o discurso de Grímsson tornava-se cada vez mais nacionalista. O islandês puro era um viking, como ele e seus aliados.

Apesar dos sinais de um colapso financeiro iminente, Grímsson insistiu na diferença de que a Islândia havia contruído um modelo econômico como jamais fora criado no mundo. Tratava-se de quebrar os bancos e da volta ao poder dos vikings. Encontrei foi o próprio presidente, visto que todos os líderes da direita, o premier Sigmundur Daviò Gunnlaugsson, líder do Partido Progressista, e Bjarni Benediktsson, ministro da Fazenda e líder do Partido da Independência, preferiram não conceder entrevistas. O taxista a caminho da casa presidencial elogiou Grímsson: “Ele deu o voto ao povo e nós decidimos o futuro deste país”, resumiu, na curta traejetória de menos de cinco minutos ao custo de 30 dólares. “E ele é um grande orador.”

Põe orador nisso. Grímsson, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Manchester, é exímio na arte de falar em público. Retórica populista pura. Tomei um chá de cadeira de 30 minutos a observar fotografias do entrevistado com o papa João Paulo II, Nelson Mandela e outros líderes internacionais. Quando me chamaram, deparei-me com um senhor sombrio, vasta cabeleira branca, elegante, mas com ares de superioridade, que começou a me irritar. Mas Grímsson abandonou o discurso viking. De certa forma, renega o passado. Sua retórica é quase antibusiness viking. Ou pelo menos é anticapitalista. Grímsson voltou a ser de esquerda, como antes de ser presidente independente pela primeira vez em 1996.

Na minha solitária espera diante daqueles porta-retratos a anunciar um grande homem, pensei em como tantos jornalistas e acadêmicos consideraram que os vetos a legislações governamentais por parte de Grímsson e subsequentes referendos formaram um herói. Felizmente, o professor de Economia da Universidade da Islândia, o carismático Thorolfur Matthiasson, havia me altertado sobre os mitos criados em torno da recuperação econômica da Islândia.

O viking Grímsson tentou, de fato, conforme me diz Mathiasson, “proteger os vikings de perdas financeiras”, enquanto o povo protestava nas ruas. Ano de 2008. Pressões irresistíveis, o setor financeiro quebrou, foi a sorte da Islândia. Apuro, e eis que o presidente me chama. Um homem alto, esguio, a exalar uma química próxima ao zero. Cinco mandatos, tempo que Halla Kristín me disse ultrapassar as normas tradicionais. Mas Grímsson diz agir a favor do povo.

Tomamos chá, talvez graças à sua educação em Manchester, onde também ele deve ter consumido bastante curry nos restaurantes indianos. Na entrevista, como havia previsto seu secretário de imprensa, eu não poderia falar de assuntos parlamentares. Em miúdos, de política em geral. O objetivo era falar dos feitos do presidente, isto é, de suas realizações em matéria de vetos. Grímsson falou em dar ao povo a “democracia direta”. Criticou o capitalismo de seus ex-comparsas, os business vikings, que só pensavam em lucros. Na nossa entrevista de 52 minutos falei com um professor que não respondeu às minhas perguntas diretamente. Incrível para um homem que se julga defensor da liberdade de expressão.

A Islândia foi à bancarrota para impedir uma fuga de capitais, inclusive estrangeiros. Grímsson, até então nada fizera, a não ser adular os viking bankers e emprendedores. Como nunca vi, a certa altura da entrevista, ele colocou o dedo no gravador e disse: “Acho que agora basta”.

Com Steingrímur Sigfússon no Alpingi, o Parlamento, a conversa foi bem melhor. Ex-ministro da Fazenda durante a crise, explicou por que o FMI aceitou o seu programa keynesiano. “Houve uma série de fatores que levaram o FMI a concordar conosco”, explica Sigfússon. O então presidente do Fundo era Strauss-Kahn, indivíduo moralmente condenável, mas bom gestor do FMI. O fato de a Islândia ser uma democracia nórdica a defender valores sociais pesou. “E mesmo sendo socialista, eu era um ministro da Fazenda sério, pronto a seguir um programa do FMI”, diz. No fim das contas, tudo se baseia em uma palavra: confiança. Continua o ex-ministro da Fazenda: “Não havia muito tempo para fazê-lo. Por isso, tivemos de restaurar a função do setor financeiro, porque tudo tinha ido para baixo. Tínhamos de estabilizar a moeda e a inflação, para tornar as finanças públicas sustentáveis”. Do acerto, de todo modo, surgiu a luz. E hoje a Islândia, a seu modo, é um país feliz.

Entrevista: Os referendos, como tentativa de construir um herói

Eleito presidente da Islândia pela quinta vez em 2012, um recorde, Ólafur Ragnar Grímsson será lembrado como o primeiro chefe de Estado desde o advento da República da Islândia, em 1944, a usar o poder de veto presidencial três vezes. O ex-professor de ciências políticas e ex-ministro esquerdista da Fazenda vetou legislação governamental, e assim os islandeses deram o veredicto final por meio de um referendo. Em referendos em 2010 e 2011 o povo concordou em não pagar as dívidas de bancos privados falidos. Nem o governo pagaria. Observa o presidente Grímsson, 71 anos: “Foi uma escolha simples entre a vontade democrática do povo e os interesses financeiros dos mercados”. Nem todos concordam sobre a necessidade dos vetos. O ex-ministro da Fazenda alega que os vetos atrasaram a recuperação econômica por pelo menos nove meses. Um economista e um historiador comentaram que, no rescaldo da crise, o presidente quis virar herói. Outrora, Grímsson se orgulhava dos business vikings, responsáveis pelo colapso da Islândia.

CartaCapital: Indicadores como nível de desemprego de 4,5% e redução da taxa de desigualdade seriam uma herança do governo de centro-esquerda que lidou com a crise financeira de 2008?

Ólafur Ragnar Grímsson: Não faz parte da minha tarefa avaliar governos. A história interessante não é a sua pergunta sobre qual o governo que melhor lidou com a crise. A partir de uma perspectiva mais ampla, a questão-mor é como um país, referido pela mídia como o exemplo do primeiro Estado falido, tornou-se, em escassos anos, o exemplo número 1 de uma recuperação econômica bem-sucedida. Ainda não descobriram uma forma de capitalismo sem crises financeiras regulares.

CC: O que a Islândia fez
de diferente?

ORG: Não seguiu a receita tradicional oferecida pelas instituições financeiras. Não concordamos que as pessoas comuns deveriam pagar a dívida dos bancos falidos. Não introduzimos medidas de austeridade. Tentamos proteger os pobres, os serviços de saúde, o sistema educacional. Adotamos uma carga tributária justa, onde os ricos foram solicitados a contribuir mais. Desvalorizamos a moeda para instilar mais competitividade nos setores de exportação. E, através da minha decisão no referendo, demos maior importância à democracia do que aos mercados financeiros.

CC: Como foi usar o veto presidencial sob pressão internacional?

ORG: Foi a decisão mais difícil que já tomei. Para a comunidade internacional, a Islândia tinha de assumir a responsabilidade pela dívida. Chegaram até a bloquear o programa do FMI. Portanto, o acordo aprovado pelo Parlamento foi resultado de chantagem, financeira e política. Disseram que, se eu vetasse o acordo, a Islândia ficaria isolada. No fim das contas, foi uma escolha simples entre a vontade democrática do povo e os interesses financeiros dos mercados. A Grã-Bretanha e a Holanda, apoiadas por Bruxelas, nos levaram para o Tribunal da Associação Europeia de Livre Comércio (Efta, em inglês). O Tribunal pronunciou-se contra a Grã-Bretanha, a Holanda e a União Europeia sobre todas as alegações com base em regulamentos financeiros europeus. O sucesso da recuperação econômica da Islândia é indiscutível.

CC: Se é indiscutível, por que outros países da UE não seguem o modelo islandês?

ORG: Nunca dou conselhos a governos. Descrevo nossa experiência. Eis a questão essencial: se a liderança europeia esteve errada sobre a Islândia, por que tem razão sobre outros países em 2015? Paira o silêncio, uma posição desonesta. A UE atravessa uma tragédia humana em escala não vista há muito tempo.

Entrevista: Sigfússon: ao cabo, demo-nos muito bem

Fundador e secretário-geral do Movimento de Esquerda-Verde, Steingrímur Sigfússon foi o ministro das Finanças da coalizão de esquerda entre a sua legenda e os social-democratas (2009-2013) que lidou com o colapso financeiro da Islândia de 2008. Sigfússon, 59 anos, também ex-ministro da Agricultura, das Comunicações e da Pesca, conseguiu tirar a economia da Islândia do abismo por meio de uma série de políticas keynesianas surpreendentemente aceitas pelo FMI. Seu legado é sólido: nível de desemprego de 4,5%, crescimento do PIB de 2,6% em 2014 e redução da taxa de desigualdade. Observadores de esquerda preocupam-se com o provável fim do controle de capitais. Irá a coalizão conservadora formada pelo Partido da Independência e Partido Progressista liberalizar a economia novamente? Calmo, no Alpingi, o Parlamento islandês, Sigfússon retruca que isso não vai acontecer porque haverá “novas medidas econômicas de salvaguarda”.

CartaCapital: Os indicadores econômicos que vemos hoje são um legado de seu programa econômico. No entanto, o fim do controle de capitais poderia levar o governo conservador a fazer um novo estrago.

Steingrímur Sigfússon: O governo conservador chegou ao poder em maio de 2013. Estamos quase na metade do mandato e nenhuma de suas promessas populistas se materializou. Por outro lado, não acredito que o controle de capitais será abolido. Vamos substituí-lo por um conjunto de medidas de salvaguarda da economia. Não prevejo fluxos de capitais totalmente livres nos próximos meses sem quaisquer garantias. Por que deveríamos cometer os mesmos erros que quase nos mataram?

CC: Mas um governo conservador sempre fará o possível para dar maior flexibilidade à economia.

SS: Vamos observá-los bem de perto. No entanto, creio que há uma ampla unidade na Islândia. Os indivíduos e as comunidades não entrarão no mesmo louco endividamento de outrora. As pessoas emprestavam montantes que não seriam capazes de reembolsar. Também emprestavam em moeda estrangeira, ou seus empréstimos eram indexados a moedas estrangeiras. Isso a despeito de a nossa economia ser toda baseada em coroas islandesas.

CC: Qual impacto sobre suas reformas financeiras e econômicas tiveram os dois vetos presidenciais e os subsequentes referendos?

SS: O presidente era criticado quando a crise ocorreu porque estava envolvido com ambos os banqueiros e os business vikings que faziam empréstimos e investiam no exterior.  Portanto, no rescaldo da crise, o presidente não estava em xeque. Muitos de nós acreditamos que essa foi a sua maneira de obter o status de um herói. Ele se tornou o chefe durão que, por meio de referendos, se negava a pagar as dívidas do IceSave. Mas o caso já estava progredindo. O velho Landsbanki reembolsou a dívida exatamente da mesma forma por nós negociada, já em 2009. A única diferença é que a Islândia não se responsabilizaria por quaisquer pagamentos de juros como havia sido determinado no acordo. Até agora, o velho Landsbanski já pagou 85% da dívida.

CC: Mas, claro, o governo se envolveu, não foi apenas o dinheiro do banco.

SS: O governo da Islândia tinha de tentar encontrar alguma solução porque prometeu que o faria em novembro de 2008. Isso faz parte das condições estabelecidas no programa do FMI. O governo teve de negociar também porque os países nórdicos, cofinanciadores com o FMI no programa, inseriram cláusulas no contrato de empréstimo segundo as quais deveríamos honrar as dívidas do IceSave. Estávamos, de fato, dispostos a tentar negociar. Conseguimos colocar a economia em funcionamento, apesar dos problemas e apesar dos referendos. O presidente dificultou nosso trabalho, pelo menos durante algum tempo. Ao final, o resultado prático dos vetos postergou a recuperação econômica de 9 a 12 meses. E tudo teve um preço. Estou convencido de que 2010 poderia ter sido um ano melhor para a Islândia. Nosso programa com o FMI também foi adiado. Em todo caso, ao cabo, a Islândia se deu muito bem.