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Número 840,

Cultura

Exposição

Uma explosiva democracia visual

por Rosane Pavam publicado 14/03/2015 09h37, última modificação 14/03/2015 11h16
O fotógrafo William Eggleston dessacraliza a América em 170 imagens
William Eggleston
Eggleston

O fascínio do letreiro nos anos 1960

Naqueles anos 1950 em que iniciava sua vida como artista, o americano William Eggleston ambicionava apenas a oportunidade de fazer uma única foto como Henri-Cartier Bresson. Com o mestre, o bom desenhista de Memphis aprendera a possibilidade geométrica do flagrante. De tanto tentar, um dia produziria ele mesmo a cópia perfeita de uma obra do francês, mas não se sentiria satisfeito com o resultado. Nascido em 1939 em uma família de ricos plantadores de algodão, Eggleston concluiria que a paisagem contrastante de seu cotidiano, os brancos versus os negros sobre tapetes naturalmente verdes, constituiria um campo ainda maior que o de Bresson com que lidar. Ele sabia que dois americanos a antecedê-lo haviam feito impressionantes retratos crus de seu país. Walker Evans mostrara os camponeses na linha da miséria e Robert Frank, os subjugados do pós-Guerra em movimento. Mas, se Eggleston tinha novos olhos, para onde apontariam?

Ele ainda fotografava em preto e branco, porque esta era a convenção da arte, mas investia em novas possibilidades. Principalmente, mudava o ponto de vista ao fotografar. Na direção contrária do dançarino Bresson ou do ensaísta Evans, olhava sempre diretamente a partir de um ponto e centralizava a cena, às vezes deitado no chão. E, muito distante desses dois, não procurava o instante definidor do drama nem tinha uma tese a defender. Era simplesmente infantil, como se o mundo, de tanto intrigá-lo, devesse ser revirado nos detalhes, à moda do que ele fazia com as teclas de seu piano. Além disso, seus fotografados nem precisavam ser humanos. Mais do que os homens, o artista buscava seus indícios. William Eggleston tinha outros mistérios a propor, eis por que talvez desdenhasse das célebres igrejas sulistas. Para ele, a nova vida americana pulsava nas lojas de conveniência, nos escritórios, oficinas, supermercados, estacionamentos, lanchonetes, lâmpadas, letreiros. Sem talvez o desejar, ele dessacralizava a América e a desnudava.

Isto não seria nada, contudo, diante do barulho que faria a partir de 1965, ao experimentar os filmes em cores, como mostram as 170 imagens da exposição William Eggleston, a Cor Americana, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, entre os dias 14 de março e 28 de junho. Essas fotos que hoje pertencem a coleções importantes, como a do Museu de Arte Moderna de Nova York, foram rejeitadas de início por ídolos do artista, como Evans, que as considerou vulgares por tocarem a fronteira da fotografia amadora e publicitária do período. Se não era fácil dobrar um artista clássico (Evans posteriormente se renderia, ele próprio, à cor), tampouco parecia simples driblar sua própria desconfiança no potencial de um novo arco-íris. Ele queria a tonalidade verdadeira, exuberante, de objetos e rostos, e iria suar por ela.

“Uma noite, fiquei acordado planejando o que fazer no dia seguinte, que era ir ao supermercado descendo a rua”, contou Eggleston anos depois. “Tinha na cabeça esse novo sistema de exposição, de sobre-expor o filme de forma que todas as cores aparecessem. E, meu Deus, tudo funcionou. A primeira foto, me lembro, era de um rapaz empurrando carrinhos de supermercado. Fiz a foto de um sardento, ruivo, na luz do fim de tarde. Uma foto bem bonita, na verdade.” Começava ali a série posteriormente conhecida por Los Alamos, que duraria até 1974. “Los Alamos”, diga-se, por ser o campo de experimentos nucleares onde havia um laboratório fotográfico de acesso proibido, e que Eggleston ardera por conhecer, um nome simbólico, dentro de sua arte, a indicar a explosiva novidade preparada entre quatro paredes.

É possível que sua obra seja mal compreendida hoje como revolucionária e, na direção contrária de seus propósitos, aceita como banal. Algo a se dar porque, assimilada (talvez mal assimilada) pela cultura consumista, esta que caminha pelas antigas capas de disco e deságua nas imagens particularizadas da rede social Instagram, a invenção de Eggleston tenha tomado conta do imaginário pop. Ela está no filme Paris, Texas, do diretor Wim Wenders, tanto quanto nas canções do grupo Talking Heads à maneira de People Like Us, integrante daquele disco True Stories em que David Byrne, ao tomar a voz dos americanos dos shoppings, aponta seu desinteresse por liberdade ou justiça, somente por alguém a quem amar. No catálogo para esta exposição, o músico conta como seu convite a Eggleston para que fotografasse os bastidores do filme True Stories (1986) resultasse em foto nenhuma, e que ele tenha precisado acessar o arquivo do artista para se servir de um clique.

“Fui profundamente influenciado pelo trabalho do Bill, talvez até demais”, conta Byrne, que na juventude deixou Baltimore rumo a Nova York com a aspiração de se tornar artista plástico. “Suas fotografias têm aquilo que ele poderia chamar de uma visão democrática, algo sem relação com o Partido Democrata americano, e sim com a ideia de que todas as coisas, todos os segmentos de nossa cultura, nossa paisagem e nossa população deveriam ter voz e de que disso resultaria uma espécie de igualdade visual que iluminaria algo maior.” Para Byrne, é como se às vezes as fotos de Eggleston parecessem fortuitas, tiradas de olhos fechados. Apaixonado pela obra do artista, o diretor Gus Von Sant também o convidou a estar no set de Elephant, de 2013, e idealizou um plano no filme em que repete uma célebre composição de Eggleston, uma lâmpada entre fios. Nenhum desses artistas, porém, espera qualquer retribuição do sulista a se comportar como um dândi, pouco interessado na imprensa e obcecado por carros e armas. Eggleston, que deve estar presente na abertura da exposição, anda ao lado de todo americano mesmo sem o saber ou desejar.

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