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Número 840,

Economia

Petrobras

Redução de peso

por Carlos Drummond publicado 18/03/2015 10h41
A Petrobras amplia a venda de ativos para preservar o caixa e se concentrar nos investimentos prioritários
Istockohoto
Petrobras

A revisão ocorre em meio a pressões contra o modelo de partilha

A ampliação do plano de desinvestimento da Petrobras em 2015 e 2016, definido inicialmente entre 5 bilhões e 11 bilhões de dólares, para um total de 13,7 bilhões, indica um esforço adicional da nova administração rumo ao reequilíbrio da empresa, sob pressão da Operação Lava Jato, do rebaixamento da classificação de risco pela agência Moody’s e da queda dos preços do petróleo. Essa foi a interpretação dos participantes do mercado, evidenciada na alta da cotação das ações preferenciais da empresa em 2,55% na Bolsa, na terça-feira 3, depois da divulgação da decisão. O anúncio segue-se ao novo recorde de produção de petróleo no pré-sal das bacias de Santos e Campos, atingido em janeiro, com 669 mil barris diários, equivalentes a 28% do total. Em dezembro, a produção de gás natural, de 75,5 milhões de metros cúbicos/dia, foi a maior desde o início dessa exploração.

A venda de ativos envolverá as áreas de exploração e produção no Brasil e no exterior (30%), abastecimento (30%) e gás e energia (40%), esclareceu a empresa, sem especificar os bens a serem oferecidos ao mercado. A ação faz parte do planejamento financeiro para reduzir a alavancagem, preservar o caixa e concentrar esforços nos investimentos prioritários, “notadamente de produção de óleo e gás no Brasil em áreas de elevada produtividade e retorno”.

A desmobilização anunciada poderá proporcionar ao caixa da empresa quase o dobro dos 7,18 bilhões de dólares obtidos com a venda de ativos nos últimos quatro anos, entre eles a operação de exploração e produção no Peru (2,6 bilhões), a participação de 35% no projeto offshore Parque das Conchas BC-10 (1,6 bilhão) e desinvestimentos menores como os da Refinaria San Lorenzo, na Argentina (110 milhões de dólares), o bloco BS-4, na Bacia de Santos (270 milhões), os 20% de participação na exploração de Gila, no Golfo do México, operada pela British Petroleum (110 milhões), e a petroquímica Innova (372 milhões).

Entre os ativos que poderiam ser postos à venda no atual plano de desmobilização o departamento de pesquisa do banco Citi sugere a totalidade dos navios-plataforma do pré-sal, da fatia de 15% no capital da empresa de prospecção Sete Brasil e das plataformas de perfuração velhas. A relação inclui as participações de 30% nas empresas BR Distribuidora, Braskem Ethanol e Petroquímica Suape, estruturas de distribuição de gás e ativos não essenciais, no Brasil e no exterior. A receita com essas desmobilizações atingiria 16,8 bilhões de dólares, calcula a instituição.

A revisão do plano de desinvestimento ocorre em meio às pressões crescentes de meios de comunicação e da oposição para a extinção do modelo de partilha e retorno aos contratos de concessão, adotados em 1997. Neste ano, a venda de cerca de 180 milhões de ações sob o controle da União, 75% do total a investidores internacionais, tornou a atuação da empresa mais voltada para interesses comerciais, não necessariamente estratégicos.

A mudança para o sistema de partilha, com participação da Petrobras de 30% no mínimo em todos os consórcios de exploração de petróleo, começou em 2009 com o encaminhamento ao Congresso, pelo presidente Lula, de um conjunto de projetos de lei para alterar a legislação específica e proporcionar melhores condições para o aproveitamento das jazidas do pré-sal. Os projetos foram convertidos em lei em 2010.

O modelo de partilha segue a norma adotada em quase todos os países, à exceção dos Estados Unidos e do Canadá, de manter o petróleo, o gás natural e demais recursos minerais sob a propriedade do Estado. O baixo preço de viabilização do petróleo do pré-sal, de 45 dólares por barril (impostos incluídos, mas sem considerar os gastos com a infraestrutura de transporte do gás natural, equivalentes a um acréscimo de 5 a 7 dólares por barril) torna-o objeto de desejo de empresas globais do setor, com participação limitada no modelo de partilha. Na quarta-feira 4, a cotação do petróleo cru oscilou em torno de 50 dólares o barril e as projeções para dezembro indicavam uma faixa de preço em torno de 60 dólares.

O interesse internacional no pré-sal, inversamente proporcional ao declínio das cotações de petróleo, inviabilizador de explorações pioneiras no Mar do Norte e da extração do óleo e do gás do xisto nos Estados Unidos (entre outras com ponto de equilíbrio muito acima daquele do pré-sal), explica por que a discussão em torno do futuro da Petrobras se acirra a cada dia, com motivações eventualmente situadas muito além do combate à corrupção.

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