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Número 840,

Saúde

Câncer

Imunoterapia em câncer de pulmão

por Riad Younes publicado 16/03/2015 04h05, última modificação 15/06/2015 17h29
Opção à quimioterapia: remédios que alertam o organismo contra o invasor estranho, cruel e agressivo
USP Imagens
Cigarro

O câncer de pulmão ainda é uma doença agressiva e grave

Câncer de pulmão continua sendo uma doença temível, agressiva e grave. Quando disseminado pelo corpo, a quimioterapia torna-se a arma mais eficaz para controlar as metástases. Infelizmente, a maioria dos pacientes acaba perdendo a batalha. Uma nova abordagem tem apresentado resultados impressionantes: a imunoterapia do câncer. Uma nova classe de medicamentos para estimular o sistema imunológico, as células de defesa do organismo do paciente para que reconheçam as células do câncer como um invasor estranho.

Diferente da quimioterapia, que combate diretamente as células do câncer, a imuno-oncologia apresenta uma nova forma de encarar essa doença. Como resultado dos avanços dessa linha de pesquisa, recentemente a FDA, órgão que regulamenta a liberação de novas drogas nos Estados Unidos, aprovou a primeira imunoterapia para o tratamento do câncer de pulmão. Sobre essa novidade, conversamos com o doutor Marcelo Cruz, oncologista clínico e coordenador do Serviço de Segunda Opinião do Hospital São José, Beneficência Portuguesa de São Paulo:

CartaCapital: A imunoterapia em câncer já é realidade ou só experimental?

Marcelo Cruz: Já é uma realidade. Essa nova classe de terapia já está aprovada para o tratamento de melanoma, uma forma agressiva de câncer de pele, e há vários estudos em fases bastante avançadas para diversos tipos de câncer, como rim, bexiga, mama.

CC: E no caso do câncer de pulmão?

MC: A imunoterapia está sendo estudada justamente nos pacientes com doença disseminada, de mais difícil controle.

CC: E os resultados até o momento?

MC: Os estudos iniciais avaliaram a eficácia da imunoterapia em pacientes com câncer avançado que já haviam apresentado resistência a várias quimioterapias. Apesar disso, uma parte dos pacientes que receberam essa nova terapia apresentou benefício no combate à doença e aumento do tempo de vida. Como resultado dos avanços dessa linha de pesquisa, a FDA aprovou o Nivolumabe como a primeira imunoterapia para o tratamento de um dos tipos mais frequentes de câncer de pulmão.

CC: A aprovação pela FDA foi rápida, em comparação com outras drogas.

MC: Três meses antes da data esperada, o que mostra a agilidade no processo de tornar essa terapia inovadora e eficaz disponível para os pacientes nos Estados Unidos.

CC: Como age a droga?

MC: Ela inibe uma substância conhecida como PD-1. Essa proteína, quando ativa, não deixa que o sistema imune ataque as células do câncer. Dessa forma, inibindo o PD-1, o sistema imune do paciente volta a reconhecer as células do câncer como algo estranho ao organismo e passa a combater o inimigo. Em pacientes com câncer escamoso de pulmão que já haviam recebido tratamento com quimioterapia, o Nivolumabe aumentou as chances de controle de doença e tempo de vida dos pacientes, quando comparado com o docetaxel, uma quimioterapia convencional.

CC: Como é administrada e quais são os efeitos colaterais?

MC: O Nivolumabe é administrado por via intravenosa em intervalos de duas semanas. Os efeitos colaterais mais comuns são fadiga, dores musculares, náuseas e perda de apetite, mas em geral são bem tolerados e não interferem com a continuidade do tratamento. Efeitos colaterais mais graves existem em cerca de 3% dos casos, e podem incluir diarreia de difícil controle, tosse e falta de ar relacionada com pneumonite (um quadro de inflamação dos pulmões).

CC: A droga já está disponível para administração aos pacientes em algum lugar no mundo?

MC: Uma vez aprovado pela FDA, a droga já pode ser utilizada nessa nova indicação nos Estados Unidos. Certamente, a EMA (órgão regulador de novas terapias na Europa) também deverá se posicionar em breve.

CC: Qual a expectativa de sua aprovação e disponibilidade no Brasil?

MC: Ainda não há previsão de aprovação pela Anvisa.Outras terapias contra o câncer de pulmão já aprovadas e em uso nos EUA e na Europa ainda aguardam aprovação no Brasil há pelo menos dois anos.