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Número 840,

Cultura

Brasiliana

O Batman do Leblon tira a máscara

por Germán Aranda — publicado 11/03/2015 04h04
“Nem de esquerda nem de direita”? Esqueça. Eron Melo é fã de Bolsonaro
Fabio Motta/Estadão Conteúdo
batman

Personagem das manifestações de 2013, o "Batman" tornou-se persona non grata nos protestos deste ano no Rio

Acontece com quase todos os super-heróis. Também o Batman do Rio de Janeiro perdeu o apoio das ruas, ou de grande parte delas, depois de viver dias de glória. Às 5 da tarde de 9 de janeiro, sob o forte calor do verão, Batman apareceu a balançar sua capa no protesto contra o último aumento das passagens na capital fluminense. Antes aplaudido, acabou vaiado e xingado pelos manifestantes. Alguns até partiram para a agressão física. “Eu tive de me defender”, lembra Eron Morais de Melo, 33 anos, o homem corpulento e de grandes costeletas por trás da máscara. E assim a mesma Gotham tropical que havia assistido no passado à prisão por resistência cívica do Homem-Morcego, inédita nos filmes e quadrinhos, pela primeira vez o viu usar as próprias mãos para se proteger daqueles que jurou defender.

A razão de ter perdido a simpatia dos movimentos sociais tem a ver com o populismo de um homem educado, firme, de fala clara e articulada, e que, como a maioria dos conservadores dos dias atuais, tenta esconder suas opções ideológicas: “Não sou de esquerda nem de direita”. Desde outubro do ano passado, diante das encruzilhadas da política, Batman tem, no entanto, optado por se curvar à direita. No segundo turno das eleições presidenciais, declarou em sua página no Facebook apoio a Aécio Neves. Até então, sua bandeira restringia-se à genérica defesa da “saúde, segurança e educação”, tal qual a ladainha dos políticos no horário gratuito. E mais à direita foi a sua conversão quando decidiu balançar as asas rumo ao extremismo e fez questão de tirar uma foto ao lado do deputado federal Jair Bolsonaro em um protesto contra Dilma Rousseff.

Embora jure rejeitar um novo golpe militar e a volta da ditadura, não poupa “bat-elogios” a Bolsonaro, que, entre outras qualidades, tem o hábito de ameaçar mulheres. “Eu gosto dele, fala as coisas claras, tem um jeito meio maluco que acho maneiro”, reconhece Melo, um dos seguidores da página na internet “Bolsonaro presidente”. “Mas o Exército não está para governar, e sim para defender as fronteiras e já tivemos um exemplo disso.”

Nascido em lar evangélico, mas hoje “um crente sem igreja”, seria equivocado definir Batman como um representante da ultradireita que tem em Bolsonaro um de seus protagonistas, ao menos se dermos crédito ao que ele mesmo diz. Por isso, em princípio, surpreende sua insistência em se aproximar da família Bolsonaro, também do filho Flávio, igualmente reacionário, na defesa pública do impeachment que pode ter em 15 de março sua maior manifestação popular até o momento.

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Bolsonaro tem um jeito louco que agrada Eron Melo, o Batman dos protestos

Seria difícil, por exemplo, ouvir de Bolsonaro a reflexão de que  “a PM é violenta, porque a sociedade é violenta” ou a defesa de punição a policiais que cometem crimes (“Deveriam pegar o dobro de pena, porque a quem muito é dado muito é cobrado”). Também ao contrário do ídolo, Batman não se declara contrário à união civil de indivíduos do mesmo sexo. Depois de alguns minutos de dúvida, conclui até ser a favor, embora considere o debate  “pouco importante”.

Zeloso pela segurança dos homens de bem, o paladino defende, claro, a redução da maioridade penal. “É fundamental”, afirma. “Fala-se da segunda chance dos bandidos, mas a vítima não tem segunda chance.” Ao mesmo tempo, diz abominar a tese de que “bandido bom é bandido morto”. “Esse pensamento é culpa da impunidade.” É contra o aborto e sugere uma opção às mulheres, doar o filho indesejado.

Nas histórias em quadrinhos, Batman é um ser atormentado, ambíguo. O mesmo parece acontecer com sua versão carioca. Ao entusiasmo com Bolsonaro une-se uma admiração por Martin Luther King, “um exemplo por ter lutado pelos direitos civis, sem o apoio dos políticos”. E quem são os vilões? Essa é fácil: Lula seria o Coringa e Dilma Rousseff, a Duas Caras (“por fazer agora o que negou durante a campanha”).

Quando não está fantasiado nos protestos, Melo gosta de assistir a filmes de super-heróis (santa obviedade, diria Robin) e ler. Uma de suas obras preferidas, diz, é A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, do pensador comunista Friedrich Engels (esta nem o mordomo Alfred adivinharia).

O Bruce Wayne brasileiro não tem um Batmóvel e vai de metrô aos protestos. Vive de vender próteses dentárias e divide uma casa simples com a mãe e a esposa no subúrbio de Marechal Hermes. “Você tem de entrar na política, meu irmão”, aconselha um vizinho. “Ja fui cotado muitas vezes, mas eles nunca dizem de que partido ligam”, desconversa. Pelas estatísticas, Batman teria uma carreira bem-sucedida. Tradicionalmente, perto de 20% do eleitorado brasileiro vota em candidatos com pautas conservadoras. Se insistir nessa linha, o Homem-Morcego dos protestos pode vir a disputar votos com seu mentor Bolsonaro (que, convenhamos, tem o physique du role para desempenhar o papel de Alfred).

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