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Número 839,

Internacional

União Europeia

Quem tem medo de Angela Merkel?

por Gianni Carta publicado 28/02/2015 06h43, última modificação 03/03/2015 15h06
Não é apenas Tsipras quem mostra desconforto em relação à hegemonia alemã
Lukas Schulze/AFP
Angela Merkel

A "Mutti" no supermercado é uma alemã comum

De Paris

Os alemães a chamam carinhosamente de Mutti, ou Mamãe. Os defensores de políticas econômicas de austeridade, concentrados em sua maior parte no mundo neoliberal anglo-saxão e ao Norte do Velho Continente, a conhecem como “chanceler da Europa”. Eleita três vezes consecutivas, Angela Merkel, no poder desde 2005, é a chanceler mais longeva e popular na história moderna da Alemanha.

Em dezembro, pesquisas de opinião pública indicavam que o nível de popularidade de Merkel era de 75%, porcentual inédito, especialmente em época de aversão a políticos. E acrescente-se o fato de a economia alemã ter sido atingida pela crise financeira. Tudo leva a crer, porém, que ela não será candidata nas legislativas de 2017, também por uma questão de desgaste político no palco europeu. Mas há quem diga que ela poderá recuperar seu papel dominante no Velho Continente.

Em jogo estão as negociações da dívida da falida Grécia. E a provável vitória na Espanha, no fim deste ano, da legenda Podemos. Será crucial o apoio às agremiações radicais da Grécia e da Espanha por parte do premier italiano Matteo Renzi, e de seu homólogo francês François Hollande, ambos de centro-esquerda.

Na Grécia, a chanceler é retratada com um bigode à Adolf Hitler. Após cinco anos de austeridade, implementada pela chamada Troika (Banco Central Europeu, UE e FMI), com o aval de Merkel, os indicadores econômicos são calamitosos em Atenas. Dívida de 320 bilhões de euros. Contração econômica de 25% desde o início, seis anos atrás, da crise na Zona do Euro. Por tabela, o nível de desemprego entre os jovens chegou a 50%. Um terço da população mergulha na miséria.

Por essas e outras, o povo elegeu, em janeiro, o jovem Alexis Tsipras, da legenda de esquerda radical Syriza. Com seus casacos de couro, o descolado ex-professor e agora ministro da Fazenda grego, Yanis Varoufakis, formulou um plano econômico antiausteridade. Na terça-feira 24 foi validado pelo Eurogrupo, isto é, os 19 ministros da Fazenda da Zona do Euro. E assim, a Grécia conseguiu uma extensão de seu programa por quatro meses, cujo prazo inicial ia até sábado 28.

Tsipras teve de abrir mão de várias promessas feitas durante sua campanha. Por exemplo, não haverá recontratação de funcionários demitidos e o salário mínimo não será incrementado. Por outro lado, o governo grego poderá atenuar a “crise humanitária”, com garantias para aqueles sem seguro social. Disse o comissário de assuntos econômicos da UE, Pierre Moscovici: “Isso não significa que aprovamos as reformas. Significa que consideramos as propostas suficientemente sérias para continuarmos a negociar”. Em miúdos, os gregos, ao contrário do que prometia Tsipras, continuam sob a tutela da Troika. Prova disso é o fato de a Troika estar de olho para ver se o premier grego será eficaz no combate contra a evasão e fraude fiscais, e na redução do número de ministérios.

Tsipras parece ter recebido algumas aulas de diplomacia de Jean-Claude Juncker, o novo presidente da Comissão Europeia. Juncker quer pôr um fim à hegemonia de Merkel, cuja ascensão resulta da crise do euro. O Conselho Europeu, que representa os 28 países do bloco, tornou-se mais poderoso do que a Comissão Europeia. O motivo? São os líderes europeus a financiar os pacotes de resgate, donde o comando da líder do país mais poderoso da UE. Mas, apesar das aulas de diplomacia, Tsipras cometeu um deslize ao pedir uma indenização de 162 bilhões de euros pela ocupação alemã da Grécia durante a Segunda Guerra Mundial.

No caso, a chanceler saiu fortalecida, visto que na Alemanha a opinião pública julga o premier grego impetuoso. Os alemães uniram-se atrás de Mutti, a qual, diga-se, não aprecia o apelido. Pelo menos não o apreciava no início de sua carreira. De saída, assim a chamavam os rivais machistas da própria sigla conservadora por ela liderada, a União Democrata-Cristã (CDU). E ser chamada de “Mamãe” pelos conterrâneos parece, de fato, excessivo. Freud, cuja língua materna era também a de Kant, submeteria à análise a nação em peso. E talvez chegasse à seguinte conclusão: o povo, ainda traumatizado com a hiperinflação dos anos 1920 da República de Weimar, que, segundo teóricos neoliberais, teria levado ao poder Adolf Hitler, busca a proteção da mãe. E é crucial o fato de ela ser favorável a programas de austeridade. Para numerosos alemães, essa parece ser a única solução para a recuperação econômica.

Aos 60 anos Merkel lembra uma robusta mãe volitiva. Fotógrafos encontram Mutti com facilidade a empurrar um carrinho em um supermercado de Berlim. Com seu corte de cabelo em forma de tigela e um claro descaso em relação às roupas que veste, surge em cena como cidadã comum. Disciplinada, contudo. Nascida em Hamburgo, foi criada e fez seus estudos na República Democrática Alemã (RDA). Voltou a viver na parte ocidental com a reunificação alemã, em 1990. Filha de pastor luterano, cientista com doutorado em química quântica. Amante dos gráficos, a chanceler aplica sua metodologia no tablado político.

Do Norte do Velho Continente, esta senhora com raízes protestantes dita aos 28 líderes da UE duas linhas cardinais: reformas e limites de 3% para déficits públicos, estabelecidos pelo Pacto de Estabilização. O mínimo deslize por parte dos “preguiçosos” países católicos do Mediterrâneo, e eis que seus líderes recebem puxões de orelha. Se para os germânicos dívida significa pecado, para os keynesianos uma política econômica expansionista por parte do Estado é a fórmula para relançar a economia. Segundo os seguidores de Keynes, foi o elevado nível de desemprego que levou Hitler ao poder em 1933, em lugar da hiperinflação. Mesmo assim, Mutti e seus conterrâneos continuam a criticar os mediterrâneos pelo fato de eles acumularem dívidas, enquanto pedem que sejam canceladas. Vale lembrar: a dívida alemã foi perdoada em 1953.