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Número 839,

Cultura

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As origens e influências do Palácio Gustavo Capanema

por Nirlando Beirão publicado 20/03/2015 05h05, última modificação 11/06/2015 20h16
Livro conta a história do edifício carioca, a primeira construção brasileira a trazer o DNA do modernismo
Palácio Capanema

A incrível revolução das linhas e espaços do palácio confunde-se com outra, política

O primeiro prédio no Brasil a trazer no DNA o modernismo em sua plena e radical monumentalidade – os palácios de Brasília só viriam duas décadas depois, e as residências projetadas em São Paulo por Gregori Warchavchik não entram nessa categoria de majestoso – tem raízes remotas plantadas num episódio do qual foi protagonista involuntário Antoine de Saint-Exupéry.

Não o St.-Exupéry em sua versão escritor, cujo talento literário acabou ofuscado ao virar xodó de nove entre dez candidatas dos concursos de miss, mas o St.-Exupéry em sua faceta de piloto que, entre outras façanhas, implantou a rota de correio postal entre o Velho Mundo e a América do Sul, tema de seu Vol de Nuit (de 1931).

O acaso ocorreu em 1929, dois anos antes da publicação e 14 anos antes do início da construção do pioneiro prédio modernista do Rio de Janeiro. A 1,2 mil metros de altura, a bordo de um avião Latécoère da Companhia Sul-Americana de Navegação Aérea, no voo inaugural da rota Buenos-Aires-Assunção que St.-Exupéry, então representante da Aéropostale na capital argentina, decidira conduzir ele mesmo, um convidado estrangeiro anotava febrilmente ideias que lá do alto as imensidões ainda vazias da terra sulina lhe inspiravam.

“Trajava terno de linho branco, gravata borboleta e redondos óculos de chifre de boi”, conta o antropólogo, arquiteto, crítico de arte e curador Lauro Cavalcanti em Dezoito Graus/Rio Moderno, uma história do Palácio Gustavo Capanema. Era arquiteto, o tipinho. Nasceu na Suíça, porém logo iria se naturalizar francês: chamava-se Charles-Edouard Jeanneret-Gris, mas já tratava de encurtar o caminho até a posteridade com o pseudônimo de Le Corbusier. Ele seria o alicerce teórico – e mercadológico – do futuro monumento carioca.

Naquela viagem embebida em mitos, Le Corbusier implicou com o simulacro europeizante de Buenos Aires, “cidade sem esperança” para um arquiteto propenso a quebrar paradigmas. Mas, de volta à Europa, de navio, onde caiu apaixonadamente nos braços da fogoza Josephine Baker, levou uma rotina “repleta de América”. Da capital do Brasil, guardou “a inesquecível e entusiasmante magia”. O Rio era então sacudido por uma vertigem de urbanismo. A derrubada do Morro do Castelo simbolizava novos tempos. Logo, logo, Le Corbusier iria juntar seu toque de classe e sua já prestigiosa grife ao ícone mais estrepitoso dessa revolução.

Revolução que, na política, foi literal, com a chegada ao Palácio do Catete de Getúlio Vargas a bordo de um movimento armado que visava aliviar o País da elite azinhavrada da Velha República de polainas, fraque e alfazema – essa que sobrevive, qual relíquia caricata, na política paulista. Assim como Benito Mussolini fazia na Roma imperial, Vargas e seu grupo pretendiam imprimir na paisagem urbana as marcas de um estilo arejado – fosse ele qual fosse.

O regime que começou democrático e virou ditatorial plantou, ao longo da Esplanada do Castelo, um mostrengo neoclássico de pilastras dóricas à guisa do Ministério da Fazenda e erigiu um caixote pós-decô para o do Trabalho, de inspiração tão fascistoide quanto a legislação que viria depois reger as relações entre patrões e empregados no Brasil.

 

Os novos próprios da República não contrariavam nenhum dos paradigmas estéticos da vizinha Escola de Belas-Artes, guardiã do cânone do status quo, e assim teria sido se o mineiro Gustavo Capanema não tivesse ousado jogar no lixo o resultado do concurso público para o projeto para seu Ministério da Educação e Saúde. Lauro Cavalcanti, cujo texto obedece aos desígnios de um escritor escorreito e erudito, descreve as minúcias de uma arriscada manobra que exigiu o aval do próprio presidente da República.

Liberado por Vargas, Capanema entregou a Lúcio Costa – aquele do pavilhão brasileiro da Feira Mundial de Nova York em 1930 – a responsabilidade de um impacto. Escolhê-lo significava recrutar o time de irrequietos talentos a gravitar em torno do ex-diretor da Belas-Artes que pediu demissão porque achava aquilo careta demais. Os talentos precoces: Oscar Niemeyer, Affonso Redy, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira, Ernani Vasconcellos – o elenco por trás do hoje Palácio Capanema. A eles se agregaria o promissor paisagista Burle Marx.

Para se proteger de interesses contrariados e ciúmes fatais, Costa intuiu que valia a pena agregar ao projeto a assinatura – e a cumplicidade – daquele europeu que era a grande referência do grupelho de arquitetos com pendor modernista. É aqui que Le Corbusier, a quem o Rio tinha suscitado a coceira de oportunidades desafiadoras, regressa à história. Graças a um brasileiro que morava em Paris, Alberto Monteiro de Carvalho, o convite foi feito. O mestre aceitou. Pegou um trem na Gare du Nord, embarcou no Graf Zeppelin em Frankfurt e chegou ao Rio cinco dias depois, em 13 de julho de 1934. Recebeu-o, no aeroporto de Santa Cruz, a entusiástica claque de Costa.

A delicada tarefa da franqueza com diplomacia recaiu sobre Costa: explicar ao mestre suíço-francês que, para efeitos formais e protocolares, o projeto era dos brasileiros. Le Corbusier fora convocado para uma, digamos, consultoria. O futuro criador do Plano Piloto de Brasília embarcou Le Corbusier em seu Lancia Lambda. Conversaram. E o mestre entendeu. Ao apresentar o esboço de seu projeto, dias depois, revigorado pelo mar e pela hospitalidade do Hotel Glória, Le Corbusier se fez de modesto. Tinha apenas “aberto as asas de vosso projeto”, disse à equipe de Costa.

 

Propôs um edifício de pilotis, com perfil baixo e alongado. O térreo ficaria quase completamente livre de construção, pois somente o auditório não estaria suspenso, graças às técnicas modernas, que possibilitavam usar em grande escala esse recurso milenar. Em suas palavras: “Conservo esta esplanada natural e plana, de modo que o Palácio da Educação possa receber as multidões que, esperemos, sejam atraídas por espetáculos e concertos”.

No caldeirão de paixões políticas do Estado Novo, a obra virou novela. A pedra fundamental foi lançada em abril de 1939 e a inauguração só se deu em outubro de 1945, com a presença de Vargas. Foi seu último ato público, dias antes de ser apeado do poder por um golpe militar. Na verdade, o gabinete do ministro já estava ali precariamente instalado desde abril de 1944.

As peripécias refletem os humores da conjuntura. Capanema, o ministro, era de índole conservadora na política, mas ousado nas ações culturais. Seu chefe de gabinete, o poeta Carlos Drummond de Andrade, apadrinhava, ainda que em estilo low profile, intelectuais turbulentos como aqueles que já vinham de longa militância modernista, como Oswald e Mário de Andrade, ícones da Semana de 22. Tarsila do Amaral, Rodrigo Mello Franco de Andrade (que lançou as bases da proteção ao patrimônio histórico no Brasil), o maestro Heitor Villa-Lobos, Manuel Bandeira, o austríaco Stephan Zweig, a escultora Maria Martins, toda a fina flor da intelligentsia nativa gravitava ao redor de Capanema e Drummond.

Vargas partiu para cima dos comunistas depois do levante de 1935. Deu corda aos integralistas, versão cabocla do nazifascismo abençoada pela ala germanófila do governo, ou seja, figuras como Felinto Müller e Lourival Fontes. Antes de neutralizá-los, Getúlio chegou a simular que daria a Plínio Salgado, chefe do bando, o Ministerio da Educação. Para a direita, Le Corbusier, Costa, Drummond, Niemeyer – eram um ninho de bolcheviques. Plínio Salgado com certeza jogaria o projeto no lixo.

 

O Palácio retrata ainda hoje, ali na Avenida Graça Aranha, com uma imponência de paradoxal leveza e aquela amplidão refletida nos azulejos de outro esquerdista, Candido Portinari, um Brasil de contradições e coragem. Ali está o germe da Pampulha, para a qual o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, iria recrutar o talento de Niemeyer – ali está a raiz da Brasília que o mesmo JK ergueria nos ermos do Planalto Central, com o traço rebelde dos herdeiros de Le Corbusier.

Há uma placa no prédio: “Segundo risco original de Le Corbusier”. O homenageado achou pouco. Queixou-se até dos honorários. Em 1949, Costa lhe enviou uma carta com o título “Acerto de Contas”. Lembrou que, em quatro meses de Rio, ele ganhou mais do que toda a equipe em seis anos. E terminou, em luvas de pelica: “Se a floração é bela, deveria lhe dar prazer, pois o tronco e as raízes são você”.