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Número 838,

Internacional

Europa

Uma nova onda antissemita abala a Europa

por Gianni Carta publicado 07/03/2015 07h46
A tendência fermenta em primeiro lugar na França, mas também em outros bolsões pelo continente. Por Gianni Carta, de Paris
Claude Truong-Ngoc/AFP

De Paris

Dois eventos levaram os europeus em má sintonia com a realidade a acordar: o antissemitismo não acabou com a Segunda Guerra Mundial. No sábado 14, um atentado duplo deixou dois mortos e cinco feridos em uma sinagoga e em um centro cultural, em Copenhague. No domingo 15, centenas de túmulos foram profanados no cemitério judaico de Sarre-Union, na Alsácia, noroeste da França. Pouco mais de um mês atrás, outro islamita radical tirou a vida de quatro franceses de confissão judaica em um supermercado kosher, em Paris. Naqueles dias de terror, houve dois outros atentados, sempre na capital francesa, a envolver no mínimo três terroristas franceses de ascendência árabe. Assim, outras 13 pessoas inocentes foram assassinadas, incluídos os caricaturistas do Charlie Hebdo.

Por ocasião do atentado de Copenhague, a premier Helle Thorning-Schmidt mostrou-se realista: “Estamos habituados – disse ela – faz muito tempo a viver sob um nível de alerta elevado. E os eventos de hoje sublinham que a avaliação da ameaça estava correta”. Em cerimônia no cemitério de Sarre-Union, na terça 17, François Hollande indagou: “Como compreender o indescritível, o insuportável, o injustificável?” Acrescentou: “Estou a par do sentimento de ansiedade que toma os franceses de confissão judia. Sei que eles refutam esmagadoramente a perspectiva de deixar a pátria deles. Eles são franceses, amam a França e seu lugar é naturalmente a França”.

Hollande quis, mais uma vez, bater de frente com Benjamin Netanyahu, que, ao vir a Paris para se solidarizar com os judeus franceses depois do ataque à redação do Cherlie Hebdo, convidou-os para ir viver em Israel. Após o ataque à sinagoga de Copenhague, o premier israelense estendeu o convite a todos os judeus europeus. Venham a Israel, disse, porque o Velho Continente continua a ser a “mesma velha Europa”. Hollande não deixa de ter um problema sério: cresce o número de judeus franceses que executam o aliya (ascensão), ou seja, emigrar para Israel. Em 2014, foram 7.213, ante 3.293 em 2013. Na previsão o número eleva-se para 10 mil.

Dados relevantes na visão francesa: com 550 mil cidadãos de elos judaicos, a França tem a maior população de judeus na Europa, a despeito de representarem apenas 1% do total da população. Mas vale acentuar que não escasseiam motivos a levar milhares de judeus franceses, e europeus, a emigrar para Israel. A começar por indicadores bastante preocupantes. Segundo o Serviço de Proteção da Comunidade Judaica (SPCJ) e do Ministério do Interior da França, houve um acréscimo de 101% de atos antissemitas em 2014, em relação a 2013. Pior: esses atos antissemitas são cada vez mais violentos. De 2013 a 2014, houve acréscimo de 130% de ataques violentos, de 105 para 241. Outro dado: 51% dos ataques racistas na França são antissemitas. Não envolvem somente muçulmanos radicais com passaportes europeus. Roger Cukierman, presidente do Crif, conselho que representa grupos judaicos na França, ao falar na cerimônia realizada no cemitério de Sarre-Union, admitiu a presença, entre os vândalos antissemitas, de “desequilibrados, neonazistas e até satanistas”.

Independentemente das motivações de quem age contra os judeus, carregadas de raiva antissemita reverberam em bolsões Europa afora. Em meados do ano passado, um imã na Alemanha pediu para Alá “destruir os sionistas judeus”. Na Itália, outro imã falou sobre a exterminação dos judeus, antes de ser deportado. Na Espanha, o dramaturgo Antonio Gala, de 83 anos, disse ao diário conservador El Mundo: “Não me parece estranho que eles (judeus) tenham sido sempre expulsos”. Em entrevista ao semanário Le Point (“Ser judeu na França” é a chamada de capa), o pensador Shmuel Trigano pondera: “O questionamento pele Parlamento da UE a respeito da liberdade de circuncisão e do abatimento kosher revelou a ansiedade de uma Europa intolerante, na qual os judeus correm o risco de se tornar uma minoria transnacional, definida pela sua religião...”

O antissemitismo parece ter raízes mais profundas na França. Em 2006, Ilan Halimi, 23 anos, foi torturado e assassinado. Era judeu. Seis anos depois, o francês de origem argelina Mohamed Merah, ex-jihadista do Taleban paquistanês, matou sete pessoas em Toulouse. Um dos ataques foi contra uma escola judaica e três crianças e um jovem rabino foram assassinados. Em maio de 2014, Mehdi Nemmouche, outro francês de origem argelina com passagem pelo Estado Islâmico, matou quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas.

Os números de agressões antissemitas acima citados na França, que vão desde atos de vandalismo até de jihadismo antissemita, levam vários judeus franceses a considerar a possibilidade de executar o aliya. Entra na equação uma vitória de Marine Le Pen, da legenda extremista Frente Nacional, na presidencial de 2017. Após ter conquistado pontos nas pesquisas de opinião pública pelo seu comportamento na manifestação de 11 de janeiro pela morte dos chargistas do Charlie Hebdo, Hollande está novamente em baixa. Em artigo publicado pelo Libération, Simone Rodan-Benzaquen, diretora do American Jewish Committee em Paris, elogia Hollande por ele ter “tornado a luta contra o racismo e o antissemitismo uma grande causa nacional”. Acrescenta, porém, que durante anos “alguns de nossos responsáveis políticos fizeram a cama do terrorismo, do populismo, do salafismo e do antissemitismo”. O maior problema “foi a instrumentalização da causa palestina”, que acabou sendo transformada em “apoio ao terrorismo”. Segundo Rodan-Benzaquen, o conflito israelo-palestino foi importado para o território francês. E, assim, numerosos defensores da criação de um Estado palestino, ou mesmo antissionistas, usam essas posições políticas para camuflar seu antissemitismo.

Há antissionistas e antissionistas. Por exemplo, o cineasta britânico Ken Loach jamais foi criticado como antissemita. Ele juntou-se a centenas de signatários britânicos de uma petição de boicote cultural a Israel. Publicada pelo Guardian, a petição precisa que o boicote dure “enquanto Israel não respeitar a lei internacional e continuar sua opressão colonial contra os palestinos”. Detalhe: a França apoia, no Conselho de Segurança da ONU, a criação de um Estado Palestino. Rodan-Benzaquen rebate: “Nenhuma ideologia pró-palestina justifica, na França, a sede de querer humilhar e matar os nossos”. Ela quer acabar com uma retórica ambígua. De fato, Hollande e o premier Manuel Valls já perceberam a falha, e pretendem mudar o discurso. Valls proibiu o tour e shows do comediante Dieudonné, com pais oriundos da República dos Camarões. Dieudonné foi interrogado pela polícia, pagou uma multa de 65 mil euros porque disse que um jornalista judeu-francês deveria ser sacrificado em uma câmara de gás.

Além de aumentar a segurança da comunidade judaica e de reprimir o racismo de forma geral, Hollande e Valls querem lançar um debate nacional para mudar as percepções dos franceses sobre diferentes raças e religiões. Mas, como dizem vários observadores, os jovens muçulmanos, marginalizados pela sociedade, não podem ser excluídos. E a retórica de Marine Le Pen é islamofóbica.

Mesmo diante da ameaça antissemita, Zvi Bar’el, colunista do diário israelense Haaretz, desencoraja o aliya. “Judeus europeus trocarão o antissemitismo europeu pelo racismo israelense.” Viverão em um país onde “esquerdistas são comparados a colaboradores nazistas que querem destruir o país”. Ficarão aliviados ao perceber que o racismo contra eles não é comparável àquele praticado contra os etíopes. Mais: “A situação na Europa poderá piorar, mas em Israel o risco é muito maior”. E por que o senhor Bar’el vive em Israel? “Nós somos israelenses. (...) O foco de nossa identidade é a sobrevivência, não a qualidade de vida.” Como disse o presidente israelense Reuven Rivlin, o aliya tem de ser motivado pela vontade, não pelo medo.

*Reportagem publicada originalmente na edição 838 de CartaCapital, com o título "Uma nova onda antissemita"