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Número 838,

Cultura

Festival Internacional de Cinema de Berlim

Temática feminina domina edição do Festival de Berlim

por Orlando Margarido — publicado 21/02/2015 05h47, última modificação 21/02/2015 07h01
Os filmes em seleção propuseram a revisão histórica e a luta contra antigas opressões
Divulgação
regina

Do riso ao drama. No brasileiro Que Horas Ela Volta?, a luta de classes

De Berlim

A cena correu o mundo. Ao entrar no palco conduzida pelo próprio diretor do Festival de Berlim, Dieter Kosslick, a pequena Hana Saeidi mal conseguiu balbuciar algumas palavras de agradecimento e desatou num choro convulsivo. Em mãos, portava o Urso de Ouro ao filme Táxi, do tio e cineasta Jafar Panahi, ausente do evento por estar preso no Irã. Uma hora depois, o troféu era exibido na sala de encontros com os jornalistas. Terminava no dia 14, entre midiática e política, a 65ª edição da Berlinale, simbolizada pela menina ainda sem o véu, este que logo mais cobriria sua cabeça. A cena era oportuna por remeter à seleção de filmes marcada por encenações de mulheres decididas a combater a opressão e a intolerância.

Foi delas este festival aberto com uma Juliette Binoche determinada a reencontrar o marido e a fincar bandeira no Polo Norte em Nadie Quiere La Noche, de Isabel Coixet, e encerrado com Cinderela. A versão do inglês Kenneth Branagh mantém-se no registro do conto de fadas, mas confere à heroína o direito de ir à luta pelo príncipe. Mais da metade dos títulos da competição oficial do festival, cujo júri era integrado por três mulheres, contemplava protagonistas femininas ou personagens que se impunham ao universo masculino. No premiado Táxi, Hana Saeidi apresenta ao tio famoso o projeto escolar de um filme amador sobre seu cinema. (Pouco depois da premiação, seria tocante a entrada em cena da advogada do diretor, que atualizou o caso aos presentes.)

Muitos dos filmes com temática feminina foram dirigidos por homens. Andrew Haigh chegou a comentar durante entrevista coletiva que, não fosse pela ajuda da atriz Charlotte Rampling, jamais teria conseguido se afinar com o tema do ciúme feminino em 45 Years. O realizador recebeu um reconhecimento indireto pelo trabalho ao ver premiados como melhores intérpretes Rampling e seu parceiro de cena, o veterano inglês Tom Courtnay. Ele é o marido que conta à mulher, às vésperas da festa de 45 anos de casamento, a relação apaixonada com a primeira esposa, desaparecida num acidente trágico. A partir do mote, a atriz passa a dominar o drama.

O caso mais emblemático do peso da importância feminina cabe ao vencedor do Grande Prêmio do Júri, o filme El Club, do chileno Pablo Larraín. O clube em questão refere-se ironicamente às casas paroquiais que abrigam religiosos afastados por pedofilia, postura política ou corrupção durante a ditadura no país. Larraín destaca a maioria de homens levada a essas residências, mas a única mulher do elenco, sinistra e assustadora, faz a diferença. “Me pareceu que isso quebraria aquela noção de bondade que se espera de uma freira”, disse o diretor em entrevista a CartaCapital. “Por certo, ela tem mais fé que os homens ali, o que a liberta de culpa por seus atos.”

O cineasta concorda que a cultura latina torna as mulheres mais vulneráveis a um domínio masculino e social. Outros concorrentes da região premiados comprovam a tese. Ainda que um documentário sem tal perspectiva, o impressionante El Botón de Nácar, do também chileno Patrício Guzmán, vencedor de melhor roteiro, traz a memória dolorosa do fim de uma etnia na voz de uma índia idosa que mantém o valor de sua língua. Da mesma forma, a mãe e a filha maias da produção guatemalteca Ixcanul são exemplares modernos de uma oposição ao meio machista. “Na raiz cultural, elas são desconsideradas no próprio destino, mas se trata de uma sociedade matriarcal na prática”, diz o jovem diretor Jayro Bustamante, que mereceu o Prêmio Alfred Bauer de nova contribuição ao cinema. No filme, a jovem rebela-se contra o casamento arranjado, entrega-se a quem ama, engravida e é recusada pelo noivo.

Sociedades antigas, arcaicas, vistas como selvagens e atrasadas por aquelas ditas superiores, estiveram representadas no festival em situações de confronto. A exploradora Josephine Peary de Juliette Binoche, em luta contra uma rival esquimó, tem vínculos com outra protagonista real, a escritora e arqueóloga Gertrude Bell, vivida por Nicole Kidman em Queen of Desert, de Werner Herzog. Em Vergine Giurata, uma ausência reprovada entre os premiados do festival, a diretora estreante Laura Bispuri ecoa com inventividade a questão de gênero. Nesse filme italiano discute-se o Kanun, o código de honra dos albaneses. Ele recai sobre as duas filhas de uma família camponesa, obrigadas a uniões negociadas. Para fugir a esses casamentos, uma das meninas foge com o namorado, enquanto a outra se traveste de homem. Ao rumar para a Itália mais tarde, reencontra a irmã, enfrenta a resistência à sua figura ambígua e descobre a feminilidade.

O tom dramático desses painéis sociais só foi quebrado fora da competição oficial. Coube à brasileira Anna Muylaert, na seção paralela do Panorama, tratar com humor do característico choque de classes no País em Que Horas Ela Volta? A comédia traz Regina Casé como uma doméstica conformada que recebe a filha vinda do Nordeste (Camila Márdila) na casa do bairro paulistano do Morumbi onde trabalha. A jovem incomoda ao contestar o preconceito. O público da Berlinale aplaudiu a crítica e elegeu o filme seu preferido.