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Número 838,

Economia

Análise/Thomaz Wood Jr.

O trabalho nas telas

por Thomaz Wood Jr. publicado 26/02/2015 09h10, última modificação 16/06/2015 17h35
Documentários indicados ao Oscar fazem refletir sobre o sentido da labuta
Divulgação
O Sal

Cena de O Sal da Terra, de Wim Wenders

Entre os cinco documentários indicados ao Oscar de 2015 encontram-se duas obras sobre fotografia: The Salt of the Earth, codirigido por Wim Wenders e Juliano Salgado, e Finding Vivian Maier, codirigido por John Maloof e Charlie Siskel. Além de tratar de fotografia, os dois filmes expõem, nos entrequadros, a tempestuosa relação entre o homem e o trabalho.

The Salt of the Earth (que este escriba não assistiu) mostra a vida e a fabulosa obra fotográfica do brasileiro Sebastião Salgado. Nascido em Aimorés (MG), em 1944, Salgado graduou-se em economia e exilou-se na Europa durante o período militar. A partir da base parisiense viajou pelo mundo, trabalhando para organizações internacionais. No início da década de 1970, desistiu de uma boa oferta de trabalho e aventurou-se nas trilhas do fotojornalismo, uma ocupação totalmente nova para ele. Trabalhou para as grandes agências do mundo, inclusive a mitológica Magnum, antes de criar, com a esposa e colaboradora, sua própria agência.

 

Seguiram-se projetos de grande vulto, que geraram exposições e livros. Estão sempre presentes em sua obra a visão humanista e a preocupação com temas sociais: a pobreza, a injustiça, os conflitos pela terra, as migrações e o trabalho. Seu último projeto, Genesis, resultou de quase uma década de viagens ao redor do mundo, em busca de paisagens intocadas pelo homem e de comunidades que ainda vivem segundo tradições ancestrais. Em entrevistas, Salgado declarou que, antes de Genesis, vivia um momento difícil, de depressão e descrença, motivadas pelo contato com as mais contundentes tragédias humanas do planeta. O projeto representou uma reviravolta positiva na vida e no trabalho do fotógrafo.

Finding Vivian Maier (assistido por este escriba) traz duas narrativas paralelas: apresenta a obra da fotógrafa norte-americana e conta as aventuras do codiretor e coprodutor John Maloof para descobrir a pessoa por trás das imagens. Tudo começou quando Maloof arrematou, por acaso, em um leilão, uma caixa cheia de negativos de fotografia. Seguiu-se a descoberta de uma obra ímpar, cujas imagens lembram grandes nomes da fotografia do século XX, como Diane Arbus, Robert Frank, Weegee e Dorothea Lange. Ocorre que Maier nunca mostrou ou divulgou suas fotografias. Sobreviveu como babá, aproveitando seus momentos de folga e suas férias para fotografar.

A investigação de Maloof revela um pouco de Maier e deixa outro tanto por conta da imaginação da plateia. Ela era gentil com as crianças, porém eventualmente cruel. Vivia reclusa e era um pouco excêntrica. Tinha uma personalidade reservada e morreu solitária, pouco antes de ter sua obra descoberta por Maloof.

O trabalho é fonte de prazer e sofrimento, realização e frustração. Um trabalho que faz sentido, afirmam os especialistas, é aquele que permite a autorrealização e o aprendizado, que conseguimos fazer bem-feito e que gera algo socialmente útil, que garante o sustento e favorece as relações com os nossos pares. Na vida real, quando encontramos alguns desses requisitos, outros nos escapam, mas continuamos a persegui-los.

 

The Salt of the Earth e Finding Vivian Maier retratam duas trajetórias diferentes de busca do sentido do trabalho. Sebastião Salgado projeta em deslumbrantes imagens suas convicções, sua sensibilidade e a técnica de um incansável artesão. Tem na companheira Lélia Wanick Salgado o par ideal, a construir a ponte entre a ideia e o projeto, entre o registro e a audiência. Especular sobre a enigmática Vivian Maier é um risco, mas não deixa de ser sedutor vê-la como profissional de pureza singular, a preservar seu trabalho do mundo ao redor, um mundo que poderia ignorá-lo ou celebrá-lo, ou pior, nele interferir.

Sorte nossa que Salgado enfrentou seus fantasmas e continua a nos despertar profundas emoções e reflexões. Sorte nossa que Maier preservou durante décadas sua capacidade de captar com sensibilidade e sobriedade o cotidiano, e agora nos ofertou um magnífico presente. Talvez ela seja desconcertante porque, como sugeriu Rose Lichter-Marck, na revista The New Yorker, Maier não se ajusta à ideia que fazemos do que um artista, uma pessoa ou uma mulher deveriam ser. Ela aparentemente não se interessava por dinheiro ou por mostrar suas imagens. Porém, garantiu a si mesma total liberdade para fazer seu trabalho: fotografar.