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Número 838,

Cultura

Espiritualidade

O guru que aprendeu a ler a aura da elite paulistana

por William Vieira — publicado 02/03/2015 04h25
Luc Bouveret contabiliza 1,5 mil leituras de clientes como a estilista Gloria Coelho e Laly Mansur, que pagam 400 reais por consulta
Davi Ribeiro
Luc Bouveret

Para o guru da elite, Luc Bouveret, não há paradoxo em ser rico e ter uma rica espiritualidade

Quando abre-se o portão da casa de muros altos cobertos por trepadeiras no Alto de Pinheiros, em São Paulo, um jovem empregado conduz o visitante por uma trilha de pedras cercada por palmeiras – no canto do gramado um Buda observa o percurso até a sala de vidro com cortinas brancas, cristais, velas e poltronas, numa das quais jaz Luc Bouveret. Com camisa indiana e um sorrido radiante, entre angelical e dêitico, satisfeito e seguro de si, o guru está pronto para a consulta.  Seja bem-vindo!”

A casa é parte de um projeto em ascensão, que ele, ainda de pé, começa a desfiar como as contas de um terço. “No começo, eu atendia em casa, mas a energia estava contaminando a família.” Luc fala pausadamente, mas sem parar, o sotaque francês a retorcer com charme exótico a sintaxe. “Então comprei esta para atender. E tem o imóvel em Pinheiros, que estou aumentando. Logo, nosso movimento terá o espaço devido. Tudo está dando tão certo!”

Por que trocou a França do luxo supremo, onde vendia antiguidades finas, pelo Brasil, começando um “movimento” que surgiu com uma síncope espiritual, ganhou a leitura de auras e retiros e hoje abarca dois imóveis e viagens à Índia é uma história tão cheia de meandros que exige sentar e ouvir o que a voz monotônica esmiúça com a fluidez de quem está a escrever sua biografia – na verdade, são duas: uma de sua pena e outra de uma jornalista.

Filho da “alta burguesia francesa” de Dijon, Luc teve educação rígida, conta enquanto serve chá de maçã. Até os 12 anos quis ser padre. A homossexualidade o fez duvidar de si e de Deus. Quando ganhou Paris, sozinho, foi um alívio. “Mas eu queria ser rico”, diz. Então estudou administração de empresas e foi trabalhar na Dior. Detestou. Aos 23 decidiu ser ator. E quase atuou com Catherine Deneuve, diz, mas cancelaram o filme. “Quebrei tudo de raiva.” Tentou outras saídas também. “Até ser gigolô, mas não deu. Quando o velho veio ao quarto, comecei a rir.” A honestidade de Luc comove. “Não tenho nada a esconder.”

Quando foi trabalhar no mercado de pulgas de Saint-Ouen, adentrou o mundo das antiguidades. No começo, o luxo era dos outros. “Mas virei o melhor vendedor  e abri meu estande. Ganhava fortunas! Era criativo.” Assim mirou sua presença loira das pulgas da periferia para a elegância de Saint-Germain-de-Prés, no número 7 do quai Voltaire. “Metade de Paris passava em frente à galeria com o meu nome.”

Mas foi no mercado mesmo que conheceu o decorador Jacques Garcia, com quem foi viver num castelo na Normandia com 80 cômodos, 20 criados e centenas de peças antigas, de cadeiras Luís XVI a pratarias reais. “Era um sonho.” O casal vivia na coluna social. “Ele era um pai, um amigo. Muitos  em Paris diziam que eu era gigolô. Mas eu também era rico!”

O romance durou sete anos e terminou, sobretudo, porque Luc queria um filho, que fez de barriga de aluguel na Califórnia – quando começou a escrever O homem Que Deu à Luz, prestes a sair. “Meu bebê nasceu de 6 meses e meio. Sofri muito, ele quase morreu. Então foi um milagre e aprendi muito.” De volta à França, verdade, comprou o “apartamento de D’Artagnan” e o decorou com muito luxo. “Sempre gostei do grande.” A matéria ainda dominava seus anseios. Foi só quando a espiritualidade o tocou no Brasil que as coisas mudaram. Não que ele tenha abandonado o conforto. Vive hoje em uma casa espaçosa com o marido e os filhos. “Mas não sou escravo do material. Antes, só viajava de primeira, usava roupas sob medida. Dolce & Gabanna. Férias em Capri. Tudo isso. Hoje eu gosto de dinheiro, claro, mas penso muito mais na felicidade do outro.” Como Nietsche, diz: nada traz conforto como fazer os outros felizes. “Madre Tereza também era feliz.”

Mas por que o Brasil? “Tudo era cinza em Paris”, retoma. Até conhecer a socialite brasileira (“sem nomes, por favor”), por cujo amigo casado se apaixonou. O grupo estava em sua galeria comprando a torto e a direito e se encantou com o sorriso de Luc. Por que ele não os visitava? Ele aceitou. Por dois anos, entre idas e vindas, teve um affair apaixonado. Por fim, decidiu migrar para o Brasil. Chegou 2008, acompanhado do novo marido, David.

Sem trabalhar, hospedado em uma mansão na Rua Argentina, a vida passou num átimo. “Foi um ano incrível”, diz, na São Paulo de uma elite endinheirada, entre a qual vivia em festas de gala nos moldes de Gatsby. “Era uma gente mais alegre e humilde. Os franceses são insuportáveis.” Como demandassem sua expertise, passou a trabalhar como curador de antiques, muitas trazidas de Paris para fregueses como os Camargo Nascimento.

Até que um raio epifânico mudasse sua vida de vez. Foi em Paraty, no Rio. “Sentei sob uma palmeira com O Livro dos Espíritos, de Alan Kardec, que tinha comprado no Frango Assado da Dutra. Nesse instante recebi uma eletricidade. Uma voz dentro de mim fazia perguntas. O que eu estava fazendo da vida?” Naquela noite, diz, deitou-se no cais para ver as estrelas. “E fui aspirado por uma espiral de luz. Me vi diante de um Sol. Foi um êxtase de amor inexplicável.” Nunca mais foi o mesmo.

“Dali em diante comecei a ver passado, presente e futuro dos outros.” Temeu estar louco. “Às vezes achava que era um profeta. Sonhava que as pessoas brigavam para me ver num palco ou estava no topo da montanha guiando os outros.” Até que fez um curso de leitura de aura na Bahia. “E tudo ficou claro.” A primeira vez que atendeu foi no fim de 2011. Hoje contabiliza 1,5 mil leituras de aura. “Ou seções de terapia quântica” – a sugestão veio de umas das clientes. Gente como a estilista Gloria Coelho, Laly Mansur, socialites em geral.

Luc explica: na sala de vidro, de frente ao cliente, ele fala ao peito. “Primeiro, dou todo meu amor. Amada, a pessoa abre o coração. Aí, peço ao espírito dela para me dar as respostas que ela precisa para achar seu equilíbrio.” É quando interrompe a conversa para analisar o interlocutor. Fecha os olhos, ora. E dá o diagnóstico. “Há em você uma criança e um sábio. Mas a criança é oprimida. Você tem medo. É a raiz do seu sofrimento. Quando aprender a aceitar a alegria da criança, será muito feliz.” O discurso é belo. Luc sabe o que diz e como. Ele abre os olhos e sorri. “Mais chá?”

Todo dia, às 7 horas, Luc medita, escreve um texto inspirado e vai até Maria Eugênia (com quem divide o espaço “e a vida”) lê-lo. Daí segue à casa onde o Buda o espreita, para três consultas a 400 reais. A rotina muda quando dá o curso de leitura de aura (2,5 mil reais) em uma fazenda a interessados em “purificar a alma”. Num desses conheceu Maria Eugênia. “E percebi que era minha alma gêmea.” Com ela e David, professor de ioga, atual companheiro e gerente-executivo da empreitada, forma um “triângulo amoroso” – sem sexo.

Luc esclarece: o que faz não paga as contas. “Não consigo me manter lendo auras. Vivo de renda. O que faço é por amor.” Amor ao movimento, explica. Luc pensa grande e quer dividir o que diz ter recebido em Paraty com os 5 mil seguidores do movimento – que ele batizou de New Ways. É uma rede de alunos dos cursos, frequentadores dos retiros e palestras, ligados a ele por uma lista de e-mails e “muito amor”.

Neste ano, Luc fez um tour pela Índia. Por 7 mil dólares, levou 18 almas para trilhar os caminhos de Buda. “Foi lindo.” Mas alguns deles se horrorizaram com a miséria local. Queriam ter a alma iluminada longe das crianças sem braço a pedir esmolas. “Por isso escrevi esse texto”, diz. Ele levanta, pega o iPad, põe os óculos e lê. “A laje que sustenta essa missão é o amor. Existem new ways de enxergar a vida.” A voz lembra uma narração hipnopédica. “Acostumados com a matéria, acreditamos que precisamos dela para ser felizes. Mas o sadhu não tem nada e é mais feliz.”

Não o acusam de contrassenso – buscar a espiritualidade cercado pela matéria? “Dinheiro é matéria boa. Só acho que deveria ter para todos.” Com a sabedoria de quem sempre viveu em meio à riqueza , mas também conheceu místicos mundos paralelos, Luc amacia o pobre coração da elite paulistana. Ele entende as agruras das senhoras que chegam à sua porta. Lê suas auras, conforta-as. Pois adora o dinheiro tanto quanto elas, diz, mas sente a urgência de ajudar o próximo.

“O propósito da minha vida é dar amor para as pessoas se encontrarem. Não faço isso por caridade, dinheiro, poder. Mas porque me faz feliz.” Luc é o guru perfeito para lidar com a ontológica complexidade dos paradoxos da elite paulistana.

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