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Número 838,

Cultura

Moda

Chantelle Winnie, Miss Diversidade

por The Observer — publicado 27/02/2015 04h26
O mundo da moda explora o vitiligo da modelo inglesa
Mary Rozzi
Winnie

Chantelle Winnie, de participante humilhada de um reality show a nova sensação das passarelas

Por Eve Barlow

Na manhã em que devo me encontrar com Chantelle Winnie, tenho uma consulta médica e menciono que vou entrevistar alguém com vitiligo, um problema de pele. O médico me aconselha a manter o contato visual o tempo todo, que não deixe meu olhar desviar para suas “anomalias” físicas. Eu estava preparada para perguntar a Chantelle o que ela achava disso, mas, um minuto depois de observar a modelo em plena ação, sob uma iluminação intensa destinada a realçar os tons de mármore preto e branco de seu corpo, fica óbvio não ser necessário. Seria rude não olhar para sua pele.

Chantelle é uma rainha das passarelas influenciada pelo andar de Naomi Campbell e a iconoclastia de Marilyn Monroe. Ela também é uma ex-participante do
reality show America’s Next Top Model, a nova face da grife Desigual e musa do famoso fotógrafo Nick Knight e do estilista londrino Ashish. Seu problema de pele fez sua carreira e tornou-se um símbolo de diversificação e progresso. Como diz a anfitriã do America’s Next Top Model, Tyra Banks, “no momento em que vi Chantelle, eu quis que ela entrasse no programa. Sua beleza é inegável e sua pele rompe as barreiras do que é considerado belo”. Também é uma preocupação constante. Você pode admirá-la o quanto quiser, mas, quanto mais você lembra Chantelle de sua presença, mais isso a incomoda.

“A pele aqui é um bloco branco”, diz o fotógrafo, enquanto aponta para o abdome da modelo. “Não se vê diferença na cor.” O modo como sua saia pregueada está pousada acima do quadril enaltece a palidez de seu estômago. Há necessidade de mais pele para demonstrar as variações.

Chantelle colabora. Arruma a saia, olha para seu braço elegante pousado sobre o abdome, gira a mão de um lado para o outro, branco/preto, combinação/contraste. Ela dialoga com a câmera mais que uma modelo comum.

“Minha pele não é uma visão normal”, explica mais tarde, enquanto separa um pouco de homus de um sanduíche integral. “Quando um fotógrafo diz: ‘Não sei o que é, mas não está certo’, eu sei. Eles gostam das cores diferentes de minha pele. Mas não conseguem combiná-las com determinadas roupas.”

A modelo já foi comparada a uma pantera, o que não a incomoda. Ela é leonina. As panteras são sensuais. Mas não gosta tanto de elogios na linha “vaca maravilhosa”. Lembra-se de quando tinha 13 anos e entrou no auditório da escola, onde um valentão liderou um coro de “Muu! Muuuuuu!” Muito desagradável, mas apenas um pouco mais que a frase no America’s Next Top Model, quando um juiz balbuciou: “Nossa, você parece um X-man! Mas consegue trabalhar como modelo?”

Ela não consegue identificar de modo tão astuto em qual altura o vitiligo torna-se obstáculo. Sem a sua página no Instagram, jamais teria chamado a atenção de Tyra Banks. Sua comunidade de 400 mil fãs está aí para admirar sua característica mais destacada. Goste ou não, é em primeiro lugar uma publicidade ambulante da diferença, e depois uma modelo para outras coisas. Sua pele é mais notável do que qualquer produto que possa vender. Por isso, toda vez que mergulho mais fundo no assunto do vitiligo suas respostas tornam-se mais opacas e suas maneiras, defensivas. “Eu abandonei a escola quando tinha 16 ou 17 anos, não me lembro.” Chantelle tem 20. Há feridas ali, uma raiva reprimida.

Chantelle WinnieChantelle Brown Young é filha de uma cabeleireira solteira de Toronto, Canadá. Tinha experimentado de tudo: balé, piano, jornalismo. Mas não modelo. Mudou de escola diversas vezes devido à agressividade dos colegas e a “altercações”. Conforme diminuía sua frequência escolar, surgiam oportunidades como modelo. Seu momento chegou quando a personalidade local do YouTube Shannon Boodram viu suas fotos no Facebook e pediu para fotografá-la para um clipe musical. Pela primeira vez ela foi celebrada por sua aparência. Pedidos para trabalhos editoriais vieram, apesar da rejeição de todas as agências de Toronto (ela continua sem representante). Quando Tyra Banks ligou, Chantelle deixou a escola para valer e voou para Los Angeles mais depressa do que se pode dizer: “Parabéns, você está na disputa para a próxima top model americana”.

“Sempre me perguntam: ‘Você faria isso de novo?’ Não. Quero ser uma modelo, não uma estrela de reality show.” Chantelle foi a segunda concorrente eliminada. Na época, ela se sentiu “apunhalada pelas costas”.

Tyra Banks promove a diversidade explodindo-a nos lares de milhões de telespectadores, mas também há uma dura exploração baseada na mistura tóxica de narcisismo e vulnerabilidade das concorrentes. O fator particular de aberração de Chantelle na tevê foi o vitiligo. Ela desenvolveu a doença autoimune quando tinha 4 anos. O vitiligo afeta 1% da população. Não discrimina tipo de pele ou idade, e pode atacar qualquer parte do corpo, inclusive os olhos, os cabelos e a boca.

A história de Chantelle é de esperança em uma indústria superficial, prova de que nossas diferenças são motivo de comemoração nas capas das revistas, mas também de frustração. Seu maior desafio é superar o que a torna diferente, celebrar o que a faz igual. Antes de nos despedirmos, a última pergunta: qual é a sua característica física preferida? “Minha boca. Gosto da minha boca.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 838 de CartaCapital, com o título Miss Diversidade

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