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Número 838,

Internacional

Estado Islâmico

Refugiados: fuga do inferno, às vezes mortal

por Claudio Bernabucci publicado 09/03/2015 04h04, última modificação 10/06/2015 16h20
Os ameaçados pelos conflitos insanos aceitam atravessar o Mediterrâneo em busca de salvação. Por Claudio Bernabucci, de Roma
Alberto Pizzoli / AFP
Execução

Refugiados provenientes da Líbia vigiados por um guarda italiano no porto de Lampedusa

De Roma

Os relatos dos marinheiros italianos que naquela tarde trágica de 11 de fevereiro prestaram socorro aos sobreviventes africanos são de tragédia bíblica. As condições do mar, força 8, eram proibitivas até para os navios mais resistentes: um suicídio para os precários barcos de plástico fornecidos pelos traficantes. O frio intenso daqueles dias, perto de zero grau, acentuou o sofrimento dos náufragos e as dificuldades de quem os socorria.

Os clandestinos convencidos a enfrentar o mar estavam à espera de viajar havia vários dias, amassados em uma espécie de campo de concentração nos arredores de Trípoli, capital da Líbia. Cerca de 460 homens, mulheres e crianças procedentes do Senegal e do Mali, nas mãos de uma “milícia” sem maior identificação. Um dos sobreviventes, Ahmed, conta que foram convencidos a embarcar na praia de Garbouli, onde a costa era mais protegida da fúria da natureza. “Eles nos asseguraram que as condições do mar estavam melhorando, mas, de qualquer maneira, ninguém poderia se recusar a sair: fomos obrigados pelas armas a seguir viagem.”

Eram três barcos de plástico e um de madeira podre, com motor de 40 cavalos, em alto-mar foram agredidos por uma tempestade homérica. Com 10 metros de altura, as ondas de um furacão engoliram duas embarcações. Além de cobrar mil dinares por passageiro (cerca de 2 mil reais) desse cruzeiro da morte, os traficantes só forneceram um telefone por satélite e o número da Guarda Costeira italiana. Assim os socorristas foram alertados e, depois de algumas horas de navegação, entraram em águas líbias, à procura de algum sinal de vida: pouco mais de cem os sobreviventes resgatados à fúria dos elementos, muitos os mortos siderados pelo frio, centenas de afogados.

Tamanha era a violência do mar que também os socorristas correram seriíssimo perigo de vida. Depois da experiência terrificante, eles guardam como pesadelo inesquecível as expressões de pânico estampadas nas faces dos náufragos. Ao relatar o testemunho dos sobreviventes, muitas histórias tristíssimas poderiam ser contadas. Uma, entre tantas, é a do adolescente sem documentos ou nome, que só consegue repetir, obcecado: “Je suis seul, je suis seul, je suis seul”, estou só, estou só, estou só).

Inevitáveis as polêmicas mais ásperas na Europa, sobretudo na Itália, depois dessa tragédia anunciada: segundo cálculos ainda incompletos, são cerca de 300 os desaparecidos. Como já noticiado meses atrás por CartaCapital, a substituição da exitosa missão italiana Mare Nostrum pela mais limitada missão europeia Triton foi um claro sinal de falta de empenho das autoridades de Bruxelas e de Roma. Os italianos se mostraram à altura da situação no período de outubro de 2013 a novembro de 2014, quando se dedicaram à ação humanitária com relevante empenho militar e financeiro (a Mare Nostrum custou 120 milhões de euros e salvou 143 mil vidas). A bem da verdade, dois fatos contundentes influenciaram a ação italiana: um espantoso naufrágio a poucos metros da costa siciliana e as palavras severas do papa Francisco, em visita à ilha de Lampedusa, em julho de 2013, quando fez apelo à solidariedade internacional com os migrantes e falou pela primeira vez da “globalização da indiferença”.

Depois dos resultados positivos, os italianos baixaram a guarda, insistindo em que o empenho humanitário no Mediterrâneo fosse assumido pela União Europeia, já que a emigração da África é problema de todo o continente. Posição correta, mas faltou a necessária autoridade para impor à UE um compromisso decente. Ao contrário, a Comissão Europeia optou mesquinhamente por uma missão sustentada por insuficientes 50 milhões de euros anuais de orçamento.

 

No dia seguinte ao naufrágio na costa líbia, o monsenhor Nunzio Galantino, escolhido pelo papa como secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana, falou sem meios-termos de uma Europa à qual falta “qualquer resquício de humanidade. (...) por tragédias sem sentido que poderiam e deveriam ser evitadas. (...) Os poderosos aplaudem as palavras do papa Francisco quando fala a favor dos últimos, mas depois, na verdade, o ignoram”.

Nesta encruzilhada, os italianos enfrentam as próprias contradições e, poucas horas após a tragédia, são de novo protagonistas de episódios louváveis:  navios da sua Marinha salvam, em duas noites seguidas, a 60 milhas da costa líbia, aproximadamente mil náufragos destinados à morte certa. Nas últimas semanas, a península é invadida por uma quantidade de migrantes nunca vista e, de norte a sul do país, os centros de acolhida estão lotados. Os clandestinos são deixados muitas vezes ao próprio destino, o que suscita tensões com os cidadãos locais e nas fronteiras.

Atropelado por esse êxodo bíblico, a envolver 5 mil pessoas só nos primeiros 45 dias do ano –, o governo italiano, em declaração do ministro do Exterior Paolo Gentiloni, depois de reafirmar o próprio compromisso humanitário, solicita maior empenho da Europa diante da emergência de fugitivos. Muita ênfase nos discursos, por certo, mas até agora escassos resultados. Como sempre muito direto, o premier Matteo Renzi assinalou que, além do oportuno fortalecimento da missão europeia Triton, a questão central é política, gerada pela situação fora de controle da Líbia.

 

Desde o fim de Kaddafi, o país vive o recrudescimento de uma guerra civil, com o território nacional dividido entre numerosas facções e tribos. Há meses cresce a infiltração de combatentes saídos do Iraque nesse território sem Estado. Aos infiltrados, agregaram-se milícias locais de inspiração integralista, de sorte a permitir ao Califado declarar-se instalado na Líbia. Não se trata ainda de uma presença consolidada, mas a ameaça existe. No caos imperante, diferenciar entre bandidos comuns e milícias terroristas que se autofinanciam com o tráfego de seres humanos é muito árduo. As vítimas, ao contrário, são certas: os prófugos de todas as guerras e os desesperados que fogem da miséria.

Na Itália, a polêmica sobre os problemas migratórios estava no auge quando, no dia 16 de fevereiro, chegou a notícia de outra barbaridade cometida pelos adeptos do chamado Califado Islâmico, na Líbia: 21 operários egípcios que trabalhavam em Sirte, depois de longo sequestro, foram degolados em uma praia isolada, culpados por serem cristãos coptas. Segundo as declarações delirantes dos milicianos vestidos de preto que celebraram a execução, ao derramar no Mediterrâneo o sangue dos “infiéis cristãos”, vingou-se a morte de Osama bin Laden, cujo corpo foi jogado no mar por outros “infiéis”, os americanos. A extemporânea declaração do ministro Gentiloni, ao dizer que a Itália está  “pronta a guiar na Líbia uma coalizão de países da região”, suscitou imediatas críticas internas e o epíteto de “ministro cruzado” por parte dos fundamentalistas.

 

Enquanto o exército egípcio continua o bombardeio contra os sítios do Califado na Líbia e se mostra firme em pedir uma intervenção militar internacional para expulsá-lo do país vizinho, a Itália recua das inoportunas declarações de seu ministro e, juntamente com outros países europeus, se declara a favor da iniciativa política das Nações Unidas para recompor um diálogo entre os líbios, cuja cooperação é agora considerada a arma mais eficaz para rechaçar os inimigos comuns.

“Logo dominaremos toda a África e entraremos em Roma”, é a última declaração do Califado dirigida ao Ocidente e à cristandade. Sem preocupação com as repetidas ameaças, o papa Francisco acaba de responder de maneira indireta e simbólica aos fanáticos da guerra de religião e aos belicistas do Ocidente. Com um gesto inédito de caridade, a virtude teologal pode ser invocada amiúde, abriu ao lado da colunata da Praça de São Pedro um serviço de chuveiro público e cabeleireiro para os pobres de Roma. Os mendigos lá atendidos que já aproveitaram se dizem felizes e gratos.

*Publicado originalmente na edição 838 de CartaCapital, com o título "Fuga do inferno, às vezes mortal"