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Número 838,

Internacional

Estado Islâmico

Civilizações suicidas

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/03/2015 04h58, última modificação 09/06/2015 17h18
Não se pode separar a violência sectária e os avanços do Estado Islâmico da crise financeira
Scanpix Denmark/Soren Bidstrup/AFP
Ataque

Foi menos um ataque islâmico do que da Europa contra si mesma

Crise econômica, impasse na Grécia, guerra na Ucrânia, caos no Oriente Médio e terrorismo: problemas aparentemente equacionados retornam e não param de surgir novos. São consequências de decisões das quais todo o bloco ocidental participou, mas recaem de maneira desigual sobre os responsáveis. Os Estados Unidos, por estarem mais distantes dos acontecimentos e por terem mais poder e vontade de manipulá-los (mas também por uma política monetária um pouco mais flexível e sensata) escaparam, até agora, de grande parte dos impactos de suas próprias políticas. A Europa tem menos sorte.

Mesmo um aparente desatino individual como o do dinamarquês Omar El-Hussein, presumível causador de duas mortes ao abrir fogo contra os participantes de um debate sobre caricaturas de Maomé e uma sinagoga antes de morrer em tiroteio com a polícia, tem raízes profundas na história recente. Com 22 anos, era filho de palestinos imigrados de um campo de refugiados na Jordânia, não terminou o ensino médio, tornou-se desempregado sem-teto e foi preso por mais de um ano por esfaquear outro jovem. Aparentemente, converteu-se ao Islã fundamentalista na prisão, mas seus atos foram uma decisão pessoal, inspirada pelos atentados de 7 de janeiro em Paris. Dois homens foram presos como suspeitos de o abrigarem e ajudarem a se desfazer de uma arma. Nada faz supor, porém, que tivessem outra participação nos acontecimentos.

Esperanças frustradas são mais explosivas do que a miséria absoluta. Essa curta biografia implica uma infância e adolescência marcadas pelo conflito Israel-Palestina, intervenção anglo-americana (apoiada pela Dinamarca) no Iraque, ascensão da islamofobia na Europa, pelas caricaturas de Maomé publicadas por um jornal dinamarquês em 2006, cenas diárias de injustiça e violência no Oriente Médio, especialmente em Gaza e Cisjordânia, crise econômica que tornou ainda mais sombrias as perspectivas de jovens muçulmanos na Europa, fracasso da Primavera Árabe e desastrosas atuações do Ocidente na Síria e Líbia, que abriram caminho ao Estado Islâmico, cuja propaganda encontrou um jovem de temperamento agressivo em situação de desespero existencial e descrença na justiça.

Não foi a identidade religiosa que conduziu a uma ideologia de fanatismo. A maioria desses jovens foi criada em ambiente praticamente laico. Na França, apenas 5% da população “muçulmana” vai regularmente à mesquita e 20% são ateus, o que não é muito diferente do que se passa com a população “cristã”. Muitos dos jovens europeus persuadidos a tentar viajar e se juntar ao extremismo sequer descendem de muçulmanos, haja vista o belga-brasileiro e ex-católico Brian de Mulder, aliás Abu Qassem Brazili. Basta acreditarem reencontrar esperança, solidariedade e sentido na guerra contra um Ocidente pelo qual se sentem desprezados e rejeitados. Uma importante inovação do Estado Islâmico em relação à Al-Qaeda é sua habilidade em usar essa língua e se fazer ouvir tanto no Ocidente quanto no Oriente.

A identificação com parentes deixados no mundo árabe ou a vagar pelo mundo como refugiados à mercê dos jogos geopolíticos e interesses petroleiros do Ocidente não é irrelevante, mas não teria o mesmo significado se as oportunidades não fossem ainda mais escassas para os jovens descendentes de árabes do que para aqueles de sangue europeu. “Olhe para você, humilhado todo dia. Não consegue um emprego e tem de viver da previdência”, clama uma mensagem do Estado Islâmico difundida na França e Bélgica em fevereiro. É fácil encontrar quem a ouça se o desemprego de jovens até 25 anos está em torno de 25% nesses dois países (e na média europeia) e mais de 50% nas nações mais atingidas pela crise. O fundamentalismo tira proveito de um potencial de violência manifestado, entre outras ocasiões, nas depredações e incêndios de carros nos subúrbios franceses a cada réveillon.

Para aqueles cuja biografia e relações de parentesco e amizade os opõem à tradição islâmica, as mesmas frustrações podem conduzir a formas de radicalização não menos perigosas, no rumo da xenofobia e do neofascismo. Entre estes há os que igualmente viajam para pegar em armas, como os voluntários da França, Itália, Suécia e outros países europeus que se integraram ao neonazista Batalhão Azov para lutar por Kiev na guerra civil ucraniana, ou cometem atos de terrorismo em sua própria terra, como o norueguês Anders Breivik.

 

Seja na sua forma conservadora à maneira de Margaret Thatcher e Angela Merkel, seja na “Terceira Via” de Tony Blair ou François Hollande, o liberalismo laico que ensina a procurar identidade e realização nas conquistas individuais, na carreira e no consumo independentemente de origem de classe, religião ou etnia perde o apelo quando não pode entregar as oportunidades prometidas. Por si só, o marasmo econômico restringe a mobilidade social e reaviva a importância da herança de capital financeiro e cultural, dos pistolões e dos preconceitos. Quando associado a uma recessão desencadeada pela irresponsabilidade do setor financeiro e pela pronta disponibilidade dos governos a deixar seus cidadãos perderem moradias e empregos para salvar os bancos de si mesmos, as explosões irracionais de alguns surpreendem menos que a passividade, por ora, da maioria.

O crescimento fraco dos países ricos está em parte associado a restrições ambientais e escassez de inovações tecnológicas significativas para a produtividade, temas sobre os quais os governos talvez não possam fazer muito, embora devessem tentar em vez de esperar  por soluções de uma iniciativa privada focada em novidades superficiais e ganhos de curto prazo. Mas a Zona do Euro exacerbou o problema ao engessar sua política monetária e ignorar as reviravoltas da economia mundial nas últimas décadas. A Alemanha continua a agir como se fosse possível à Europa compensar seus desequilíbrios externos pela exportação para terceiros, quando os Estados Unidos não estão mais em condições de sustentar um déficit estrutural e não existe quem os substitua nesse papel.

Os erros de política externa também foram graves. A Europa dividiu-se ante a despropositada invasão do Iraque em 2003, mas isso serviu para anglo-americanos se apoderarem das reservas de petróleo de Saddam Hussein e aparentemente fizeram a França se arrepender de não ter participado do saque e da partilha. François Hollande mergulhou de cabeça na intervenção na Líbia (“um investimento no futuro”, disse o então chanceler Alain Juppé), com pretextos igualmente frágeis, mesmo se endossados por parte da esquerda. Como hoje se sabe, Hillary Clinton forjou evidências de atrocidades, exatamente como seu precursor Colin Powell com as “armas de destruição em massa”.

 

Os franceses receberam sua fatia do petróleo líbio, mas, como no Iraque, o resultado final foi uma catástrofe, sublinhada no domingo 15 pelo anúncio da execução de 21 cristãos egípcios sequestrados pelo Estado Islâmico, hoje no controle de parte do país, dividido entre mais dois governos rivais. Agora, a França, como outros países europeus, fala de nova intervenção na Líbia em parceria com o egípcio Abdel El-Sisi. Recapitulemos: em 2011, a intervenção alegava apoiar a democracia no mundo árabe, na sequência da revolução egípcia e da queda de Hosni Mubarak. Para isso, justificava-se armar e apoiar fundamentalistas islâmicos, parte sabidamente importante das milícias dispostas a lutar contra Kad-

dafi. Menos de quatro anos depois, trata-se de lutar contra esses fundamentalistas ao lado do ditador militar que esmagou a Primavera Árabe no Egito e restaurou a violência e repressão de Mubarak com juros.

Assim como os EUA, os líderes europeus talvez devessem agradecer a Vladimir Putin por ter vetado sua intervenção na Síria, igualmente em apoio a rebeldes em boa parte comprometidos com o pior extremismo fundamentalista. Talvez o Estado Islâmico hoje controlasse quase todo o país e tivesse um apelo ainda maior para os jovens revoltados da Europa e do Oriente Médio, além de deter recursos militares e econômicos muito maiores.

Em vez disso, Washington quis punir o Kremlin por meio de uma mudança de regime na Ucrânia e trocar oligarcas corruptos simpáticos a Moscou por outros oligarcas corruptos ansiosos por incluir seu país na Otan, garantir apoio econômico e proteção do Ocidente e privar a Rússia de sua principal base naval. Em nome de um acordo comercial com a União Europeia e com o pretexto de disparos sobre manifestantes que, sabe-se hoje, partiram de milícias de ultradireita e não de agentes do governo, deu-se um golpe pró-ocidental que ignorou tanto a vontade quanto os interesses da metade do país que se liga econômica e culturalmente à Rússia. Mais um país foi dividido pela guerra e reduzido à miséria, e a União Europeia, arrastada pela Aliança Atlântica a adotar sanções à Rússia que prejudicam menos Putin, hoje mais popular do que nunca, que sua própria economia e sociedade.

 

Faça-se justiça a Angela Merkel: faz o possível para pôr água na fervura e conter o apetite da Casa Branca e de seus colegas europeus por aventuras geopolíticas. Seu país, escaldado pela amarga experiência do século XX, prefere usar o poder econômico ao militar, não possui grandes transnacionais petroleiras ou indústrias bélicas de primeira linha e precisa do gás e do mercado russos. Ela tem sido mais firme no combate à xenofobia e islamofobia que ameaçam seu projeto continental do que outros líderes europeus tidos como progressistas.

Mas não basta, nem de longe. Apesar dessas atenuantes, a postura da Alemanha em relação à Grécia pode pôr a perder o futuro do continente. Mesmo que julgue poder isolar o problema e evitar uma imediata crise financeira e monetária em toda a Zona do Euro, fazer dos interesses dos credores um imperativo categórico a se sobrepor ao bem-estar dos povos e às instituições democráticas contribui para desacreditá-las e abrir caminho a reações cada vez mais violentas. Uma sociedade não pode por muito tempo se deixar governar por pequenas elites financeiras, industriais e petroleiras e sustentar um discurso democrático e pluralista.