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Número 838,

Economia

Análise/Paul Krugman

As aparências e a essência

por Paul Krugman — publicado 02/03/2015 04h26
Algumas figuras públicas são retratadas como malignas, porque os repórteres assim decidiram vê-las
The Bush Center/Flickr
Bush

Houve um tempo em que o presidente George Bush era universalmente tratado como um homem rude e honesto

Jonathan chait, da revista New York, notou recentemente que as pessoas ainda tentam pintar o deputado Paul Ryan, presidente da Comissão de Meios da Câmara, como racional e moderado porque, ora, ele visita livrarias apreciadas pelos liberais.

Como indicou Chait, essa espécie de avaliação política pelo estilo pessoal é no mínimo inconfiável. E Ryan também a explora muito claramente, fazendo ruídos moderados sem jamais ceder um centímetro em suas políticas de direita linha- -dura. Lembrem-se, ele é o sujeito que fingiu oferecer um orçamento baseado na responsabilidade fiscal, mas quando você retirava os asteriscos mágicos na verdade consistia em cortes fiscais para os riscos e severos cortes de benefícios para os pobres, e se tivesse entrado em vigor teria na verdade aumentado o déficit.

Eu acrescentaria que Ryan não está apenas explorando a preferência da imprensa pela análise política íntima e pessoal, ele explora também a eterna busca por um “conservador sério e honesto”, criatura que os centristas sabem que deve existir em algum lugar por aí porque, caso contrário, seu centrismo é um erro de julgamento colossal.

Mas não digamos isso somente sobre Ryan, ou mesmo sobre o conservadorismo, embora os conservadores tenham sido os principais beneficiários da síndrome do íntimo e pessoal. O fato é que as tentativas de julgar os políticos pelo que eles parecem têm sido quase universalmente desastrosas durante todo o meu período no New York Times.

Os leitores mais jovens talvez não se lembrem do tempo em que o presidente George W. Bush era universalmente retratado na imprensa como um homem rude e honesto. Mas aqueles de nós que apontaram suas mentiras sobre os impostos e a Seguridade Social e sugerimos que estas eram um melhor guia de seu caráter do que sua aparência só foram ouvidos anos depois. O senador John McCain trafegou durante muitos anos com a reputação de um magnata com princípios, porque era esse seu jeito de falar. Acho que seu abraço desavergonhado a todas as artimanhas da direita prejudicou essa reputação, mas ele ainda é o queridinho dos programas de entrevistas nas manhãs de domingo.

Depois, é claro, houve o caso irrefutável da invasão do Iraque em 2003, irrefutável porque Colin Powell, então secretário de Estado, a defendeu, e só um louco ou um francês poderia não ser persuadido. Ou talvez alguém que perguntasse quais eram as evidências reais que Powell possuía, e visse que não havia nenhuma.

Enquanto isso, algumas figuras públicas enfrentam o tratamento inverso, retratadas como malignas e desviantes porque os repórteres decidiram que é o que elas parecem. Veja Hillary Clinton, cujo tratamento duro pela imprensa não tem nada a ver com seu gênero, não, de jeito nenhum... Ou Mitt Romney, retratado como hipócrita e desagradável porque, na verdade ele é hipócrita e desagradável, mas você deveria chegar a essa avaliação com base em suas políticas, e não em sua persona.

Voltando a Ryan, a coisa realmente incrível sobre a persistência do culto à sua personalidade é que a política econômica e orçamentária é sua área preferida, e ele deixou um amplo rastro de papel. Portanto, há muitas evidências sobre o que ele realmente acredita ou defende, e cada pedacinho delas diz que seu objetivo maior é redistribuir a renda dos pobres para o 1%.

Se você quiser argumentar de outra maneira, mostre-me qualquer coisa – qualquer coisa mesmo – nas propostas políticas dele que não vá nessa direção.

Li alguns artigos recentes sobre o que se poderia chamar de “pico Google” em um artigo no New York Times, (nyti.ms/1FzlOGl), e noutro do Financial Times (on.ft.com/1AfC6Wa). Ambos avaliam que o antigo sucesso do Google o está transformando em um dinossauro. Antigas líderes como Digital Equipment e Wang afundaram incapazes de acompanhar o ritmo da mudança tecnológica.

Pergunto: a tendência das gigantes tecnológicas a serem mais lentas na fase seguinte realmente representa o preço do sucesso? As gigantes geralmente são construídas sobre uma grande ideia, e tornam-se enormes ao aplicar essa ideia. Por que deveríamos esperar que elas sejam ótimas com a próxima grande ideia?

Ouço coisas boas sobre as últimas ofertas da Microsoft. A companhia não seria supostamente um dinossauro, incapaz de mudar porque os lucros à moda antiga continuavam muito bons?

Analistas do crescimento econômico conhecem bem a proposição de que quanto mais estudamos o assunto, menos acreditamos saber. Pergunto-me se os analistas do sucesso empresarial não deveriam considerar a possibilidade de uma história semelhante em seu próprio campo.

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