Você está aqui: Página Inicial / Revista / O triunfo dos extremismos / A primavera teatral de São Paulo
Número 838,

Cultura

Artes Cênicas

A primavera teatral de São Paulo

por Alvaro Machado — publicado 01/03/2015 07h05
Resultado de um movimento iniciado por produtores e artistas no fim dos anos 90, São Paulo alcança a marca de 200 núcleos com mais de dez anos de atividade continuada
Mônica Côrtes
Prometheus

Cia Teatro Balagan na mítica Prometheus

Dos três mais importantes capítulos inscritos pelo teatro de São Paulo na crônica artística do século XX, o mais recente ainda não tem contornos inteiramente definidos. Iniciada no fim dos anos 1990, a expansão das cooperativas, os chamados grupos colaborativos, segue em ebulição e alcança a marca de 200 núcleos com mais de dez anos de atividade continuada. À parte a característica de pesquisa aprofundada de linguagens cênicas, artistas-produtores notabilizam-se por afirmação política e mobilização, modo como conquistam, desde 2002, políticas públicas estáveis que lhes garantem revitalização.

O primeiro episódio em que atores e diretores formaram coro para falar à sociedade tem sido recontado nos últimos quatro anos pelo diretor José Celso Martinez Corrêa. Na quinta parte encenada, sua saga Cacilda! ergue pontes entre as atuais reivindicações dos artistas e a liderança da atriz Cacilda Becker no setor ao tempo do Teatro Brasileiro de Comédia, criado em 1948. Ao importar diretores e cenógrafos italianos de primeira linha, a empreitada de Franco Zampari legou semente. Além de modelo para as companhias de Cacilda, Paulo Autran e Fernanda Montenegro, o TBC das instigantes encenações de Adolfo Celi e da redescoberta das peças de Oswald de Andrade pelo crítico Ruggero Jacobbi abriu terreno para os teatros Arena e Oficina protagonizarem o segundo grande ato do teatro paulista.

Há 53 anos no âmago de ações da classe, o ator Sérgio Mamberti recapitula: “Como companhias estáveis, a partir da formação de um público cativo, o TBC de Celi, o Arena de Augusto Boal e do diretor Zé Renato e o Oficina de Zé Celso puderam desenvolver projetos artísticos ousados. Gianfrancesco Guarnieri coloca operários em cena, Plínio Marcos dá voz aos excluídos e o Oficina reinterpreta o antropofagismo brasileiro, exemplos da capacidade deflagradora de grupos com alguma estabilidade, pela qual lutam os atuais colaborativos”.

Após 12 anos de gestões no Ministério da Cultura, Mamberti supervisiona uma reforma no histórico prédio do TBC, no bairro paulistano da Bela Vista, inativo há dez anos. À espera de 8 milhões de reais para o término das obras, o edifício adquirido pela Funarte abrigará dois palcos e um memorial das artes cênicas com acervos como o de Boal. “A classe conhece só agora algo da dignidade pela qual Lélia Abramo lutava em 1979, ao regulamentar a profissão no sindicato estadual dos artistas de teatro, que ela presidiu. Não deu certo por causa dos altos custos. Mas com os movimentos dos anos 2000 sanou-se em parte o malefício de a Lei Rouanet não repassar verbas a produções não comerciais.” Mamberti refere-se à aprovação da Lei nº 13.279, do Fomento Teatral, na Câmara paulistana, em 2002. Escrita pelos próprios atores e diretores e promulgada sob sua pressão, a legislação proporcionou a consolidação de um universo artístico tão represado quanto vasto de companhias em modelo colaborativo, congregadas em entidades como a Cooperativa de Teatro Paulista, fundada no fim dos anos 70 e hoje com quase 4 mil associados, muitos dos quais definem os últimos 15 anos como uma “primavera no asfalto” de caráter duradouro. A maioria das companhias recorre à entidade para administrar projetos aos quais se destinam valores entre 170 mil (XPTO, 2009) e 729 mil reais (Satyros, 2013).

“O reflorescimento vem da semeadura de núcleos pós-ditadura com algo a dizer, cujos integrantes se cotizavam para existir e contestavam tanto a Lei Sarney de renúncia fiscal quanto suas versões estaduais, cujas verbas também são direcionadas por diretores de marketing das empresas”, observa Cibele Forjaz, fundadora da Cia. Livre em 2000. Com ela concorda a baiana Maria Thais, criadora da Cia Teatro Balagan, mentora da Escola Livre de Teatro de Santo André, proposta pedagógica adotada em 1990 pelo então secretário de Cultura daquele município, o ator Celso Frateschi. “A ditadura havia destruído os laços do teatro com a polis, mas a produção persistia. Nos anos 80, eu saía do Rio para ver, em São Paulo, grupos independentes como o Ornitorrinco e o Ponkã”, recorda a diretora, professora de artes cênicas na USP.

Com atividade multiplicada entre criações cênicas, orientações acadêmicas e publicações, os professores-teatrólogos desdobram-se para atender convites de instituições latino-americanas e europeias de pesquisa, ao mesmo tempo que consolidam laços entre o teatro local e as áreas acadêmicas de antropologia, literatura e filosofia. Do grupo Barca de Dionisios, surgido na USP em 1987, saíram Forjaz, Antônio Araújo (Teatro da Vertigem), Rodrigo Matheus (Circo Mínimo), Sérgio de Carvalho (Companhia do Latão) e William Pereira.

Em 1999, juntaram-se ao protesto contra o modelo de financiamento depois nomeado Rouanet (e Procultura após recente tramitação no Congresso), que tende a beneficiar estrelas de tevê e fórmulas comerciais. Concebido em um semiabandonado Teatro Arena, o movimento Arte Contra a Barbárie agregou as lideranças de Gianni Rato (1916-2005), Fernando Peixoto (1937-2012), César Vieira (União e Olho Vivo), Celso Frateschi (Ágora), Eduardo Tolentino (Grupo Tapa), Marco Antonio Rodrigues (Folias d’Arte) e Hugo Possolo (Parlapatões).

Ao mencionar com sarcasmo o orçamento ministerial para a cultura, o manifesto contestava argumento dos patrocinadores de não haver mercado para propostas alternativas. “Rejeitamos as migalhas dos prêmios-estímulo e propusemos políticas permanentes”, diz Marco Antonio Rodrigues. Convencidas por Raul Cortez, algumas estrelas assinaram manifestos, até a aprovação da Lei de Fomento.

Em dezembro de 2014, a Secretaria Municipal de Cultura começou a distribuir 5 mil exemplares do livro Fomento ao Teatro, 12 Anos. Com textos de 21 dramaturgos, encenadores e críticos, a obra enumera dados como a ampliação de locais de apresentação na cidade para 976. No ano passado, 30 grupos partilharam 17 milhões de reais. O caráter dessa produção é indicado por Forjaz: “Quando a estrutura começou a funcionar, viu-se que o dinheiro com o qual a Rouanet financiava um musical de origem americana dava para uma companhia produzir por um ano e meio. Ao riscarmos o chão com o Arte Contra a Barbárie vieram a reprofissionalização e uma consciência de classe no espírito de Cacilda Becker, que repetia: ‘Todos os teatros são o meu teatro!’ Se for preciso, nos juntamos à companhia do Antônio Fagundes, à do Juca de Oliveira”.

“Somados o Fomento, o ProAC estadual e o edital municipal Prêmio Zé Renato, neste ano serão destinados 30 milhões de reais de verbas públicas à produção local”, avalia Rodrigues. Enquanto isso, novas estratégias de ação brotam de encontros como o de 22 teatros independentes, no Centro Cultural São Paulo em dezembro, durante cerimônia na qual foram reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade. E, para além da margem, os colaborativos começam a mesclar-se a ações do teatro comercial. Em dezembro, a mundana companhia (O Idiota) situou o processo de trabalho de sua próxima montagem, Na Selva das Cidades, nas obras de um novo teatro destinado a ricas produções. Assim, a madeireira de Chicago imaginada por Brecht tomou de assalto o futuro Teatro Santander, na Marginal Pinheiros, construção no terreno em que se encontrava o prédio da Daslu. Com inauguração prevista para abril, a casa terá 1,2 mil poltronas e tecnologia de ponta.

registrado em: , ,