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Número 838,

Política

Análise/Marcos Coimbra

47 meses

por Marcos Coimbra publicado 27/02/2015 04h26
Dilma Rousseff foi eleita para governar 1.460 dias e restam mais de 1,4 mil. O fato é este e chega a ser ridícula a alegação de que seria normal discutir seu impeachment
Elza Fiúza/Agência Brasil
Dilma

Dilma tem pela frente 47 meses de governo. Faz sentido julgar um mandato antes dele começar?

Conforme todos sabem, mesmo se alguns fingem ter esquecido, Dilma Rousseff foi eleita faz pouco mais de três meses para o segundo mandato. Tomou posse há cerca de 50 dias. Portanto, tem pela frente 47 meses de governo. Foi eleita para presidir por 1.460 dias e restam 1.410.

Chega a ser ridícula a alegação de que debater seu impeachment é “normal”, como sugerem alguns próceres oposicionistas. Faz sentido achar “normal” que um chefe de governo seja julgado antes de governar?

Não é só anormal. É pior. A hipotética aceitação da tese conduziria à completa instabilidade institucional. Se qualquer governante estivesse sujeito ao impeachment a qualquer tempo, por qualquer motivo, as eleições produziriam resultados válidos? Diante dessa possibilidade, para que realizá-las?

O julgamento popular do primeiro governo da petista deu-se por meio de um mecanismo infinitamente superior a qualquer pesquisa de opinião. Em outubro de 2014, foi submetido ao escrutínio da sociedade. Todos dispostos a avaliá-lo foram ouvidos. A maioria o conhecia na prática, viu como funcionava por quatro anos. A rigor, os brasileiros tinham dele uma informação distorcida, consequência do elevado grau de ideologização dos principais meios de comunicação, que sempre apresentaram a atuação da presidenta e da administração federal de maneira negativa.

Pois bem, Dilma Rousseff venceu, o que significa dizer que a maioria do eleitorado, ao avaliar o que ela fizera e ao compará-la aos adversários, considerou-a a melhor opção para o País. Apesar da contínua ação em contrário da mídia.

É patético alegar fundamentação para discutir o impeachment da presidenta por sua campanha haver assacado “mentiras” contra os oponentes. Na linguagem da comunicação eleitoral, a verdade para um candidato costuma ser considerada falsa pelos demais, e mentira é apenas o nome dado à verdade do outro. Se considerarmos que todos mentem e falam verdades a partir de um determinado ponto de vista, importa aquilo em que o eleitor acredita, ouvidos os argumentos de todos os concorrentes.

O cúmulo da cara de pau é, no entanto, pretender que a discussão se torne procedente por ter ocorrido um suposto financiamento irregular da campanha da presidenta. Além de leviana, por carência de provas, vinda de quem vem a afirmação apenas demonstra quão dissimulada é a crítica das oposições. Como se houvesse alguém tão bobo a ponto de acreditar, dada a folha corrida de tucanos e congêneres, na encenação de “indignação moral” oposicionista.

Impeachment não é uma carta disponível no jogo no dia seguinte a uma derrota eleitoral, por uma facção que não representa o sentimento nacional. Ao contrário do que dizem aqueles que brincam com a ideia, nas condições atuais, o simples fato de trazê-la à baila é prejudicial à democracia. Em uma cultura onde os elementos antidemocráticos e autoritários são tão presentes, ela lança uma suspeição difusa sobre as instituições, os partidos e os mecanismos eleitorais e insuflam o golpismo que ainda encanta certos setores da sociedade.

Talvez essa conversa de impeachment não seja mais que a expressão da dificuldade das oposições em reconhecer o fato de serem minoria, apesar de tê-lo constatado nas urnas não faz muito tempo. Devem achar que o Brasil exibido pela mídia é o “verdadeiro”, enquanto aquele percebido pela população seria “falso”. É tolo pensar assim, mas quem sabe não é o que imaginam?

Interessam, de fato, os acontecimentos durante os próximos 47 meses do governo Dilma Rousseff. Nada desprezível, especialmente para quem não precisa se aclimatar ao cargo. Dilma apostou alto quando aceitou o diagnóstico de que a raiz das dificuldades atuais da economia é a questão fiscal. E de que sem o investimento privado é impossível financiar o gasto social e aumentar os níveis de emprego e renda dos trabalhadores.

Ao longo dos próximos anos, ela terá tempo para avaliar a efetividade das políticas iniciadas neste começo de segundo mandato. Muito antes da sucessão de 2018 começar, saberá quais manter e quais mudar.

De uma coisa podemos estar certos: assim como as oposições, que pretendem ganhá-la, Dilma e o PT não entrarão na próxima eleição para perdê-la.