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Número 837,

Internacional

Israel

Israel: Yitzhak Herzog desafia Netanyahu

por Gianni Carta publicado 14/02/2015 08h18
A um mês das eleições legislativas, ganha força a liderança trabalhista de Herzog, a ameaçar o irredutível belicista Benjamin Netanyahu. Por Gianni Carta
Ariel Schalit/AFP
Herzog

Yitzhak Herzog propõe congelar os assentamentos na Cisjordânia, portador da solução dos dois Estados

De Paris

Há seis anos no poder, o premier direitista Benjamin Netanyahu busca seu quarto mandato nas legislativas antecipadas de 17 de março contra o rival de centro-esquerda Yitzhak Herzog. O resultado do pleito dependerá de qual será o tema-mor para os eleitores: a economia, ou segurança? Uma vitória de Netanyahu, 65 anos, significará a supremacia da “segurança”, defendida por uma coalizão de legendas direitistas e de ultraortodoxos. Caso Herzog, líder da oposição e secretário-geral do Partido Trabalhista, seja o novo premier, o quadro será outro: os israelenses terão dado prioridade à economia, sem descurar da segurança, área que nenhum líder deixaria de garantir ao povo.

Herzog, 54 anos, tem boas relações com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. O líder trabalhista propõe o congelamento de assentamentos na Cisjordânia. Acredita na chamada solução de dois Estados, duas áreas que Netanyahu deixou a desejar. Portanto, os árabes israelenses, cerca de 20% da população israelense de 8 milhões de habitantes no território de Israel, e representados por um bloco esquerdista no Knesset (Congresso), apoiariam Herzog. A aliança de Herzog aglutinaria esquerdistas, centristas, ecologistas.

Como de hábito, pesquisas de intenções de voto oscilam. Em dezembro de 2014, quando as eleições antecipadas foram anunciadas pelo fato de Netanyahu, mais conhecido como Bibi, ter demitido dois ministros de seu gabinete, Herzog parecia ter consideráveis chances. Dois foram os motivos a levar Netanyahu a demitir o ministro de Finanças, Yair Lapid, líder de 50 anos da centrista Yesh Atid, e a ministra da Justiça, Tzipi Livni, da agremiação Hatnuah, favorável à solução de dois Estados. Primeiro, a amortização de impostos para aqueles a comprar a primeira moradia. Segundo, o reconhecimento de Israel como Estado Judeu. A segunda legislação, mais grave no canto do mundo a gerar ódios entre civilizacões, chocou vários observadores. Mokhtar ben Barka, professor de História e Civilização Americana da Universidade de Valenciennes, diz a CartaCapital: “Segundo essa lógica, o cidadão árabe israelense se torna de segunda classe. Essa é uma equação irrefutável e implacável. Árabes israelenses são de fato excluídos”.

O falcão Netanyahu estava em baixa no fim de 2014. De acordo com uma pesquisa realizada por dois diários conservadores associados, The Jerusalem Post e Ma’ariv, 60% dos respondentes não queriam mais ver Bibi no cargo. Para os mesmos, a economia era o tema principal. O segundo tema era a segurança. No entanto, no início de fevereiro os israelenses mudaram de opinião.  De acordo com o diário esquerdista Haaretz, a agremiação de Netanyahu, o Likud, está, por alguns pontos, na dianteira do Partido Trabalhista, este há dez anos na oposição. A razão? No artigo intitulado “Acorde, Herzog!”, Nehemia Shtrasler, editorialista do Haaretz, preocupa-se com o fato de Herzog dar mais importância à economia do que à segurança. Diz Shtrasler: “A vida precede a qualidade de vida”. E acrescenta: “Quem vai proteger nossas crianças?” Claramente, o editorialista quer influenciar Herzog a mudar de rumo, visto que é visível o desgosto dela pelas empreitadas de Bibi.

Shtrasler escreve: “Todo israelense sabe que nossas vidas dependem da nossa relação com nosso melhor amigo”. Netanyahu não soube lidar com Obama. E isso às vésperas de o presidente americano selar um acordo nuclear com o Irã. Além disso, Obama não quer impor novas sanções econômicas contra os iranianos. Os fatos são preocupantes para os israelenses. No entanto, por essas e outras, Netanyahu deveria entrar em sintonia com Obama, pelo interesse de Israel. Bibi não deveria, como fez, tentar dissuadir Obama de lidar com o Irã. A situação entre os dois estadistas, que Ben Barka diz se “odiarem”, deteriorou-se.

De passagem pelo Oriente Médio, Obama preferiu não se encontrar com o premier israelense às vésperas de eleições. Compreensível. Um presidente não pode intervir em campanhas políticas. Por sua vez, Bibi aceitou o convite do presidente da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, para exprimir suas percepções sobre o Irã e grupos dissidentes islamitas no Congresso estadunidense, em 3 de março. Para a oposição americana, a incluir judeu-americanos, a posição de Netanyahu também foi interpretada como a de um estadista com intenções de esnobar Obama.

James Baker, o ex-secretário de Estado americano, avaliou, em entrevista à rede de TV CBS, que a decisão de Netanyahu de se dirigir aos deputados americanos às vésperas do pleito em Israel como “um erro”. Ademais, Obama, como todo presidente americano, tem laços bíblicos com Israel. Disse Ben Barka: “Remontam ao século XVII, com a chegada dos primeiros puritanos. Tratava-se de cristãos, perseguidos na Inglaterra, após o nascimento da Igreja Anglicana. Assim, esses cristãos ao fugirem da Inglaterra, comparavam-se aos hebreus do Êxodo. Por isso os EUA são chamados de “a nação escolhida”. Assim, os puritanos ingleses estabeleceram paralelos entre eles e os hebreus, que, em busca da Terra Prometida, atravessaram o Deserto do Sinai quando expulsos do Egito. E é importante expressar a importância do lobby judeu (Aipac) na eleição de qualquer presidente americano. Por que Obama faria um acordo com o Irã sem proteger Israel?

A questão da segurança voltou à tona. Em 28 de janeiro, o Hezbollah, legenda xiita libanesa com braço armado apoiado pelo Irã, matou dois soldados israelenses, no sul do Líbano. Uma retaliação esperada. Dez dias antes, um ataque aéreo israelense em território sírio havia tirado a vida de seis militantes do Hezbollah, e mais um general da Guarda Revolucionária Iraniana. A questão é grave, mas o Hezbollah avisou que não quer mais entreveros, pois tem de se ocupar da Síria. Bibi, por sua vez, tem um pleito dentro de pouco mais de um mês. Ao que parece, Obama quer alterar táticas no Oriente Médio. Netanyahu, ou qualquer outro a substituí-lo, deveria atuar em sintonia com a aliada Washington. Herzog já disse alto e claro que o fará.

*Reportagem publicada originalmente na edição 837 de CartaCapital, com o título "Um pacifista entra na liça"