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Número 837,

Internacional

Grécia

O Syriza não é extremista

As ideias de Tsipras podem ser intoleráveis para Merkel, mas não são mais radicais que as de Keynes. Ou de Sólon
por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/02/2015 04h15, última modificação 09/06/2015 17h20
AFP
Grécia

A falta de apoio de Hollande e a rigidez de Schauble levaram os gregos às ruas para apoiar Tsipras

Conta Aristóteles que em 594 a.C., quando a concentração de riqueza sob leis literalmente draconianas (ditadas 27 anos antes pelo legislador Drácon) deixou Atenas à beira da guerra civil, o sábio Sólon estendeu direitos políticos aos pobres, anulou os contratos nos quais se empenhava a liberdade do devedor e libertou os cidadãos escravizados por dívidas, medida chamada em grego seisachtheia (“sacudir a carga”). Também substituiu a moeda estrangeira (de Egina) por um dracma local 30% menor para aliviar o valor real das dívidas em prata. Esse pacote criou as bases da democracia ateniense, a primeira da Europa.

Hoje, o primeiro-ministro Alexis Tsipras dá ao seu plano de reestruturação da dívida o mesmo nome de seisachtheia. Trata-se de salvar ou refundar a democracia pelo combate ao endividamento e concentração de propriedade que, sob as normas pouco razoáveis da União Europeia, Banco Central Europeu e FMI ameaçam reduzir a democracia à mera formalidade.

Embora Syriza seja o acrônimo, em grego, de “Coalizão da Esquerda Radical”, nada há de tão radical na proposta de redução do montante da dívida ou dos juros contratados (na prática, dá no mesmo), seguida de um programa de crescimento econômico. Talvez até não seja radical o suficiente, como diz o liberal Paul Krugman.  Como não se cansa de repetir o ministro da Fazenda Yanis Varoufakis, o mesmo fizeram os vencedores da Segunda Guerra Mundial, conscientes de que condições insuportáveis abririam o caminho ao comunismo na Europa Ocidental. Perdoaram, por exemplo, as dívidas da Alemanha, entre as quais se poderia incluir uma indenização de 162 bilhões de euros pela ocupação da Grécia, a metade da dívida de Atenas.

 

O problema é Tsipras ter prometido sacudir a carga sem tirar o país da Zona do Euro. Para isso, precisaria de apoio de alguns dos principais governos do continente e isso lhe falta. Os credores sabem que a dívida grega de 175% do PIB jamais será paga nas atuais condições, mas não admitem contabilizar o prejuízo sem desencadear a ira dos deuses sobre os devedores. Isso é mais arriscado para eles mesmos que uma reestruturação negociada, mas estão dispostos a fazer seus povos pagarem o preço de uma nova crise para manter os rebeldes em seu lugar. As relações de poder se sobrepõem à racionalidade econômica.

Se os gregos forem bem-sucedidos, nações de maior peso econômico serão tentadas a seguir seus passos, a começar pela sufocada Espanha, onde outro partido tido como radical, o Podemos, desponta como favorito. O equilíbrio na Europa será drasticamente alterado em desfavor de Angela Merkel e seus aliados no sistema financeiro e será o fim dos partidos que acataram e apoiaram os sacrifícios impostos a seus países. Não é de se admirar que o espanhol Mariano Rajoy, o português Pedro Passos Coelho e o irlandês Enda Kenny sejam os mais ferozes críticos das propostas gregas. Para todos esses, a Grécia sofrer um colapso e ser ejetada da União Europeia com o maior sofrimento possível para sua população seria o mal menor, pois desencorajaria seus próprios eleitores de tentar imitá-la.

Varoufakis tenta convencer a Europa de que o euro é um castelo de cartas e desabará se a Grécia cair, como afirmou ao visitar a Itália, o ás mais frágil do baralho europeu. Entretanto, nem mesmo os governos desse país e da França, liderados por partidos com origens na esquerda, se comprometeram com Atenas. Ao receber Tsipras na quarta-feira 4, François Hollande o mandou falar com a patroa Merkel e lhe pediu para “respeitar as regras”, recado dado com mais sutileza na véspera por Matteo Renzi ao presentear o grego com uma gravata.

No dia seguinte, horas depois da reunião do ministro grego com Mario Draghi, presidente italiano do BCE cuja anunciada política de flexibilização quantitativa (compra de títulos de dívida para irrigar o mercado com euros) provoca resmungos dos alemães, proibiu abruptamente o uso de títulos gregos como garantia. Obrigou os bancos gregos a pedir socorro ao frágil banco central de Atenas e acelerar seu caminho para a bancarrota.

Milhares de atenienses responderam na mesma noite com uma improvisada e inédita manifestação de apoio ao governo e no domingo 8, Tsipras reafirmou ao Parlamento suas promessas: refeições e eletricidade de graça para quem não as puder pagar, reabertura da tevê pública, fim do programa econômico da Troika, recontratação de funcionários demitidos e aumento gradual do salário mínimo de 586 para 751 euros até 2016.  Segundo pesquisa de opinião, 67% dos gregos apoiam seu programa e 75% sua postura ante a UE.

Grécia

 

Não deve bastar. O Eurogrupo quer prorrogar o atual acordo, opção descartada pelos gregos como insistência no erro. Querem um acordo-ponte de 10 bilhões para possibilitar os pagamentos dos próximos seis meses, enquanto se negocia um programa definitivo, com substituição dos atuais títulos de dívida por outros de prazo mais longo e juros baixos condicionados ao crescimento do PIB (como certos títulos argentinos). Wolfgang Schäuble, ministro da Fazenda alemão, veta essa possibilidade. Para ele, se a Grécia recusa a última parcela do “socorro” da Troika e as condições negociadas com o governo anterior, “acabou”.

Nesse caso, Tsipras teria de renunciar de forma humilhante ou repetir Sólon no aspecto monetário de suas reformas e quebrar a promessa de permanecer no euro para tentar manter as demais. A Rússia oferece ajuda financeira, um caminho pelo qual a Grécia não pretende seguir, mas no qual Merkel pode forçá-la, assim como Dwight Eisenhower e John Kennedy jogaram Cuba nos braços da União Soviética. Sem acordo, a Grécia pode entrar em moratória em semanas: vencem 6,7 bilhões em fevereiro e março e 8,8 bilhões no segundo trimestre.

*Reportagem publicada originalmente na edição 837 de CartaCapital, com o título "Sacudir a carga"