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Número 837,

Política

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Estórias do Brasil

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 17/02/2015 08h52
Há coveiros dispostos a erigir mausoléus imponentes, adestrados a finalizar enterros de luxo. Terminam na cova rasa
Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula

Lula assumiu em 2002 atormentado pelas suspeitas do mercado, cuidou de aplacar as desconfianças e repetiu a receita dos anos 90

Desde a década de 80, depois da crise da dívida externa, o Brasil perdeu-se nos descaminhos do baixo crescimento. No início dos 90, os capitais privados, instigados pela recessão nos países centrais, retornaram em massa à América Latina para saciar sua fome de risco. Com muito apetite, fizeram a festa com empresas estatais endividadas, ações desvalorizadas e diferenciais atraentes nas taxas de juro.

O establishment latino-americano não perde tempo. Dê mole e ele trata de enfiar as economias da região num ciclo de endividamento em moeda forte. Essa turma reage com a mesma sabedoria do cão de Pavlov: começa a salivar tão logo se restabelecem os circuitos do crédito internacional e passam a clamar pela “abertura econômica”. Como sempre acontece nos episódios de confidence building (sic), gênios da finança celebravam a nova era e decretavam: eureka!, a relação de valor entre o real e o dólar deve flutuar tão livremente quanto os termos de troca entre bananas e mexericas.

A persistente valorização do real acasalada com a abertura comercial inepta, ao contrário do que proclamavam e ainda proclamam seus preceptores, desfavoreceu a participação brasileira nas cadeias produtivas globais. Foram catastróficos os efeitos dessa insânia nos setores nos quais ocorriam com mais intensidade as transformações estruturais e tecnológicas gestadas no movimento de expansão da grande empresa transnacional. Nosso “afastamento” é flagrante nos setores de maior dinamismo: infraestrutura de telecomunicações móveis, PCs, computadores portáteis, tevês de plasma e LCDs, câmeras digitais, componentes eletrônicos.

Lula assumiu a Presidência em 2002 atormentado pelas suspeitas dos mercados, ainda sensibilizados pela crise cambial de 1999 e incomodados pelo fracasso rotundo do Plano Cavallo na Argentina. Diante desse quadro de ameaças e instabilidade, no primeiro mandato, o ex-presidente cuidou de aplacar as desconfianças e repetiu a receita dos anos 90. Manteve a taxa de juros nas nuvens e o câmbio fora do lugar. A partir de 2003/2004, os malefícios do câmbio valorizado acabaram dissimulados pelos resultados favoráveis da balança comercial, sustentados pelos preços generosos das commodities.

O agronegócio respondeu eficazmente à mudança nos termos de troca entre commodities e manufaturados. A ascensão econômica da China e dos asiáticos em geral, com dotações de recursos naturais diferentes das nossas, mudou a configuração do comércio internacional.

Nas condições acima descritas, seria não só desejável, mas obrigatório buscar uma combinação câmbio-juro real mais estimulante para avançar na diversificação da estrutura industrial, promover o avanço das exportações nos segmentos de maior intensidade tecnológica e estimular o investimento nos setores mais dinâmicos.

Há, é claro, quem defenda a tese de que era inevitável submeter a indústria brasileira à saudável disciplina da concorrência externa, resgatá-la dos perigosos confortos do protecionismo e dos favorecimentos oficiais. Como toda ideia simples e simplória com pretensão de tratar de assuntos complexos, tal “teoria” revelou-se funesta. Essa gororoba produzida nas retortas dos macroeconomistas de velório foi enfiada goela abaixo do País, a pretexto de curá-lo de doença grave.

No caso da indústria brasileira, os facultativos encarregados de tratar o paciente não só terminaram por lhe passar o atestado de óbito como cuidaram de enterrá-lo. É sabido que nesta nova era de flexibilidade e empregabilidade, os profissionais devem estar preparados para dominar muitos misteres. Só assim estarão aptos a escapar ilesos dos imprevisíveis vagalhões da “destruição criadora”. E, não há dúvida, é melhor enterrar do que ser enterrado.

Entre os macroeconomistas de velório e os keynesianos de quermesse, o leitor há de escolher aqueles que lhe parecem mais convenientes. Devemos conceder, preliminarmente, que ninguém entende mais de sarcófagos do que o coveiro. Há, porém, coveiros e coveiros. Uns são modestos, cavam em cemitérios simples, com enxadas sem fio. Mas há os de ego impaciente, com pretensões de erigir mausoléus imponentes. Diploma na parede, Ph.D. no estrangeiro, são ensinados e amestrados a finalizar enterros de luxo. Terminam seus dias na cova rasa.

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