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Número 837,

Internacional

Itália

Diante de Renzi, a direita sucumbe

por Claudio Bernabucci publicado 23/02/2015 02h29, última modificação 10/06/2015 16h22
O jovem premier acaba com Berlusconi e garante a hegemonia do centro-direita
AFP
Matteo Renzi

Matteo Renzi apresentou uma série de reformas constitucionais para agilizar as instituições e uma nova lei eleitoral

De Roma

A eleição de um homem digno à Presidência da República, Sergio Mattarella, determina na Itália um terremoto político que poderá abrir perspectivas inéditas. Vejamos os antecedentes.

Logo após eleito secretário do Partido Democrático, Matteo Renzi apresentou os pontos-chave da sua agenda política: uma série de reformas constitucionais para agilizar as instituições e uma nova lei eleitoral que superasse as contradições da anterior e garantisse a governabilidade. Logo em seguida, em janeiro de 2014, publicou uma carta aberta dirigida às principais forças políticas para propor uma colaboração em proveito do superior interesse da nação. Beppe Grillo, líder do Movimento 5 Estrelas, com seus 25% dos votos, recusou o convite com desprezo, enquanto o imprevisível Silvio Berlusconi o aceitou, para surpresa de muitos. No momento mais baixo da sua trajetória política, cassado pelo Parlamento e condenado, por fraude, a servir por um ano uma comunidade de idosos, o velho crocodilo achou ter encontrado a maneira de tentar um resgate político e de imagem. Com o chapéu na mão, mas com ambição de ressuscitar das cinzas, apresentou-se em 18 de janeiro de 2014 na sede do Partido Democrático, nos arredores da Praça do Nazareno.

Quando Renzi disse ter “profunda sintonia” com Berlusconi em relação à reforma eleitoral e constitucional, os maus humores na casa democrática ficaram evidentes. Na esquerda como na direita, espalharam-se críticas venenosas. O fato é que assim nasceu o Pacto do Nazareno, como a fantasia dos italianos nomeou aquele acordo.

O jovem Matteo cavalgou com inegável desenvoltura pelo duplo caminho da administração rotineira do governo e do acordo com Berlusconi pelas reformas políticas, conseguindo resultados concretos em ambos os campos. Por um lado, em aliança de governo com a Nova Centro-Direita (NCD), vale a pena citar a reforma do mercado de trabalho e várias medidas para reativação econômica e simplificação burocrática e fiscal. De outro, os acordos em matéria de reforma eleitoral e, com a radical transformação do Senado, a introdução de fato do monocamerismo. Ou seja, as eleições legislativas somente dirão respeito, de agora em diante, à Câmara dos Deputados. Não faltaram as especulações sobre as “tenebrosas transações” com Berlusconi a desgastarem bastante Renzi nos últimos meses. A inevitável falta de transparência nesse pacto e algum ato falho conferiram substância às suspeitas.

 

Além das conjeturas, resta o fato de que, em 27 de janeiro deste ano, uma inovadora lei eleitoral foi aprovada com a convergência determinante dos votos de Berlusconi e a surpreendente não participação de 24 senadores democráticos em oposição à linha do próprio partido. Faltavam poucos dias para a escolha do novo presidente da República, e Berlusconi tentou resistir às insistências de Renzi para que a lei fosse aprovada a qualquer custo antes da eleição. Resistiu muito, mas, por razões até agora misteriosas, capitulou ao cabo. Uma rendição aparentemente sem contrapartida, porque a lei eleitoral aprovada no Senado, e que seguramente será ratificada também na Câmara, onde o PD tem maioria absoluta, representa um autêntico suicídio da direita, pelo menos nessa fase política.

A lei prevê que o partido que supera 40% dos votos conquista 55% dos parlamentares. Caso nenhum partido chegue a 40%, se procederá a um segundo escrutínio entre o primeiro e o segundo classificado, e quem ganhar conseguirá uma posição que lhe assegurará 53% dos parlamentares. Outras características da lei são a barreira de 3% dos votos para admissão de forças menores no Parlamento e um sistema misto entre listas fechadas e abertas. Em suma, a lei assegura governabilidade, garante as minorias e o equilíbrio de gênero, estimula o sistema político em direção ao bipartidarismo e, em última instância, legitima fortemente o partido vencedor para guiar o governo, graças ao consenso da maioria dos cidadãos.

O suicídio à direita italiana baseia-se na sua dispersão cindida em pelo menos quatro partidos: além da Forza Italia de Berlusconi e da NCD, a Liga xenófoba e os herdeiros da direita neofascista reunidos nos Fratelli d’Italia, que muito dificilmente conseguirão se apresentar nas eleições com uma lista única. Tais agremiações teriam perspectivas bem diferentes caso a lei eleitoral conferisse posição de maioria outorgada às coalizões, como Berlusconi em vão pretendeu. Com a lei eleitoral enfim aprovada, o Partido Democrático, que viaja hoje nas pesquisas pouco abaixo dos 40%, ameaça vencer no primeiro turno ou, na pior das hipóteses, enfrentar o segundo turno e seguramente ganhar do Movimento 5 Estrelas, que hoje é o segundo partido, com aproximadamente 20% dos votos.

 

Cedendo na lei eleitoral, a ingênua esperança de Silvio Berlusconi era, provavelmente, entre outras inconfessáveis, a de condicionar com seu voto a eleição do presidente da República, um cargo estratégico com sete anos de mandato. Depois da eleição de Sergio Mattarella, o ex-Cavaliere denuncia nesses dias o acordo traído e lança alucinados alarmes de perigo para a democracia em que ninguém acredita. Declara acabado o chamado Pacto do Nazareno, no qual o papel de ovelha coube insolitamente a ele. Não considerou, evidentemente, que quem com ferro fere, com ferro será ferido.

O resultado da reviravolta parece ser uma ulterior divisão no campo da direita, com Berlusconi e a Liga aliados em posições radicalmente populistas e com o NCD inevitavelmente esmagado no PD. Completam o quadro: a oposição interna a Berlusconi na Forza Italia e numerosos senadores de direita que se oferecem ao governo para não interromper a legislatura.

O governo parece se fortalecer a cada dia que passa, enquanto também o M5E perde pedaços. Enquanto isso chegam os primeiros tímidos sinais de retomada econômica e de diminuição do desemprego. Uma legislatura nascida da pior maneira, com três forças políticas de quase idêntico tamanho a ameaçar a governabilidade, revela-se relativamente sólida e capaz de reformas audazes.