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Número 837,

Cultura

Cinema

'50 Tons de Cinza', o filme de sexo para quem não o faz

por Rosane Pavam publicado 13/02/2015 05h53, última modificação 13/02/2015 06h35
Não convém consumir o longa sem critério. Antes de tudo, é um filme sobre o trabalho, em que a submissão é ao patrão
Divulgação
Erotismo de supermercado

Erotismo de supermercado

É o filme achincalhado do ano, sexo para quem não o faz, coisa de mulher, todos dizem. Doe 50 dólares a quem combate o abuso sexual, não veja o abusivo 50 Tons de Cinza de uma indústria milionária, pregam as redes sociais. Grave sua transa e dispense o filme inglês, proclama Samuel L. Jackson, o ator americano que não abre mão do porte de armas. Evite o inferno, fuja do filme, vocifera Edir Macedo no salomônico púlpito. Enquanto isso, a obra da inglesa Sam Taylor-Johnson baseada no best seller de uma executiva da BBC, a mãe de 51 anos E. L. James, estreia para que os namorados comemorem. No Brasil, ele é como um espelho (côncavo ou convexo?) da antiga canção do Roberto.

50 Tons até pode ajudar alguém enquanto o engana. Por isso, talvez seja melhor tentar decifrá-lo do que consumi-lo sem critério. O filme funciona como aventurar-se no supermercado. Não convém comprar sexo com fome, o gasto será desmedido. Nem se pode dizer uma obra sobre a submissão erótico-romântica se a heroína Anastasia dribla teimosamente o dominador. Neste primeiro item de uma série, ela apanha no traseiro e anda sem vacilar. As paródias mirarão os diálogos risíveis, os tiros interpretativos de pouco alcance, a iluminação artificialíssima. Este prato gélido e limpo, em que estão descartados os galopes no cavalo branco da série Sabrina, é um filme mais sobre o trabalho no escritório do que sobre o sexo. A submissão é a seu patrão. E o contrato de trabalho não diz tudo sobre seu futuro sofrimento, nem poderia.

Dakota Johnson, a neta de Tippi Hedren, não é a Valentina fotógrafa dos gibis. Jamie Dornan está muito distante do Philippe Rembrandt, seu protetor desbancado como protagonista depois que Guido Crepax introduziu Valentina na história, em 1965. O mundo que gerou essa bela figura inspirada em Louise Brooks, submetida às cordas ideológicas ora em sonho, ora com deboche, projeção das angústias de um grande artista, está morta. E. L. James escreveu sua trama em um BlackBerry, mirando reformar a cozinha. Alguma coisa naqueles anos 1960 nos falta e nos dói.