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Número 836,

Economia

Análise/Thomaz Wood Jr.

Psicopata com MBA

por Thomaz Wood Jr. publicado 10/02/2015 06h04, última modificação 16/06/2015 17h33
Um vilão do cinema tem o mesmo discurso dos livros de autoajuda e management
Dilvugação
O abutre

Em O Abutre, Jake Gyllenhaal interpreta um larápio invasivo e amoral que descobre sua verdadeira vocação

O cinema acumula uma notável galeria de psicopatas. Robert De Niro viveu Travis Bickle em Taxi Driver, de 1976, dirigido por Martin Scorsese. Jack Nicholson interpretou Jack Torrance em The Shining, de 1980, realizado pelo mestre Stanley Kubrick. Christian Bale deu vida a Patrick Bateman em American Psycho, de 2000, dirigido por Mary Harron.

Jake Gyllenhaal agora acrescenta Louis ‘Lou’ Bloom à seleta lista. Em Nightcrawler, filme dirigido por Dan Gilroy, o ator interpreta um larápio que descobre por acaso sua verdadeira vocação: rodar pela cidade à noite, com uma câmera de vídeo, ouvindo a frequência da polícia e capturando imagens de crimes e acidentes, para vendê-las a noticiários sensacionalistas.

Invasivo e amoral, Lou cai nas graças de Nina Romina (Rene Russo), diretora de tevê obcecada por aumentar a audiência de seu telejornal. Nina o incentiva a buscar cenas cada vez mais chocantes. A dupla não é detida pelos usos e costumes já flexíveis do sensacionalismo midiático. Lou movimenta um cadáver para tornar uma cena mais fotogênica e sabota o veículo de uma empresa concorrente, causa um acidente e filma em seguida o resgate de seu competidor.

As idiossincrasias da sociedade do espetáculo e a indigência moral da mídia já foram exploradas em outras obras, como o superior Network, de 1976, dirigido por Sidney Lumet, o polêmico Natural Born Killers, de 1994, dirigido por Oliver Stone, e o recente Gone Girl, de 2014, dirigido por David Fincher. Nightcrawler tem ritmo de thriller e captura o espectador do começo ao fim, com diálogos cínicos entremeados com cenas de ação. Entretanto, não acrescenta muito à perspectiva crítica mostrada por seus antecessores.

O segredo do filme é o personagem interpretado por Gyllenhaal. Lou é um psicopata com MBA. Gilroy, que também assina o roteiro, parece ter se inspirado em livros de autoajuda e management para escrever as falas de Lou. O personagem soa como uma mistura de Stephen Covey, autor de Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, e os gurus de gestão Michael Porter e Peter Drucker.

No início do filme, depois de roubar tampas de bueiro e cercas para vender a um sucateiro, percebe uma oportunidade de trabalho e vende a si mesmo como se fosse um assíduo leitor da revista Você S.A.: ressalta sua motivação, sua orientação para resultados e sua capacidade de aprendizagem. Lou não se vê como desempregado, apresenta-se como empreendedor em transição de carreira.

Diante da oportunidade de comercializar cenas com acidentes, incêndios, esfaqueamentos, tiroteios e cadáveres, analisa a oportunidade, identifica suas forças e fraquezas pessoais e estabelece um plano de negócios, baseado em suas competências centrais. É cortês e cordial com todos, exibe sorriso de consultor e olhar confiante e penetrante. Está destinado a vencer!

Lou pesquisa metodicamente o ambiente de mercado de seus contratantes, identifica o potencial e as vulnerabilidades. A Nina, ele oferece parceria nos negócios e na cama. A ideia de que seu trabalho é imoral ou avança os limites da lei não passa pela cabeça de Lou. Ele tem foco e energia, características essenciais dos líderes, segundo pesquisa divulgada na Harvard Business Review.

Lou tem um jovem assistente, Rick, contratado com salário de fome, o qual explora e trata duramente. Em uma cena marcante do filme, diante de um projeto de alto risco, que pode levar seus negócios a outro patamar, Lou propõe promover seu assistente a vice-presidente, induzindo-o a pleitear um aumento irrisório de salário. Quando constata que caiu em uma cilada, Rick, o recém-promovido, questiona Lou, acusando-o de não ter foco em pessoas. O diálogo é hilariante: enquanto Lou emula os gurus de gestão, Rick incorpora o meloso discurso pseudo-humanista de diretores de recursos humanos.

Não há traços de ironia nas falas de Lou, o que as torna ainda mais parecidas com conversas e discursos ouvidos nos corredores corporativos, e, por isso, ainda mais apavorantes. Aforismos inspiradores, saídos da boca de um cordial psicopata, provocam frio na espinha de quem ouviu as mesmas platitudes de empresários e especialistas em gestão. O currículo de Gilroy indica que ele se graduou no prestigioso Dartmouth College. Terá cursado a escola de negócios?