Você está aqui: Página Inicial / Revista / O Circo Brasil / Na seca e sem luz?
Número 836,

Política

Crise

Na seca e sem luz?

por Rodrigo Martins e Miguel Martins — publicado 15/02/2015 07h05
O racionamento de água é inevitável. O de energia, cada vez mais provável
Leonardo Benassatto/Futura Press
Alckmin

Por enquanto, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin não raciona frases de efeito

Em janeiro, a Savyon, empresa de tecelagem com 250 funcionários no Bom Retiro, Centro de São Paulo, organizou um show-room para apresentar sua nova coleção de malhas aos clientes. Por conta da falta d’água, os convidados de Renato Bitter não puderam usar o banheiro durante a reunião de negócios. Após o constrangimento, o empresário decidiu investir 15 mil reais na compra de duas caixas-d’água de 10 mil litros, além de contratar o abastecimento diário de um caminhão-pipa. O temor agora é um possível racionamento de luz, com inevitável impacto sobre a produção. Não há geradores com capacidade suficiente para manter ativas as máquinas de sua planta. “Falaram que não haveria falta d’água, mas ela é uma realidade. Podem prometer, mas é difícil confiar que a oferta de energia não será afetada.”

O cenário é realmente desolador. Há tempos o Brasil sofre com o desaquecimento do comércio internacional. Em 2014, a produção industrial recuou 3,2%, puxada pela retração no consumo. O preço das commodities está em queda. A crise hídrica no Sudeste é o empurrão que faltava para a economia descer a ladeira. “Esse cenário, combinado ao racionamento duplo de água e energia, tem tudo para arrastar o País para um longo ciclo recessivo”, avalia Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo e ex-presidente do Conselho Federal de Economia.

Por si só, as condições da economia brasileira não são nada promissoras. Ao se incluir na conta um cenário de racionamento de água e energia, as estimativas ficam ainda mais negativas. A LCA Consultores projeta estagnação em 2015, mas estima que um corte de 10% no fornecimento de energia poderia gerar uma queda de 0,3% a 0,5% do Produto Interno Bruto. “Usamos como parâmetro os setores mais afetados na crise energética de 2001. É mais difícil dimensionar o impacto da falta d’água, pois nunca passamos por uma crise tão severa de abastecimento”, explica Francisco Pessoa Faria, economista da instituição. O Banco Itaú, por sua vez, divulgou na segunda-feira 2 uma previsão de retração de 0,5% da economia nas condições atuais. Acrescentou, porém: um “racionamento conjunto de água e energia elétrica teria um efeito adicional sobre o crescimento do PIB de menos 0,6 ponto porcentual”.

Responsável por 30% da riqueza nacional, o estado de São Paulo, administrado pelo PSDB há 20 anos, deve liderar o País no caminho recessivo. Ao longo de 2014, o governador Geraldo Alckmin garantiu reiteradas vezes que não faltaria água em 2015. Passado o período eleitoral, continuou a negar a gravidade da crise. Resultado: o Sistema Canteira, responsável por abastecer 9 milhões de habitantes nas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas, está à beira do colapso, com 5,2% de sua capacidade, incluídas as duas cotas do volume morto.

Desde a outorga para explorar o reservatório, em 2004, a Sabesp, estatal que controla o abastecimento de 364 municípios paulistas, recebe alertas da Agência Nacional de Águas sobre a necessidade de buscar novas fontes de captação. Segundo o Ministério Público Estadual, a empresa lucrou 12 bilhões de reais com o sistema desde então, dos quais quase 4 bilhões foram para o bolso de acionistas. A distribuição de milionários dividendos deu-se sem os investimentos necessários para preservar o Cantareira, registram os promotores.

Alckmin ignorou ainda um plano de racionamento elaborado por técnicos da Sabesp em janeiro de 2014. À época, a empresa sugeria um rodízio de 48 horas com água e 24 horas sem abastecimento. A demora na adoção da medida cobra a fatura hoje. No fim de janeiro, Paulo Massato, diretor da companhia, alarmou a população ao sugerir um rodízio de dois dias com água para cinco dias de torneiras secas. Oficialmente, a Sabesp não declarou qual será o regime a ser adotado.

A situação tem gerado uma queda de braço entre a prefeitura da capital e o governo do estado. O prefeito petista Fernando Haddad tem planos de contingenciamento preparados para diversos cenários, mas espera uma posição de Alckmin sobre qual será a política de racionamento. Por ora, a recomendação é de que todos os equipamentos municipais, entre eles escolas, creches e hospitais, reduzam em 20% o consumo. Na volta às aulas na quarta-feira 4, algumas escolas adotaram medidas que fogem ao bom senso, entre elas impedir as crianças de escovar os dentes. “Diante da falta de informação, algumas escolas tomaram medidas extremas por conta própria”, justifica Haddad.

A prefeitura defende um período de rodízio igual para todos os paulistanos, para não gerar um desequilíbrio no abastecimento. Há o temor de que regiões atendidas pelos sistemas Alto Tietê e Guarapiranga tenham mais água disponível na comparação com aquelas no perímetro do Cantareira. O risco de distúrbios e levantes populares não é descartado.

Como a lei garante prioridade ao abastecimento humano, a agricultura e a indústria tendem a ser duramente afetadas. Apenas no setor de hortifrútis, a restrição de água pode afetar 50% dos produtores. Responsável por 60% do PIB do estado, a indústria prevê queda na produção, redução de investimentos e demissões. Na região de Campinas, o cenário é mais grave. Uma resolução do Departamento Estadual de Água impõe redução de 30% na captação industrial caso o Cantareira opere com menos de 5% de sua capacidade.

Um levantamento realizado pela Federação das Indústrias de São Paulo detalha as expectativas do empresariado. De 413 companhias consultadas, 67% afirmam temer o racionamento e 54% não têm fontes alternativas. O setor de serviços, que há meses convive com o abastecimento instável, improvisa formas de driblar a crise. Restaurantes da capital passaram a usar copos e pratos descartáveis. A higienização das mãos é realizada com álcool em gel. Somente as empresas do ramo de abastecimento parecem vislumbrar um 2015 promissor.

Segundo a Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção, as vendas de caixas-d’água em São Paulo aumentaram 50% no último ano. As empresas de caminhão-pipa também aproveitam a oportunidade. Proprietário da companhia A Predileta, Edmilson Gusmão viu seu faturamento crescer 30% em janeiro. Os 48 caminhões da firma atendem, sobretudo, complexos residenciais e comerciais em Alphaville. Com contratos assinados para os próximos seis meses, Gusmão teme não ter condições de aceitar novas encomendas, graças à baixa de 30% no nível de seu poço artesiano em Santana do Parnaíba. “O preço pode aumentar, pois teremos de captar água em fontes mais distantes.”

Em um restaurante especializado em pamonhas na Rodovia dos Bandeirantes, no interior paulista, o encanador Oswaldo Barbosa desenvolveu um sistema de captação de chuva no qual calhas são utilizadas para direcionar a água do telhado a duas caixas de 6 mil litros. “Captamos essa água para refrescar o telhado, pois o calor tem sido muito forte no verão.”

A prefeitura de São Paulo teme, porém, a proliferação de doenças por causa do aumento do armazenamento de água em recipientes destampados. O número de casos de dengue registrados na capital paulista triplicou nas três primeiras semanas de janeiro em comparação ao mesmo período do ano passado, segundo a Secretaria da Saúde.

Segundo Paulo Canedo, coordenador do Laboratório de Hidrologia da Coppe-UFRJ, os impactos seriam bem menores se o racionamento fosse decretado há um ano. “No fim de 2013, havia todos os indícios da crise, mas Alckmin preferiu confiar em São Pedro. Agora, não há como sair da crise sem sofrimento.” Na sua avaliação, a situação do Rio de Janeiro e de Minas Gerais é mais confortável, mesmo assim recomenda a adoção imediata de medidas de racionamento.

Ao menos 88 municípios mineiros têm sentido na pele a falta de água. A nova direção da Copasa, a companhia de saneamento do estado, alerta que a situação de 31 cidades metropolitanas, entre elas Belo Horizonte, é “extremamente preocupante” e orientou a população a reduzir o consumo em 30%. No Rio de Janeiro, as atenções estão voltadas para quatro reservatórios do Rio Paraíba do Sul. Eles integram o Sistema Guandu, responsável pelo abastecimento de 12,3 milhões de habitantes, três quartos da população. Dois deles atingiram o volume morto, e a ANA voltou a recomendar a diminuição da vazão do rio, dos atuais 140 para 110 metros cúbicos por segundo. Apesar dos sinais de alerta, o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, do PMDB, descarta, por ora, um racionamento. “É temerário. Se não restringir o consumo, o Rio corre o risco de chegar em 2016 com uma situação semelhante à de São Paulo hoje”, emenda Canedo.

O engenheiro Leo Heller, professor da UFMG e relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento, reconhece a inevitabilidade do racionamento e critica a forma como as medidas têm sido planejadas. “O corte de abastecimento indiscriminado pode ser desastroso nos bolsões de pobreza, além de atingir creches, asilos, hospitais, penitenciárias. É preciso proteger as populações vulneráveis.”

Dona de uma pequena venda em Itapevi, região metropolitana de São Paulo, Roseane Acácio sofre com a falta de água diariamente. Localizada em um ponto alto da cidade, sua casa tem sido afetada pela redução da pressão da água, estratégia utilizada pela Sabesp desde meados de 2014. A região é atendida pelo Sistema Alto e Baixo Cotia, que opera com menos de 30% da capacidade. A escassez na cidade antecede a crise hídrica: moradores convivem com o problema há pelo menos dois anos. A situação agravou-se nas últimas semanas, gerando protestos de moradores. Em razão do investimento para montar seu negócio, a família não tem recursos para comprar novas caixas-d’água. “Tivemos de improvisar quatro tonéis de 250 litros nos cômodos da casa.”

Diante da crise, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura manifestou preocupação com a segurança alimentar. “Pequenos produtores podem quebrar, com impactos sobre o preço dos alimentos”, explica Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil. “Essa crise demonstra a necessidade de investimentos em tecnologias para economizar água na agricultura e proteger os mananciais.” A Comissão Pastoral da Terra também teme a escalada da violência no campo. Apenas em 2013, foram registrados 93 conflitos por água em 19 estados, o maior número da série histórica iniciada em 2002.

Os impactos na economia ocorrem em todos os estados do Sudeste. O secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Altamir Rôso, prevê dificuldades para a agricultura e setores industriais que fazem uso intensivo da água, como mineração e siderurgia. “Temos de ser realistas. Se faltar água, é bem possível uma retração no PIB mineiro em 2015.” No Rio, os produtores rurais acumularam perdas de 100 milhões de reais no último trimestre de 2014. A estiagem prolongada provocou a morte de 2 mil cabeças de gado nas regiões norte e noroeste do estado.

Além do temor de um racionamento de água e energia, os empresários queixam-se do elevado preço pago pela indústria brasileira por eletricidade. O custo médio subiu de 360,85 reais por megawatt-hora, em dezembro, para 403,8 reais, em fevereiro. A média internacional é o equivalente a 275 reais, segundo um ranking de 28 países monitorados pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. “Diante da perspectiva de um aumento nas bandeiras tarifárias de energia e de reajustes cobrados pelas operadoras, a energia pode encarecer até 40% ao longo deste ano”, afirma Cristiano Prado, gerente de Competitividade Industrial e Investimentos do Sistema Firjan. “Isso trará impactos diretos sobre a produção, pois a energia é o nosso principal insumo.”

A escassez de chuvas em janeiro aumentou o risco de apagões. O volume de chuvas sobre os reservatórios de hidrelétricas do Centro-Oeste e do Sudeste corresponde a 38% da média histórica, o pior índice para o mês desde 1931. De acordo com o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, o risco de faltar energia nessas regiões aumentou para 7,3%, acima do limite de segurança estabelecido pelo governo federal, de 5%. Apesar do alerta, o relatório do CMSE, divulgado na quarta-feira 4, assegura que no sistema elétrico “há sobra estrutural de cerca de 7.300 MW médios para atender à carga prevista”.

Desde o apagão que deixou 3 milhões de brasileiros sem luz em 19 de janeiro, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, evita falar em racionamento. O blecaute foi atribuído a falhas técnicas. Braga prometeu lançar um programa de eficiência energética, com incentivos para os consumidores trocarem lâmpadas e equipamentos eletrônicos por modelos mais econômicos. A letargia do governo não inspira, no entanto, confiança. “Esperamos que, nos próximos 60 a 90 dias, possamos ter um conjunto de ações”, anunciou no fim de janeiro. Na quarta-feira 4, voltou a negar o risco de apagões: “No momento, podemos garantir o suprimento de energia para o País”.

A redução do nível de dois reservatórios instalados no Rio Paraíba do Sul já forçou o desligamento de duas hidrelétricas. Como as usinas tinham baixa participação na geração de energia para o sistema, o Operador Nacional do Sistema Elétrico não teve dificuldade para remanejar energia de outros polos geradores. Não há clareza, contudo, sobre o que aconteceria se hidrelétricas de maior porte tivessem de parar a operação.

Há meses a Usina de Três Marias, na região central de Minas, funciona com apenas uma de suas seis turbinas. As demais são ligadas apenas três horas por dia. Com capacidade de 396 MW, a hidrelétrica gera, atualmente, 36 MW em média. Mesmo assim, o reservatório, que integra a Bacia do Rio São Francisco, está com 10% de sua capacidade. A represa de Furnas, ao sul do estado, também fechou o mês de janeiro em alerta, com apenas 9,46% de sua capacidade. A potência instalada da hidrelétrica é de 1,2 mil MW, suficiente para abastecer uma cidade com 2 milhões de habitantes. Duas turbinas estão paradas e a geração foi reduzida a um terço.

Na avaliação de especialistas, o racionamento de energia também seria inevitável. A água disponível nos reservatórios das hidrelétricas no Sudeste, principal reserva do sistema, é suficiente para a geração de energia por apenas um mês, estima Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe-UFRJ e ex-presidente da Eletrobras. No fim de janeiro, Pinguelli Rosa enviou uma carta ao ministro de Minas e Energia, na qual pedia a adoção de medidas para diminuir o consumo no País. “Desde 2008 o nível dos reservatórios tem caído. Se o racionamento tivesse sido adotado há dois anos, o impacto seria bem menor. Bastaria reduzir 5% da oferta. Agora, o corte pode ficar entre 10% e 20%.”

Para suprir o déficit das hidrelétricas, as usinas térmicas têm operado a pleno vapor desde 2013. Nos 12 meses encerrados em novembro do ano passado, as termoelétricas responderam por 22% da energia produzida no Sistema Interligado Nacional, mais que o dobro do período anterior, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. Atualmente, elas geram algo em torno de 17 mil MW por dia, diante de uma capacidade total de 21,6 mil MW no SIN. “Se não chover muito, dificilmente as térmicas darão conta do recado”, afirma Pinguelli. “E as previsões meteorológicas não são nada animadoras.” Assim como a água e a energia, o otimismo no País tornou-se um bem escasso.