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Número 836,

Internacional

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As eleições imperiais dos EUA

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 17/02/2015 08h47, última modificação 09/06/2015 17h22
Cada vez mais uma oligarquia hereditária, o país tende a assistir em 2016 à disputa entre as dinastias Bush e Clinton
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Republicanos ou democratas? Bush ou Clinton? Para o resto do mundo, pouco importa

O congresso saiu do recesso do fim de ano sob nova direção, republicana. De agora em diante, seus debates serão cada vez menos sobre políticas necessárias ao país e ao mundo e mais sobre as eleições de 2016, mesmo se pretenderem parecer outra coisa. O mesmo pode se dizer das propostas legislativas de Barack Obama. Ao apresentar um projeto orçamentário de 3,99 trilhões e anunciar o fim da austeridade, a salvação da classe média e o aumento dos impostos dos ricos e das empresas para financiar projetos sociais e de infraestrutura, sabe perfeitamente serem zero as chances de aprovação na Câmara ou no Senado.

Não são muito melhores, aliás, as probabilidades de se resgatar a classe média. Hoje, o 1% mais rico possui 40% da riqueza e 22% da renda do país. Impressiona não só em relação ao passado dos EUA – em 1960, essa camada detinha apenas 10% da renda – como ante o Império Romano do século II, onde o 1% mais rico tinha 16% da renda. A política lembra cada vez mais a disputa nas últimas décadas da República Romana entre os Populares (“democratas”) do magnata Júlio César e os Optimates (“republicanos”) do ainda mais rico Pompeu Magno, cuja facção radical, na qual militou Marco Júnio Bruto, se intitulou Liberatores, como os libertarians do Tea Party. Sintoma de como o poder tornou-se uma disputa entre dinastias é o fato de os mais prováveis contendores de 2016 se chamarem Hillary Clinton (esposa de Bill) e Jeb Bush (irmão de George W. e filho de George H.). Não só a desigualdade cresce, como torna-se cada vez mais hereditária. A mobilidade social diminui a olhos vistos.

Assim como Obama, os Clinton e os Bush nasceram ricos e são multimilionários. Incluem-se no 0,1% com mais de 10 milhões de dólares em patrimônio, que se apropriaram da maior parte do crescimento econômico desde a era Reagan, mas não nos 0,01% dos ultrarricos, com mais de 100 milhões, cujas fortunas quadruplicaram no último quarto de século. São essas 16 mil famílias que de fato dão as cartas na política e na economia. Mais ainda a partir de 2010, quando a Suprema Corte declarou inconstitucionais as restrições à participação de empresas nas campanhas eleitorais e permitiu a criação dos chamados “Super PACs”, comitês paralelos com recursos ilimitados. Só os irmãos Charles e David Koch, controladores do complexo industrial e petrolífero Koch Industries, pretendem arrecadar 900 milhões de dólares com seu comitê pró-republicano, mais do que o orçamento oficial de campanha dos dois partidos somados.

Enquanto isso, o próprio empobrecimento das classes médias e inferiores reduz sua participação política. Nos EUA, vão às urnas 63% dos eleitores que pertencem aos 20% mais ricos e 51% do quintil seguinte, mas só 20% do quintil mais pobre. O voto e o próprio registro de eleitor são facultativos, as eleições dão-se em dia de trabalho, não há compensação por horas perdidas e eleitores negros, hispânicos e pobres são sujeitos a constrangimentos, tais como ter de provar aos militantes republicanos que fiscalizam os distritos eleitorais que jamais passaram pela prisão, o que em muitos estados implica perda do direito de voto pelo resto da vida, ou que não são imigrantes ilegais.

Ainda é preciso, porém, salvar as aparências. Em parte, Mitt Romney perdeu em 2012 por pertencer à ultraelite e defender seus interesses de forma demasiadamente explícita. Desta vez, apesar de ser o pré-candidato mais bem colocado nas pesquisas, Romney (67 anos) optou por procurar na “nova geração de líderes republicanos” quem o represente. Os mais cotados para receber seu apoio contra Jeb (61) são o governador de Wisconsin, Scott Walker (47) e o senador cubano-americano Marco Rubio (43), ambos simpáticos ao Tea Party.  Outro pré-candidato relevante e relativamente “jovem” (52) é Chris Christie, governador de New Jersey, mas corre na raia “moderada”, como Bush. O conservador negro Ben Carson, o líder evangélico Mike Huckabee, o senador Ted Cruz, o libertarian Rand Paul e o ex-governador texano Rick Perry pontuam relativamente bem, mas dificilmente uniriam o partido.

Mas, se a dinâmica econômica e o voto distrital favorecem os republicanos, principalmente no Congresso, a demografia pesa a favor dos democratas no voto nacional. A proporção de não brancos cresce por imigração e natalidade e os republicanos são, na grande maioria, anglo-saxões incapazes de esconder seus preconceitos. Mesmo entre os cubano-americanos, a nova geração, menos obcecada pelo anticastrismo, inclina-se mais aos democratas. Não é preciso dizer que os republicanos também são impopulares entre feministas e homossexuais assumidos, dois contingentes em crescimento.

Na maioria das pesquisas, os democratas aparecem à frente na eleição presidencial. Terem a candidata praticamente definida os ajuda ante republicanos mais divididos do que nunca. Hillary Clinton tem 60% de preferências em seu partido, seguida de longe pelo pouco empolgante vice Joe Biden e pela senadora Elizabeth Warren, popular na ala progressista, mas sem chances de conquistar a maioria do partido. Só um escândalo impediria a ex-primeira-dama de concorrer.

A Fox News faz o que pode com a denúncia do jornal Washington Times, segundo a qual Hillary forjou relatórios sobre atrocidades de Muammar Kaddafi para justificar a intervenção na Líbia, exatamente como a equipe de George W. Bush fez com as “armas de destruição em massa” de Saddam Hussein no Iraque. Mas isso apenas demonstraria que há muito pouca diferença entre os dois partidos quando se trata de política imperial. Tanta quanto entre Pompeu e César.

*Reportagem publicada originalmente na edição 836 de CartaCapital, com o título "Eleições imperiais"