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Número 836,

Política

Ditadura

O crime perfeito da ditadura

por Marcelo Pellegrini — publicado 09/02/2015 05h18, última modificação 11/02/2015 11h19
Em São Paulo, ossadas do Cemitério de Perus se deterioram à espera de identificação
Yghor Boy

Meu pai foi morto pela ditadura e estava enterrado em Perus.” O depoimento do professor de Educação Física Grenaldo da Silva Mesut é apenas um entre tantos de familiares dos 42 desaparecidos políticos que podiam estar enterrados no cemitério em São Paulo, usado para a desova de vítimas da repressão.

Descoberta em 1990 na gestão da então prefeita Luiza Erundina, a vala clandestina continha 1.049 ossadas, todas sem identificação. Entre os esqueletos sem identificação estão desaparecidos políticos, vítimas do Esquadrão da Morte e crianças mortas após um surto de meningite atingir São Paulo no início dos anos 1970, epidemia abafada pela ditadura.

“Identificar os ossos do meu pai e dos demais é a chance de mostrarmos os crimes da ditadura e recuperarmos a verdade e a memória das vítimas”, afirma Mesut, filho de Grenaldo de Jesus Silva, morto com um tiro no peito no Aeroporto de Congonhas após sequestrar um avião da Varig em uma ação contra o regime, em 1972. De acordo com o governo militar, o militante liberou a tripulação e suicidou-se com um tiro na cabeça. “Meu pai não se suicidou, ele foi morto.”

A busca pela história final dos cadáveres da vala de Perus está ameaçada. Após décadas de abandono, as ossadas e os sacos que as envolvem estão mofados e em péssimo estado de conservação. Se o governo não acelerar a análise do material, o avanço dos fungos, embora lento, terminará de devorar os últimos resquícios genéticos no colágeno dos ossos, o que impossibilitaria os exames de DNA.

Os familiares das vítimas têm pressa, mas esbarram na falta de recursos alegada pelo governo. Por 23 anos, de 1990 a 2013, os restos mortais circularam entre órgãos públicos. Sob a guarda da Universidade de Campinas, nos anos 90, os esqueletos ficaram em sacos abertos, espalhados em uma sala sem acondicionamento e expostos a inundações. Em 2001 a guarda passou para a Universidade de São Paulo, e as ossadas foram encaminhadas para o Ossário-Geral do Cemitério do Araçá, onde também havia o risco de infiltração e de degradação. Reformas foram feitas, mas o ossário seguiu sem o acondicionamento necessário.

Até hoje, apenas três restos mortais foram identificados: os ex-presos políticos Dênis Casemiro e Frederico Eduardo Mayr, no início dos anos 90, e o de Flávio de Carvalho Molina, em 2005, após sua mãe, Maria Helena Molina, ter aberto um processo contra a União e o Ministério Público Federal ter determinado o exame de DNA.

Apenas em setembro de 2013, por meio de um acordo firmado entre a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo e a Universidade Federal de São Paulo, as análises começaram a ser feitas de forma sistemática.

Com verbas do Ministério da Educação, uma casa na zona sul de São Paulo foi convertida em laboratório de arqueologia forense da Unifesp. O governo contratou profissionais brasileiros e peruanos, e 433 caixas com o material foram transferidas para o laboratório. Dessas, 112 passaram por análises entre outubro e dezembro de 2014. Foram encontrados seis restos mortais com lesões contundentes e três com lesões por arma de fogo, mas ainda falta a identificação por DNA. As demais 638 caixas seguem no Cemitério do Araçá.

“As caixas estão mofando, porque só o andar de baixo da casa foi reformado e adaptado”, denuncia Maria Amélia Teles, fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos e fundadora da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo. “Além disso, o número de profissionais é pequeno e temos pressa na identificação dos ossos. Faz muito tempo e os familiares estão morrendo, tornando mais difícil a identificação dos desaparecidos.” Amelinha, como é conhecida, teme ainda o corte orçamentário anunciado pelo governo.

A CartaCapital, a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, assegurou que os cortes não serão um empecilho. “Da mesma forma como no ano passado não tinha rubrica no Orçamento da Secretaria de Direitos Humanos para os técnicos e encontramos a solução, não tenha dúvida de que cumpriremos nosso compromisso com os familiares”, garantiu. “Agora temos de aguardar a aprovação do Orçamento de 2015 pelo Congresso para continuar com nosso planejamento.” Segundo a ministra, a reforma do andar superior da casa é prioridade.

Na corrida contra o relógio, 17 funcionários trabalham na análise do material. Somente após a verificação dos 1.049 esqueletos, os restos mortais com maior probabilidade de serem de desaparecidos políticos terão seu DNA extraído.

A operação prioriza a identificação dos desaparecidos políticos, mas as famílias de vítimas de grupos de extermínio ou que possuíam crianças mortas em decorrência da falha sanitária da ditadura também poderão solicitar o exame das ossadas.

Para Amelinha, falta vontade política: “A dificuldade em conseguir dinheiro para as investigações e a ausência da vala de Perus no relatório da Comissão da Verdade são provas de que o governo não quer enfrentar os crimes da ditadura”.

A ministra dos Direitos Humanos rebate a acusação. Lembra que sua gestão foi a única a encomendar a análise dos restos mortais e prevê ainda neste ano a fase final da identificação das ossadas. “Os exames de DNA serão feitos todos de uma só vez. Até lá, se alguma ossada tiver fortes indícios de ser de um dos desaparecidos políticos, a Polícia Federal realizará o exame.”

Com tantos ex-presos políticos  em seus quadros, seria imperdoável se um governo do PT fosse responsável pela perda total e definitiva de parte crucial da memória das atrocidades da repressão.