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Número 836,

Internacional

França

Com DSK, o Eliseu hoje seria um bordel

por Gianni Carta publicado 07/02/2015 09h24
Cientes das pulsões sádicas do ex-diretor do FMI, os franceses assistem a um processo que talvez mudará a maneira de avaliar seus futuros líderes
Denis Charlet/AFP
DSK

Um pétreo DSK encaminha-se para o processo de Lille. Por trás de tudo haveria a mão de Sarkozy?

De Paris

Sentado na primeira fila do Tribunal Correcional de Lille, braços e pernas cruzados, o robusto e tenso Dominique Strauss-Kahn é uma estátua. Potencial presidente da República até o escândalo sexual com uma faxineira do Hotel Sofitel em Nova York, que, em maio de 2011, o fez renunciar ao cargo de diretor do FMI. Pior: abandonou a corrida presidencial naquele ano, no lugar de seu colega socialista François Hollande. Uma vitória quase certa a de DSK, como é conhecido. Olhar perdido, o economista de 65 anos encara o vácuo. Com outros 13 réus, o ex-diretor do FMI é acusado de “proxenetismo agravado”. Se condenado, poderá pegar dez anos de prisão e pagar uma multa de 1,5 milhão de euros.

O processo iniciado na segunda-feira 2 é chamado de Caso Carlton, visto que o gerente do Carlton e de outro hotel, o Tours, ambos em Lille, chama-se René Kojfer. Aos 73 anos, planejava orgias para satisfazer DSK, ele sobretudo. As escorts eram providenciadas pelo assumido cafetão belga Dominique Alderweireld, mais popular sob o nome de batalha Dodo la Saumure, 65 anos. Embora a prostituição e pagar por sexo não sejam atos ilegais na França, o proxenetismo agravado é crime. Segundo o juiz Bernard Lemaire, em jogo estão graves acusações: “exploração”, “pressão”, “delitos financeiros”, “manobras fraudulentas”.

Os réus supostamente organizavam, pagavam e/ou participavam de “soirées libertinas” globalizadas. Em Lille, Paris, Viena, Madri, Nova York e Washington. O processo em Lille, com duração de três semanas, será conduzido por três juízes. Não haverá júri. Em compensação, não faltarão jornalistas: 300, de vários países. DSK é grande atração, cidadão de realce, dotado intelectualmente, casado até 2012 com a popular e bilionária jornalista Anne Sinclair, filha do marchand de Picasso e Matisse, tem sido descrito como um sádico por várias das mulheres que dizem ter sido por ele atacadas. Tido como “rei das soirées”, admite ter participado de orgias. Diz, porém, ignorar o fato de as mulheres serem prostitutas.

DSK até incorporou na sua retórica a frase de um de seus advogados: impossível dizer se uma mulher nua é ou não é prostituta. Prova de que até brilhantes economistas, embora isentos da erudição de historiadores, têm seus limites. Para os juízes, os fatos de DSK ser apegado a práticas sexuais violentas pouco convencionais, e não usar preservativos, demonstram o fato de as mulheres serem pagas. No entanto, talvez os juízes do Caso Carlton precisem debruçar-se mais sobre o dossiê que instrui o processo. Lemaire insiste: não haverá “uma cruzada moral”. Acrescenta: “Não pretendo revisitar os detalhes, as anedotas, e sim evocar os fatos para avaliá-los unicamente sob o ângulo da qualificação penal do proxenetismo agravado”. Vejamos: Lemaire não quer “evocar, em lugar dos detalhes”, os fatos. Não seria a mesma coisa?

DSK é figura trágica. Escorts pediram para ter sessões privadas, prontamente rejeitadas pelos juízes, e para a felicidade dos jornalistas de tabloides. Na terça-feira 3, a prostituta Jade disse ao tribunal que aceitou trabalhar para Kojfer e Dodo la Saumure porque acabava de se divorciar. Tinha de alimentar dois filhos. Participava de festas. Quando entrava em cena DSK, as orgias viravam uma “carnificina”. Foi, aliás, a palavra usada por uma funcionária do FMI, assediada por DSK, em 2008. O caso foi abafado. E vale recapitular: em maio de 2011, ainda diretor do FMI, ao sair do banheiro de um quarto do Hotel Sofitel, em Nova York, DSK depara-se com a faxineira Nafitassou Diallo. Ela o acusa de estupro de violência inaudita. Diallo, é obvio, orientou seus procuradores a ceder às polpudas somas oferecidas por DSK.

À época, teorias de conspiração vieram à tona. Nicolas Sarkozy estaria por trás do caso para ganhar de DSK na presidencial. Desta feita, Ellen Salvi, do site Mediapart, diz que houve escutas ilegais em torno do caso a partir de 2008, ou seja, desde antes do escândalo em Nova York. No entanto, tudo se revelou oficialmente entre junho de 2010 e fevereiro de 2012. Para serem oficiais, as escutas iniciadas em 2008 teriam de ser aprovadas pelos ministros da Defesa, do Interior, do Orçamento, e com o aval do premier, à época o conservador, e rival de DSK, François Fillon. O nome de DSK havia sido mencionado nas escutas, e não é possível excluir a possibilidade de alguma manobra por parte do governo e do próprio Sarkozy. Faltam provas, de todo modo. E mesmo sem DSK, o socialista Hollande venceu Sarkozy.

Outras escabrosas situações a envolver DSK afloraram. Em 2012, a escritora francesa Tristane Banon contou em um livro como foi violada por DSK. Mas o crime estava prescrito. No mesmo ano, em Nova York, DSK teria participado do estupro coletivo de uma mulher, que acabou por retratar a acusação. Um ex-professor de economia de DSK me disse que, quando o futuro político entrava no elevador da faculdade em Paris, não havia mulher que se aventurasse a tomá-lo. “Se DSK tivesse vencido o pleito presidencial de 2012, hoje o Eliseu seria um bordel.”

A mídia francesa sempre escamoteou a vida privada de seus dirigentes, inclusive do presidente François Mitterrand, um socialista com elos com o regime pró-nazista de Vichy, bígamo que vivia em duas casas com duas famílias. Quem votaria em um político sem escrúpulos morais? No momento, os franceses, cientes das pulsões sádicas de DSK, assistem a um espetáculo que talvez mude a maneira de avaliar seus líderes.