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Número 836,

Internacional

Itália

Sergio Mattarella, católico de esquerda

por Claudio Bernabucci publicado 12/02/2015 06h18, última modificação 10/06/2015 16h25
Ao novo presidente da Itália, caberá um papel muito importante em um país que se livrou de Berlusconi
Primo Barol / AFP
Sergio Mattarella

Sergio Mattarella estranho ao establishment, de alto perfil ético e cultural, ligado à tradição partigiana

De Roma

O inquieto parlamento italiano acaba de eleger um novo presidente da República: Sergio Mattarella, 73 anos, ex-político da defunta Democracia Cristã e juiz constitucional até poucos dias atrás.

Prenunciada desde sua reeleição em 2013, a demissão do ex-presidente Giorgio Napolitano chegou na metade de janeiro. Decisão quase inevitável por causa da idade avançadíssima (89 anos), mas também oportuna politicamente na nova estação governamental do jovem premier Matteo Renzi. Em poucos meses, este virou protagonista absoluto do cenário político peninsular, ocupando com sua liderança o amplíssimo espaço que a falta de decisão dos partidos tinha deixado vazio.

Nesse fragmentado Parlamento, onde, em todo caso, o Partido Democrático detém ampla preponderância, não era fácil imaginar a rápida eleição de um novo e respeitável presidente da República que não resultasse de intermináveis e desgastantes transações. Com eficácia e ousadia digna de um político de raça, Matteo Renzi conseguiu o resultado: a proposta de eleger Sergio Mattarella foi dele, aceita depois pelo PD por unanimidade e sucessivamente imposta aos demais partidos. A sensata escolha  de uma figura de alto perfil ético e cultural, com trajetória política de esquerda, mas originária de uma tradição moderada como a da Democracia Cristã, foi a carta vencedora. Por um lado, compactou o PD, que acusava sinais graves de divisão interna, por outro, conseguiu o consenso da esquerda parlamentar e a divisão da direita.

Sergio Mattarella, eleito com quase dois terços dos votos, é o primeiro presidente siciliano na história da República italiana. Na juventude, dedica-se à carreira acadêmica na Faculdade de Direito de Palermo, até a morte violenta de seu irmão, Piersanti, assassinado pela máfia em 1980.  Este, político de profissão. Presidente da Região Sicília, pretendia renová-la e livrá-la da influência mafiosa. Os oito disparos do sicário mafioso, que interromperam a experiência política reformadora de seu irmão, marcaram indelevelmente a existência de Sergio, que logo abandona a vida dedicada à pesquisa jurídica e faz da luta pela legalidade e do compromisso social sua missão de vida. Dois anos depois, é eleito deputado e começa formalmente sua carreira política, militando na ala esquerda do partido católico, inspirada pelo falecido Aldo Moro, morto em 1978 pelos terroristas das Brigadas Vermelhas, em meio a uma negociação com o líder comunista Enrico Berlinguer a visar o chamado “compromisso histórico”. Ao longo do seu percurso político e institucional, Mattarella se distingue pelo estilo pacato e pela firmeza nas questões de princípio, como em 1990, quando se demite do cargo de ministro da Educação do então governo Andreotti, em protesto contra o decreto que legalizava o posicionamento definitivo na grade dos três canais televisivos da Mediaset, favorecendo descaradamente os interesses privados de Silvio Berlusconi e permitindo-lhe a determinante influência nas comunicações que se revelou determinante da sua escalada no poder.

 

Homem cortês, mas de caráter resoluto, Sergio Mattarella participa ativamente da vida política, assumindo vários cargos, e figura entre os fundadores do Partido Democrático, pelo qual escreve um documento essencial, a Carta dos Valores. Contudo, é homem da geração da Primeira República e, portanto, com a queda do governo Prodi, em 2008, retira-se da política ativa, voltando aos estudos jurídicos. É eleito juiz da Corte Constitucional em 2011 e, no ano seguinte, ao ficar viúvo, abandona o apartamento da família e resolve morar na modestíssima hospedaria da Corte, com poucos metros quadrados à disposição. Não por acaso, nos anos anteriores, tinha declarado: “Um partido, ou um homem político, deve sentir-se hóspede nas instituições, mesmo sendo um protagonista”.

Após sua eleição à Presidência da República, interpelado pela imprensa, esquivou-se de palavras fáceis, só dedicando “um pensamento aos sofrimentos e às esperanças dos cidadãos”. No dia seguinte, tomou uma iniciativa mais eloquente do que qualquer declaração: foi visitar, mantendo absoluto silêncio, o Mausoléu das Fossas Ardeatinas, bem perto das antigas catacumbas cristãs de Roma, teatro de um horrendo massacre nazista que matou 385 inocentes durante a guerra de libertação. Recado mais claro não podia exprimir: ele será presidente antifascista, firmemente ligado à nobre tradição da resistência partigiana e a seus valores sociais, contra a violência integralista e toda forma de prevaricação, seja social, racial ou política.

 

Recado este que foi confirmado em seu discurso de posse, no qual dialogou principalmente com os cidadãos, mais do que com a classe política. De fato, foi eleito presidente um homem estranho ao establishment, que sempre considerou a política como serviço ao país. Personagem de outros tempos, poderíamos dizer. Mattarella trabalhará a fundo para aproximar de novo os italianos das instituições públicas e da política, que nunca esteve tão longe deles como nos últimos anos. Uma política feita de imagem e habilidade na comunicação, sem drama e com muita comédia. Nada mais longe da compostura sóbria e quase sofrida do novo presidente, de poucas palavras e levíssimos sorrisos.

Como prevê a Constituição Parlamentarista italiana, Sergio Mattarella será árbitro firme entre os Três Poderes e tudo indica que não se aproveitará de suas amplas prerrogativas para ter ingerência na administração ordinária da política, que, com ele, seguramente se fortalece e sai definitivamente da nefasta época berlusconiana.  Dele os italianos esperam o papel de guia ético e guardião dos valores constituintes. Será interessante acompanhar a colaboração entre Mattarella e Renzi. “Assistiremos a um diálogo entre opostos: o primeiro é rigoroso, prudente, contido; o segundo, atrevido, rápido, desenvolto”, comentou um velho parlamentar. É de esperar que os dois não se anulem, mas que sejam complementares, porque os desafios da crise econômica e da recém-iniciada reforma política e constitucional precisam de ambos.

*Reportagem publicada originalmente na edição 836 de CartaCapital, com o título "Católico de Esquerda"