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Número 835,

Cultura

Cariocas

Norma, La Bengell

por Carlos Leonam — publicado 09/02/2015 05h18, última modificação 09/02/2015 09h08
E eis que, finalmente, sai a corajosa autobiografia de uma das mais belas atrizes das telas nacionais
Divulgação
Norma Bengell

Norma Bengell no filme Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri (1964)

Hoje, neste verão fora de série até para os cariocas, vou me lembrar de uma mulher solar: minha amiga Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d’Áurea Bengell, ou simplesmente Norma Bengell, como ficou conhecida entre os brasileiros, italianos e tutti quanti por este mundo afora.

É que acaba de ser lançada (em notável edição de Christina Caneca) a sua corajosa autobiografia, Norma Bengell (366 páginas, R$ 59,90, fartamente ilustrada, Editora nVersos), em que, ao contrário da maioria de livros brasileiros de memórias, Norma nos conta tudo – e o tudo aí vai como tudo, mesmo.

As memórias que nos deixa revelam tudo  tim-tim por tim-tim, às vezes um pouco, mas na verdade as coisas de  que ela gostaria que todos soubessem. Todos os amantes, desconhecidos e famosos, estão lá, bem como, “com naturalidade, e sem culpa, seus abortos e casos homossexuais”, frisou a Folha de S.Paulo.

Nasceu no Rio Comprido, filha do belga Christian (pai alemão e mãe francesa) e de Maria da Glória (bem-nascida brasileira luso-afro-indígena, como Norma fazia questão de dizer). Logo foi morar em Copacabana, tornando-se uma copacabanense de corpo e alma durante toda a sua vida.

Quatro anos mais moço do que Norma, a “conheci” adolescente vendo suas fotos de vedete dos musicais de Carlos Machado, el rey de la noche, como o chamava Sérgio Porto – e que, de quebra, só se referia a ela como “Norma, La Bengell”. A moçoila era de abrir o comércio em dia de feriado.

Foi uma das “emancipadas” de Machado, as garotas menores de 18 anos que conseguiram ser emancipadas para trabalhar os espetáculos do Night and Day e do Golden Room, do Copacabana Palace.

Depois a reencontrei no lendário primeiro show da bossa nova, na arena da Faculdade Nacional de Arquitetura, na Praia Vermelha. Fui conhecê-la mesmo, iniciando a nossa amizade, durante as filmagens de Os Cafajestes, de Ruy Guerra, em Cabo Frio, no fim de 1961 e início de 1962.

Mas foi em 1963, em Roma (onde fiquei um mês e meio fazendo a cobertura da agonia de João XXIII e eleição de Paulo VI para O Cruzeiro), que passei a conviver com Norma e seu marido, o não menos amigo Gabriele Tinti, no pallazo em que moravam, às margens do Tibre. Quando voltou ao Rio, um ano depois, costumávamos tomar banho de mar numa deserta praia do Pepino, frequentávamos os restaurantes e boates da moda, os bailes do Carnaval de 1964, e o apartamento em que se hospedou com a mãe, em Copacabana.

Conversamos muito. Contou que Alberto Sordi, com quem fez Il Mafioso, de Alberto Lattuada, na Sicília, morria de ciúmes de Alan Delon, que lá filmava Il Gattopardo, e com quem estava ficando; que o capo mafioso do lugar da locação mandara perguntar a Lattuada “quanto custava” a atriz; que Sordi era um tremendo pão-duro, tinha um forno de pizza em casa e cobrava dos comensais; que Gabriele tinha sido jovem amante da Ana Magnani; que ele não tinha mais bons filmes para fazer, por ter se recusado a ser enfant gaté de Visconti (teria dado um soco nas fuças do cineasta)...  Norma e Gabriele se separaram em 1969, quando ele soube, em Paris, lendo o Globo, na Panair, que ela tinha sido arrastada romanticamente por um jovem compositor carioca...

Para que não houvesse mais dúvidas, Norma fez questão de deixar bem claro em suas memórias, ao falecer com 78 anos, em outubro de 2013: “Não tenho nostalgia de nada, somente saudade do mar. Porque vivi muito, amei muito, e nunca quis etiquetas. O que eu sempre quis era um mundo sem discriminação. O que eu quero é não morrer muda”.

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