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Número 835,

Cultura

Cinema

O dilema escaldante de 'Dois Dias e Uma Noite'

por Orlando Margarido — publicado 04/02/2015 06h09
Irmãos Dardenne refletem sobre os danos sociais e pessoais do capital
Divulgação

Dois Dias e Uma Noite
Jean-Pierre e Luc Dardenne

Quando o inferno já parece estabelecido em Dois Dias e Uma Noite, drama de Jean-Pierre e Luc Dardenne com estreia prevista para quinta 5, os fatos aludem a novas aflições. No quadro inicial, Sandra (Marion Cottilard, soberba) é a funcionária de indústria belga que precisa reverter a demissão no prazo de um fim de semana. Para tanto, ela tem de convencer os colegas a não aceitar o bônus da empresa em troca do corte de uma vaga, a sua. Disposta a reintegrar-se, sai sob sol escaldante de verão e bate na porta de todos. Mas se há humilhação, há outros dilemas em relevo, como a ética, o direito de tal reivindicação e a consciência solidária.

Não é pouco trabalhar com esses aspectos em um mesmo contexto dramático. Os Dardenne, ao consumar seu interesse pela discussão da ferocidade capitalista em seu reverso, dos excluídos ou se tanto subjugados, aprofundam o painel. A protagonista sofre de depressão. No tratamento, seu trabalho seria valioso para superar o problema. A relação familiar também não vai bem, e o apoio do marido (Fabrizio Rongione) na peregrinação aguça a crise no casamento.

Mas os diretores não isolam sua heroína da dimensão social. Numa Bélgica de fama de bem-estar coletivo e privilégios, os interlocutores de Sandra não são o retrato da sociedade ideal. Para eles, o dinheiro a mais pode significar a reforma da casa tão sonhada, a sobrevivência, o medo da reação do marido ou o temor de um imigrante em se ver expatriado.  É um filme voltado aos modestos, dos pequenos e frágeis elos numa engrenagem que os quer engolir, como se verá no impasse final. Por isso mesmo grandioso.

Confira abaixo o trailer do filme: