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Número 834,

Cultura

QI

Um circuito Hemingway para conhecer Cuba

por Nirlando Beirão publicado 17/03/2015 04h58, última modificação 11/06/2015 19h32
Eis um guia para os americanos (e nós outros) agora livres para viajar à ilha. Por Nirlando Beirão
Hemingway

O escritor encarna o pescador no porto Cojimar

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Hemingway
O escritor encarna o pescador no porto de Cojimar

Agora que os norte-americanos podem visitar Cuba sem incorrer no perigo de, na volta, serem recambiados pela CIA para um estágio em Guantánamo, aqueles entre eles que já ouviram falar em Ernest Hemingway poderão descobrir por conta própria, nas pegadas do mais cosmopolita dos escritores da América do século XX, as razões que o fizeram morar por 21 anos na ilha hoje governada pela dinastia Castro.

Hemingway varou o mundo. Nasceu no subúrbio de Chicago, foi cobrir a Primeira Guerra Mundial no front da Itália, fez parte dalost generation que chacoalhou Paris nos anos 1920, instalou-se em Key West, na Flórida, voltou à Europa para cobrir a guerra da Espanha entre 1936 e 1939, varejou a África em safáris ferozes e, finalmente, optou por Havana, a coisa mais parecida que ele encontrou com a Espanha pela qual se apaixonara – e onde se recusava morar depois que o ditador carola Francisco Franco assumiu o poder.

Mas seu amor por Cuba, que se estendeu até 1960, tinha outros ingredientes. Ainda estão por lá, mesmo quando submetidos ao bolor da decadência, os passos dessa paixão que, aliás, durou mais do que qualquer um de seus quatro casamentos.

Percorrer hoje o circuito Hemingway em Havana e arredores é como folhear os fragmentos de uma densa inspiração literária que resultou em O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea, de 1952, que lhe valeu o Nobel em 1954), As Ilhas da Corrente (The Islands in the Stream, duas novelas marítimas publicadas postumamente em 1970) e um volumoso acervo de artigos e despachos para jornais e revistas.

 

É também o melhor jeito de tentar adivinhar, nas paisagens de sua maturidade, os dilemas existenciais de uma criatura complexa que, onde quer que passasse, deixava traços de sua veemente personalidade – aquele Hemingway que não deixava de sintonizar os combates de boxe no Madison Square Garden, que adorava as rinhas de galo, que se vangloriava de suas caçadas na África, um valentão que parecia se espelhar nos heróis viris de sua ficção, como o Santiago de O Velho e o Mar (seu moto: “Um homem pode ser destruído, nunca derrotado”); o Hemnigway que, depois de deixar para trás sua adorada Ilha, acabou por capitular à depressão com um tiro na cabeça (estava em Idaho, em julho de 1961).

“As pessoas perguntam por que você vive em Cuba e você diz que é porque gosta”, escreveu o mestre no artigo O Grande Rio Azul (The Great Blue River), para a revista cult Holiday (julho de 1949). “É complicado demais explicar os primeiros sinais de luz nas colinas acima de Havana quando a manhã é fria e refrescante mesmo no dia mais quente do verão. Não há necessidade de dizer a elas que uma razão para viver aqui é porque você pode criar seus próprios galos de briga, treiná-los no terreiro e levá-los a lutar aonde quer que você possa emparelhá-los e que isso tudo aqui é legal. Talvez elas simplesmente não gostem de briga de galo.”

Papa Hemingway – como passou a ser apelidado pelos amigos e pelos pescadores parceiros de Cojimar – tinha, pode-se ver, certa tendência a simplificar as coisas. Cuba lhe significava muito mais, no aconchego de sua finca em San Francisco de Paula, nos subúrbios de Havana; na peregrinação costumeira pelas ruelas e pelos bares de Habana Vieja, com destaque para La Bodeguita del Medio e La Floridita, que sobrevieram aos tempos de penúria do bloqueio americano como santuários inebriadores do ícone Hemnigway; e por aquela atmosfera de calor humano compatível com um lugar onde – para deleite do homenzarrão de 1,83 metro e 120 quilos, com suas invariáveis bermudas e camisas de sarja – a temperatura nunca baixava dos 10 graus.

Sobretudo, Cuba é Caribe, um Caribe acessível, mas também desafiador, no litoral norte lambido pela encrespada violência da Corrente do Golfo. Cuba, para ele, era o apelo da pescaria do marlim, a bordo de seu barco Pilar, explorando as possibilidades infinitas do trecho que saía de Havana em direção ao leste, com foco em Cojimar, eventualmente mais além, até perto de Matanzas. “O que fazer nos dias de calor paralisante do verão?” – escreveu. “Quando a corrente nos afasta, paramos numa praia para nadar e tomar um drinque, enquanto Gregorio, nosso camarada, prepara o almoço.”

 

O marlim suscita competições entre os valentes e Hemingway gostava de rivalizar, com os outros e consigo mesmo, num frenesi de autossuperação. Em 1959, com a revolução já consolidada, o escritor americano recepcionou em seu Pilar os dois barbudos-símbolos de Sierra Maestra, Fidel e o Chê. Um troféu estava em jogo e Castro ganhou. Hemingway dava-se bem com os revolucionários (Fidel tinha à cebeceira Por Quem os Sinos Dobram, saga dos republicanos na guerra da Espanha.

Papa Hemingway comportava-se como um local. Casado com Martha Gelhonr, adotou o hábito de latino de frequentar uma chica a solto. Certa noite, a patroa e a prostituta se encontraram na Floridita. Hemingway tratou de, com largo sorriso de confraternização, apresentar uma à outra.

*Reportagem publicada originalmente na edição 834 de CartaCapital, com o título "Papa em sua ilha"