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Número 834,

Economia

Análise/Delfim Netto

Nova política econômica

por Delfim Netto publicado 01/02/2015 09h27, última modificação 10/06/2015 18h26
É preciso restabelecer a confiança do setor empresarial privado para que o investimento cresça. Recomendam-se compreensão, sangue frio e paciência: os resultados não aparecerão de chofre
Fotos GOVBA/Flickr
Indústria

Com amplo desequilíbrio fiscal e o excesso de regulação sobre a liberdade de iniciativa, não há como estimular os investimentos e o crescimento do PIB

Nos anos 80 do século XX – depois do forte período de intervenção estatal em resposta à crise de 1929 – assistimos à volta da mesma velha ideologia “liberista” e a reformulação da economia, que levaram à desmontagem do Estado, à sacralização do “mercadismo”, à invenção das expectativas “racionais” e, mais grave, produziram o esquecimento do deletério papel do imprescindível, mas imperfeito, mercado financeiro, quando sua extraordinária imaginação não é regulada. No fundo, uma resposta aparentemente mais sofisticada, vestida de um vistoso aparato matemático, mas com as mesmas ideias que haviam gestado o desastre de 1929 e, sem surpresa, com os mesmos resultados em 2007! A tragédia já dura sete anos, sem que nenhum país tenha, de fato, saído da crise. Sofrem, agora, o horror da perspectiva ou de uma deflação, ou de uma estagnação secular que consomem o espírito animal dos investidores privados e produzem restrição ao investimento público. Demorou nada menos que sete anos para o FMI e o Grupo dos 20 aceitassem o fato físico (e psicológico!) que quando se recomenda simultaneamente a “todos que puxem para baixo, é para baixo mesmo que vão todos”. A coisa mais incrível é que:

1. Continuemos aceitando (depois de Keynes e Minsky) a fazer política econômica com modelos que não introjetam a possibilidade de suicídio por meio dos mercados financeiros desregulados.

2. Tenhamos esquecido a elementar lição que numa economia aberta: a) a renda de cada um (indivíduo ou país) só pode provir da compra de outro; b) o volume do PIB e do emprego depende da demanda efetiva; c) a existência de um alto desemprego durante um largo lapso de tempo indica que a demanda efetiva não está sendo suficiente para absorver a oferta potencial; d) o papel da política econômica deve ser manter a demanda efetiva para sustentar um nível de emprego que garanta a coesão social e, portanto, e) a correção de eventuais desequilíbrios (não importa se produzidos por má sorte ou outras causas) só será politicamente viável se os agentes privados e os países tiverem tempo e estímulos suficientes para se acomodarem à nova situação sem a dramática contração de sua renda ou do seu emprego.

É claro que existem múltiplos desequilíbrios, alguns que nada têm a ver com a demanda efetiva. Por exemplo, no Brasil, a persistência de uma alta inflação com a prática estagnação do PIB tem muito pouco a ver com excesso da demanda efetiva.

Provavelmente, ela tem outras causas (política salarial equivocada, absorção de mão de obra com baixa produtividade etc.). Isso não é uma justificativa laxista! É, ao contrário, a evidência de que a política econômica tem de ser um todo coerente, com objetivos claros e transparentes. Com amplo desequilíbrio fiscal, intervenções oportunísticas que recusam aceitar os preços de equilíbrio dos mercados e o excesso de regulação sobre a liberdade de iniciativa, não há como estimular os investimentos e o crescimento do PIB.

E sem uma forte coordenação entre as políticas fiscal, monetária, salarial e cambial não há como voltar ao crescimento com justiça social duradoura e equilíbrio interno e externo.

No regime presidencialista quem recebe o voto de confiança das urnas tem a responsabilidade intransferível de escolher as políticas social e econômica. Pois bem. É visível que os problemas do Brasil, em 2015, são os mesmos que os de 2011 a 2014, cujos diagnósticos e soluções deixaram muito a desejar. Logo, é preciso mudar. A presidenta Dilma Rousseff acaba de receber uma chance de melhorar a sua performance e decidiu aproveitá-la. Ela sabe que será o seu nome que ficará, eterna e indelevelmente, gravado no período 2011-2018, na história do PIB brasileiro.

Há um novo diagnóstico que parece muito razoável que ela não explicitou, mas que está fortemente visível nas medidas tomadas. Se for sustentado com convicção e sem exageros acabará restabelecendo a confiança do setor empresarial privado e o investimento crescerá. Mas é preciso compreensão, sangue frio e paciência, porque levará algum tempo até que ele apareça.