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Número 834,

Saúde

Transgênicos

Demissão sem clara causa

por Riad Younes publicado 01/02/2015 09h26, última modificação 15/06/2015 17h23
União Europeia humilha cientista que lançou suspeita contra produtos geneticamente modificados
European Biomass Conference and Exhibition/Flickr
Anne Glover

A doutora Anne Glover era conhecida por sua extrema competência como cientista da biologia celular

Acabei de sair de uma reunião no departamento de pesquisa de um dos mais prestigiosos centros de estudo da Europa, a University College de Londres, Inglaterra. O encontro com pesquisadores representando instituições da Europa, do Brasil e dos Estados Unidos tinha por objetivo criar uma rede robusta de cientistas médicos ao redor do mundo na tentativa de esclarecer perguntas ainda muito pertinentes sobre o real papel do tratamento cirúrgico em algumas situações presentes em pacientes com câncer.

Antes de começar a dita reunião, os médicos distribuídos ao redor da grande mesa-redonda discutiam com entusiasmo a última novidade. O mundo científico estava perplexo. A notícia estampada na tela do computador central mostrava a decisão do novo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, de demitir a doutora Anne Glover, notável pesquisadora da Universidade de Aberdeen, na Inglaterra.

A doutora era conhecida de alguns dos presentes na reunião, não somente por sua extrema competência como cientista da biologia celular, mas também por seu extraordinário senso de imparcialidade e de honestidade. Independentemente de sua opinião particular, baseava suas recomendações nas evidências claras, ou na ausência destas.

Anne Glover foi escolhida para preencher o posto de consultora científica-chefe da União Europeia, pelo então presidente José Manuel Barroso. Essa posição tem por objetivo orientar a pesquisa científica e aconselhar as autoridades políticas e sanitárias da Comunidade Europeia sobre a eventual base científica que corrobora, ou não, uma decisão que afetaria a saúde de milhões de cidadãos do Velho Continente.

Pois bem, parece que Anne sugeriu, ao então presidente Barroso, que tivesse cautela ao recomendar qualquer ação relacionada com a proibição do cultivo ou consumo de produtos geneticamente modificados. Argumentava que não havia evidências claras e definitivas que confirmassem os eventuais efeitos nocivos à saúde.

Pesquisadores presentes na minha reunião, afeitos a esta área, concordam que a ciência está ainda muito fraca na avaliação dos reais impactos dos produtos geneticamente modificados, e que seria muito precoce tomar qualquer decisão.

Parece que o lobby contra GMs pressionou o novo presidente da Comissão Europeia de tal forma que ele acabou demitindo a pesquisadora.

Seria mais lógica uma discussão, com a participação de cientistas envolvidos em pesquisas sérias sobre esse assunto, de um lado ou de outro dos GMs, e que ganhe o argumento mais bem fundamentado. Simplesmente eliminar uma voz equilibrada pode não mandar a melhor mensagem para a ciência do mundo.

Na mesma página de notícia aberta da internet, o doutor Mark Lawler, do Centro para Pesquisa em Câncer e Biologia Celular, da Queen’s University Belfast, Irlanda do Norte, lamentava, no final de seu editorial na revista Lancet Oncology, que “este foi um dia triste para a ciência na Europa”.

Sem tirar a possível razão ou as boas intenções por trás dos lobistas, a comoção foi sentida em todos os cantos. Este não seria o melhor caminho para se discutirem os problemas. Pelo menos não na Europa do século XXI.