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Número 834,

Política

Governo

A evangelização do esporte

por Miguel Martins publicado 02/02/2015 05h54
O PRB arrebanha cargos da pasta de olho na exposição das Olimpíadas e no desenvolvimento de projetos com a Universal
Arte: CartaCapital
Esporte

A equipe de pastores da Universal foi escalada pelo presidente do PRB, Marcos Pereira

Braço político da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, o Partido Republicano Brasileiro busca arrebanhar o esporte nativo. O novo ministro do Esporte, o inexperiente George Hilton, mais conhecido por ter sido detido em um aeroporto com malas de dinheiro do que por sua atuação política, está na cúspide de uma hierarquia de pastores designados a controlar a pasta no País. O interesse do partido pelo Esporte começou a ganhar forma em 2012. Originalmente de São Bernardo do Campo, o pastor Júlio Cesar Ribeiro foi escolhido pelo PRB naquele ano para ocupar a Secretaria de Esporte do Distrito Federal. Nas eleições de 2014, Ribeiro liderou a votação para a Câmara Legislativa, apesar de residir há pouco mais de dois anos na capital federal. “Não tive votos somente do esporte”, garante. “Mas com certeza a minha gestão à frente da Secretaria ajudou muito.”

Se estar à frente da organização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo em Brasília serviu de vitrine eleitoral para o pastor, os eleitores ligados à Universal, afeitos a votar em seus líderes religiosos, devem ter aprovado sua atuação. Em Brasília, Ribeiro abraçou publicamente eventos da Força Jovem Universal, grupo da igreja que promove atividades esportivas e organiza palestras contra o uso de drogas. Em 2014, a Secretaria de Esporte do DF promoveu o “Saiba Dizer Não”, que atraiu milhares de fiéis ao ginásio Nilson Nelson. Neste ano, o apoio do governo do Distrito Federal ao evento foi acertado entre o deputado e sua correligionária Leila Barros, ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira e nova secretária de Esporte. Está marcado para dia 28 de janeiro, no Mané Garrincha, estádio de Copa do Mundo.

A promoção de eventos em parceria com a Universal e a visibilidade política proporcionada pelos Jogos Olímpicos de 2016, cuja emissora oficial será a Record, somam-se no súbito interesse do PRB por ocupar postos relevantes do esporte nacional. A bancada de 24 parlamentares eleita em 2014 chancelou o interesse do partido pelo Ministério do Esporte, oferecido por Dilma Rousseff ao pastor Hilton. O foco na área não ficou restrito ao plano federal. O sucesso da experiência de Ribeiro em Brasília levou o presidente do partido, Marcos Pereira, a costurar acordos com o PSDB em São Paulo, o PSB no Distrito Federal e o PT em Minas Gerais e no Ceará para ocupar as respectivas secretarias de Esporte. Um time de quatro pastores e uma solitária ex-atleta.

A biografia política de Hilton é rasa. Pastor da Universal, teólogo e apresentador de televisão, o novo ministro foi deputado estadual em Minas Gerais entre 1999 e 2006. Em 2000, esteve à frente do programa Minas na TV, da Record. Eleito deputado federal nos últimos três mandatos, Hilton chegou a disputar em 2012 a prefeitura de Contagem, mas ficou em quarto lugar. Fora a assumida paixão pelo Cruzeiro, não acumulou experiência alguma com esportes em sua carreira política. Em 2005, foi flagrado no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, com 11 malas e caixas recheadas de dinheiro. Ao seu lado estava Carlos Henrique Silva, escolhido pelo governador mineiro Fernando Pimentel para ocupar a Secretaria de Esporte estadual. Ambos foram liberados pela Polícia Federal, mas Hilton foi expulso do PFL, seu partido à época. Questionado sobre o episódio, o ministro argumenta que transferia de forma voluntária doações de fiéis da Universal a pedido da igreja. Resta saber por que o partido apressou-se em expulsá-lo.

Hilton e Silva são neófitos na matéria entregue a seus cuidados. O novo ministro, não sem candura, reconhece nada entender de esporte em geral. Compensa a falha, diz ele, pelo conhecimento da alma humana. O mesmo não pode ser dito dos outros secretários do PRB. Medalhista olímpica, Leila Barros é naturalmente afinada com a área. À frente da pasta em São Paulo, o pastor e vereador paulistano Jean Madeira foi um dos primeiros coordenadores da Força Jovem Universal e articulou nos últimos anos parcerias com as prefeituras paulistas para realizar eventos esportivos e religiosos no estado. O radialista e pastor David Durand, secretário no Ceará, colaborou na criação de uma liga de futebol no estado formada por jovens participantes de grupos de reabilitação para dependentes químicos.

O governo estadual do Rio de Janeiro, cuja capital será sede das Olimpíadas, também priorizou os acordos políticos em sua escolha. Embora não tenha responsabilidade direta sobre as Olímpiadas, sob alçada do prefeito Eduardo Paes, Luiz Fernando Pezão, do PMDB, escolheu para a secretaria alguém não apenas com parca experiência na área, mas na própria vida. Filho do ex-governador Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral tem 23 anos e ainda sequer concluiu seu curso universitário. A ausência do PRB no esporte fluminense explica-se pela disputa política de 2014: o adversário de Pezão nas eleições do ano passado foi o senador Marcelo Crivella, pastor da Universal e principal liderança do partido.

Apesar das desconfianças quanto às motivações do PRB em dominar a pasta, Hilton garante que vai articular os atores envolvidos e massificar a prática esportiva no País. “Responderei com muito diálogo e muito trabalho”, afirma a Cartacapital. “Espero mudar essa impressão inicial.” As primeiras críticas partiram da ONG Atletas pelo Brasil, formada por mais de 50 desportistas de diversas modalidades, entre eles o ex-nadador Gustavo Borges, a ex-jogadora de basquete Hortência e a ex-atacante de vôlei Ana Moser, que preside o grupo. Após Hilton ser anunciado em dezembro passado, o grupo chiou. “Infelizmente, há anos, o Ministério do Esporte é usado na barganha política”, afirmou a ONG por meio de nota. Apesar da oposição inicial, Daniela Castro, diretora-executiva da Atletas pelo Brasil, garante que o momento de críticas passou. “O nosso interesse agora é falar de agenda. Precisamos de uma política e de um Sistema Nacional de Esporte. O País está longe das potências olímpicas.”

Após assumir, Hilton sinalizou manter parte da equipe que integrou a gestão de Aldo Rebelo, do PCdoB, mas começou a realizar mudanças importantes. Para a Secretaria de Alto Rendimento do ministério, que coordena investimentos no esporte profissional, foi escolhido Ricardo Trade, diretor-executivo da Copa do Mundo da Fifa no Brasil. Substituirá Ricardo Leyser, do PCdoB.

Principal demanda dos atletas, a formulação de um Sistema Nacional de Esporte está entre as prioridades do ministério, diz Hilton. O objetivo é criar um fundo que conjugue ações integradas entre União, estados, municípios, escolas e federações esportivas para pinçar e formar talentos. O projeto foi alvo de debates de três conferências organizadas pelo PCdoB enquanto esteve à frente da pasta, mas não houve avanços relevantes.

Com a iminência das Olimpíadas do Rio de Janeiro, o Brasil perde tempo para debater sua gestão esportiva. Dez anos antes de sediar as Olimpíadas de Londres, o Reino Unido iniciou um programa para incentivar a prática de esportes pelos britânicos e desenvolver um laço com as escolas para fortalecer as modalidades olímpicas. Hilton explica de forma curiosa as limitações do projeto olímpico nacional em relação ao britânico. “Somos um País com pouco mais de 500 anos. Estamos ainda construindo uma nação.” Esquece o ministro que o Brasil tem cerca de 200 milhões de habitantes enquanto o Reino Unido não chega a 70 milhões e que o número de praticantes influi no resultado. Esquece também que o atletismo e a natação, esportes de base em uma Olimpíada, são acessíveis à população mais pobre. De fato, o ministro claudica no assento.

À discussão sobre o legado social e esportivo das Olimpíadas soma-se o debate sobre a gestão e a transparência dos clubes brasileiros e das federações. Debatido no Congresso, o refinanciamento da dívida dos principais clubes brasileiros, próxima de 6 bilhões de reais, foi alvo de diversas interferências recentes da CBF. No fim do ano passado, o deputado petista Vicente Cândido, sócio em um escritório de advocacia do futuro presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, apresentou emendas para retirar do texto final da Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte as contrapartidas a ser apresentadas pelos clubes para renegociar seus débitos, entre elas o pagamento em dia de funcionários e jogadores.

O Bom Senso F.C., grupo de jogadores que busca racionalizar a gestão do futebol no País, queria incluir no texto a exigência de a CBF manter balanços financeiros públicos e limitar a reeleição de seu presidente a apenas um mandato. Em meio às discussões, outro integrante da bancada da bola, o deputado Jovair Arantes, do PTB, incluiu o refinanciamento das dívidas dos clubes em uma Medida Provisória relativa a temas tributários gerais, sem estabelecer contrapartidas para os clubes e a CBF. A presidenta Dilma Rousseff vetou o artigo de Arantes na terça 20.

Por mais incrível que possa parecer, Hilton teve boa impressão de Del Nero e do atual presidente, José Maria Marin, dois fiéis seguidores do ex-mandatário Ricardo Teixeira. “Os dirigentes da CBF estão atentos à nova realidade que se impõe sobre os clubes e as entidades esportivas”, comenta. “A própria CBF assumiu publicamente o compromisso de incluir nos regulamentos de suas competições obrigações aos clubes quanto ao fair play financeiro e trabalhista.” Sobre a necessidade de as federações esportivas garantirem transparência de seus gastos, Hilton concorda com a exigência, especialmente se forem beneficiárias de recursos públicos. “Mesmo as entidades privadas buscam se abrir. A transparência é um valor importante no mundo hoje.”

Em meio à investigação de desvios de 30 milhões de reais do patrocínio do Banco do Brasil à Confederação Brasileira de Vôlei para favorecer dirigentes e ao desconhecimento sobre o destino dos lucros vultosos da CBF, uma reforma do esporte brasileiro tem de começar pelas federações. A confiança do ministro em Del Nero e Marin é um mau presságio.