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Número 833,

Economia

Inovação

Embrapii e a inovação público-privada

por Samantha Maia — publicado 26/01/2015 05h09
Projetos financiados pela Embrapii em parceria com empresas e institutos de pesquisa têm seus primeiros resultados
Paulo Vitale
Tecnologia

Em Niquelândia, Goiás, a Votorantim Metais economizará 10 milhões de reais por ano com um novo combustível

Recentemente, a Votorantim Metais iniciou a substituição, na sua unidade de Niquelândia, em Goiás, do coque de petróleo usado para alimentar as caldeiras de produção de níquel por um derivado de sementes do algodão e outros óleos vegetais, menos poluentes, com uma economia de 10 milhões de reais por ano. É o primeiro resultado de uma pesquisa desenvolvida com participação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial e do Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, da Bahia. O investimento de 2,5 milhões de reais foi rateado entre os três parceiros.

O projeto faz parte de um novo modelo público-privado de fomento à pesquisa para inovação iniciado em 2013 no contexto do Plano Inova Empresa, dos ministérios do Desenvolvimento, da Ciência e Tecnologia e da Educação, com dotação de 33 bilhões de reais. A Embrapii, criada pelo governo federal há dois anos, é inspirada na Sociedade Fraunhofer, da Alemanha, a maior organização de pesquisa aplicada da Europa. Seleciona e credencia instituições, identifica áreas de pesquisa e repassa recursos dos ministérios.

Além das instituições pioneiras Senai-Cimatec, da Bahia, Instituto Nacional de Tecnologia, do Rio de Janeiro, e Instituto de Pesquisas Tecnológicas, de São Paulo, incorporou outras 10 em outubro e pretende atrair mais uma dezena neste ano. Em 2016, o sistema Embrapii deverá ter 30 órgãos de pesquisa.

A próxima unidade da Votorantim Metais beneficiada pela substituição de combustível é a de Três Marias, em Minas Gerais, produtora de zinco. A energia é um dos maiores custos do setor de mineração e metalurgia e pode representar 50% das despesas totais de operação. “Como os metais são commodities, a nossa luta é sempre nos posicionar o mais baixo possível na curva de custo, o que exige esforços constantes de eficiência energética e melhor aproveitamento dos materiais das barragens”, explica o diretor de tecnologia da Votorantim Metais, Alexandre Gomes. “Encontramos pesquisadores muito capacitados no Senai-Cimatec, pouca burocracia e um ótimo modelo para investimento em pesquisa de alto risco.” A empresa tem o maior número de projetos aprovados na Embrapii, 11 pesquisas com investimentos de 24 milhões de reais. As demais visam o maior aproveitamento e a redução do impacto ambiental dos resíduos.

O novo sistema atraiu o interesse de multinacionais. A BG do Brasil, ex-British Gas, com 1,5 bilhão de dólares disponíveis para investimento em inovação no País até 2025, desenvolve com o Instituto Brasileiro de Robótica, formado pelo Senai-Cimatec e pelo Centro de Pesquisa Alemão para Inteligência Artificial, um robô autônomo para inspeção em águas profundas na exploração de petróleo. A BG é parceira da Petrobras na Bacia de Santos e possui dez blocos offshore no Maranhão. O investimento de 14,7 milhões de dólares no novo veículo submarino (5,2 milhões da BG, 4,7 milhões da Embrapii e 4,7 milhões em contrapartidas desse instituto em mão de obra e infraestrutura) deverá aumentar a eficiência da inspeção de equipamentos da indústria petrolífera.

“O IBR era nosso parceiro preferencial por oferecer pesquisa de classe mundial em robótica e inteligência artificial, e a Embrapii nos estimulou ainda mais a desenvolver o projeto”, afirma Giancarlo Ciola, gerente de Inovação da BG Brasil. Criado em 2013, o IBR tem como meta se tornar um dos dez maiores centros de pesquisas em robótica no mundo até 2023. O robô deve substituir equipes de profissionais que lançam e operam veículos de inspeção convencionais próximo das plataformas. Até 2016, os pesquisadores devem concluir o veículo e o software de operação.  Testes de campo devem ser realizados na operação da BG em Trinidad e Tobago.

Segundo Luís Breda Mascarenhas, gerente do Senai-Cimatec, a participação das instituições de pesquisa nos royalties de eventuais resultados de aplicações comerciais varia de 0,1% a 2% do faturamento. A carteira de projetos da instituição inclui as empresas Ford, BRF e Embraer. “A patente deve ser registrada primeiro no Brasil, e o uso da tecnologia acaba revertido também para nós.”

A rapidez de contratação é uma grande vantagem do sistema Embrapii, segundo Flávia Motta, coordenadora de Planejamento e Negócios do IPT. “Demoramos mais de três anos para contratar um projeto com o BNDES e na Embrapii tivemos uma negociação concluída em 57 dias.”

A aprovação de projetos com a Mahle Metal Leve demorou só dois meses, afirma o diretor de Inovação Andre Ferrarese. A empresa desenvolve com o IPT componentes de motores a diesel mais resistentes, de olho em legislações futuras rigorosas na redução da poluição. Com o INT, a companhia pesquisa um produto de revestimento de motores flex resistente à corrosão e competitivo no mercado, dominado por produtos aplicáveis apenas a carros de luxo. A empresa mira as exigências de eficiência do programa federal Inovar Auto. “No mercado mundial, fomos os primeiro a lançar a tecnologia e o desafio é a redução do custo”, explica o executivo.

A nanotecnologia é uma das áreas contempladas pelo sistema Embrapii. As empresas Natura, Grupo Boticário, TheraSkin Farmacêutica e Yamá Cosméticos uniram-se no Instituto de Tecnologia e Estudos de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos para realizar pesquisas nesse campo, uma fronteira tecnológica do setor. O projeto de 2,3 milhões de reais desenvolvido em parceria com o IPT estuda nanocápsulas de proteção dos princípios ativos de cosméticos. “A inovação visa mais qualidade e melhor desempenho, em um mercado em que o Brasil ocupa a terceira posição”, diz João Carlos Basilio, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos.

Outra pesquisa importante é desenvolvida pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, realizada com o IPT, para obtenção de neodímio metálico (um dos 17 minérios integrantes do grupo de terras-raras), última etapa da obtenção da matéria-prima dos ímãs de alta potência empregados na indústria eletroeletrônica e de turbinas eólicas. O investimento de 9,5 bilhões de reais será feito na planta piloto da empresa em Araxá, Minas Gerais. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, com 16% do total mundial, mas não tem produção em escala comercial. O mercado de superímãs é dominado pela China e representa um faturamento de cerca de 4 bilhões de dólares ao ano. “É um projeto estratégico que pode mudar a dinâmica mundial desse mercado”, diz Fernando Landgraf, presidente do IPT.

A Embrapii fortaleceu as instituições de pesquisa. A parceria resultou na contratação de 20 projetos pelo IPT, no valor de 60 milhões de reais, e o seu faturamento pela primeira vez superou 100 milhões de reais, em 2014. O INT assinou 14 novos contratos, no total de 21 milhões de reais e a receita passou de 10,9 milhões em 2011 para 24,5 milhões em 2013. Dos 180 milhões de reais de projetos em carteira no Senai-Cimatec, 107 milhões são resultado das 32 pesquisas desenvolvidas com a Embrapii.

“As instituições foram à caça de projetos e as empresas responderam de forma positiva”, diz João Fernando Gomes de Oliveira, presidente da Embrapii. O repasse de recursos para a organização ocorre na medida do alcance de metas definidas em contrato estabelecido com o governo federal. A dotação para seis anos é de 1,5 bilhão de reais, para alavancar 4,5 bilhões em projetos. “Em vez da auditoria do processo para a liberação dos recursos nos sistemas tradicionais, demos liberdade e flexibilidade para as instituições cuidarem dos recursos e controlamos os resultados”, diz Oliveira.

*Reportagem publicada originalmente na edição 833 de CartaCapital, com o título "União tecnológica"

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