Número 833,

Sociedade

Cariocas

Tempos quentes

por Carlos Leonam — publicado 17/01/2015 06h48, última modificação 17/01/2015 06h49
Além do calor, a tórrida lembrança do ataque frustrado ao nosso Charlie. Por Carlos Leonam
Phil Whitehouse / Flickr
Rio de Janeiro

Senegal. Ele agora preside á fornalha de paredões de concreto do que outrora foi a "mui leal cidade de São Sebastião"

Paciente leitor, vamos combinar o seguinte: de agora em diante ninguém diz mais, por essas plagas cariocas e adjacências, que está fazendo um calor senegalesco, pois acho que nem no Senegal anda a fazer um calorão como o que tem baixado na mui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Estamos, claro, na faixa do Trópico de Capricórnio, que, por este lado do Hemisfério Sul, passa exatamente por cima de Ubatuba. Como não vejo ninguém reclamar por aqueles lados – na Pauliceia, por sinal, tem chovido desvairadamente – imagino que essa história de que “representam a trajetória máxima dos raios do Sol sobre a superfície terrestre” só se aplica, tout court, para os nativos da Guanabara.

De qualquer maneira, isso deve ser coisa do tal aquecimento global, já que os verões no Rio, ano após ano, estão mais e mais quentes, de se fritar ovo no asfalto da Avenida Vieira Souto.

Aliás, convém frisar ainda que, sempre ao me deparar com fotos da belle époque carioca, noto que as fatiotas de sisudos cavalheiros e de belas senhoras dão a impressão de que estavam flanando em Paris. Certamente, porque não havia ainda os paredões de concreto armado que impedem, cada vez mais, a brisa marinha de refrescar a cidade. Sem esquecermos que a camada de ozônio ainda estava beleza naquele início do século passado.

Por oportuno, falando em Paris, passemos para assuntos mais sérios e graves do que a canícula que nos atormenta. Muitíssimo tem sido reportado e escrito sobre o massacre ocorrido, lá, semana passada, vitimando jornalistas do Charlie Hebdo, no momento em que faziam uma reunião de pauta. Uma tragédia do nosso tempo.

Não podemos nos esquecer, porém, da cara de pau de vários governantes mundiais que compareceram à passeata que reuniu milhões de pessoas, em desagravo pelo brutal assassinato.

Se lá estavam alguns dos grandes defensores da liberdade de expressão, também foram fazer demagogia barata alguns inimigos dela. Nomes como Abdullah, o rei da Jordânia; Ahmet Davutoğlu, primeiro-ministro da Turquia; Sameh Shoukry, ministro de Relações Exteriores do Egito; Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia; Ramtane Lamamra, ministro das Relações Exteriores da Argélia; Ibrahim Boubacar Keïta, presidente do Mali; Enda Kenny, primeiro-ministro da Irlanda; e chefões de Bahrein, Tunísia, Grécia. Quem se deu ao trabalho de tuitar esses nomes foi Daniel Wickham, da London School of Economics.

Nessa hora, não podemos esquecer, entretanto, do nosso Pasquim, que nos anos 1970, também do século passado, tanto azucrinou os donos do poder, principalmente os fundamentalistas da ditadura militar.

Bem lembrou Sergio Augusto, ao fazer uma analogia com os eventos de Paris: “Na madrugada de 12 de março de 1970, colocaram uma bomba na sede do ‘hebdô’ carioca. Não havia ninguém na redação àquela hora. Sua carga pesava 5 quilos. Felizmente, deu chabu no artefato explosivo. Se explodisse, destruiria a sede do Pasquim, matando seu vigia e a mulher, e provocaria uma carnificina nos prédios vizinhos. Por ser um petardo poderoso, seus estilhaços poderiam ainda atingir um gasômetro instalado a mais ou menos 100 metros do jornal, causando estragos incalculáveis”.

Por isso, como fui Pasquim, em 1971, ao lado da patota daqueles tempos heroicos, também sou hoje Charlie Hebdo.

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