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Número 833,

Internacional

Charlie Hebdo

Chore por mim, França

por Gianni Carta publicado 17/01/2015 06h16, última modificação 17/01/2015 06h24
Há muitas razões para justificar as lágrimas
Bertrand Guay / AFP
Paris

Por enquanto, grandes emoções prevalecem

Um Profeta chora na charge na capa da edição de quarta-feira 14 de Charlie Hebdo. Exibe um cartaz, “Je suis Charlie”. Mais: “Tudo está perdoado”. Luz, 43 anos, autor da caricatura, diz à imprensa  ter chorado ao desenhar Maomé. Chorou a morte de cinco companheiros cartunistas, entre os melhores chargistas do país, e de mais cinco pessoas e dois policiais. Aconteceu na quarta-feira 7, na redação do Charlie Hebdo. Armados de Kalashnikovs e um lança-granadas, os irmãos parisienses Chérif e Said Kouachi, de 32 e 34 anos, convertidos ao Islã radical e treinados no Iêmen, concluíram a chacina em dez minutos.

Durante a fuga dos Kouachi, entrou em ação Amedy Coulibaly, outro francês convertido ao radicalismo, de 32 anos, e o provável líder da célula. Segundo o diário Le Figaro, os irmãos haviam recebido 20 mil dólares no Iêmen para agir com Coulibaly. Esperaram, portanto, a saída dele da prisão, onde cumpria pena por roubo. Coulibaly assassinou uma policial ao sul de Paris e mais quatro homens em um supermercado kosher. Quando a polícia ainda procurava a mulher de Coulibaly, Hayat Boumediene, ela já estava na Síria. Com Hayat foi identificado um rapaz, aparentemente envolvido na operação, Mehdi Sabry Belhoucine, cidadão francês de 23 anos. No meio-tempo, Nasser ben Ali al-Anassi, líder do Al-Qaeda na Península Arábica (Aqpa), reivindicou os atentados para “vingar” o Profeta.

Luz, o decano a substituir outros caricaturistas talentosos como Cabu e Wolinski, chorou como tantos franceses sob estado de choque. A França viveu o seu 11 de Setembro. Um ataque à República, não contra a imprensa livre, como insiste a vasta maioria. Segundo o Alcorão, Alá e o Profeta não podem ser retratados. Isso fica claro no capítulo 42, versículo 11: “(Alá) é o criador dos céus e da terra ... não há nada que se assemelhe a ele”. E eis o capítulo 21, versículos 52 a 54: “(Abraão) disse ao pai e ao povo: ‘Por que a adoração por essas imagens que vos unem? ‘Eles disseram: Vemos nossos pais a adorá-las. Ele disse: Certamente vocês têm cometido, juntamente com vossos pais, em erro manifesto”. Para resumir, na religião muçulmana imagens não podem ser idolatradas, e sim o divino. É preciso respeitar as religiões. Vale lembrar que a velha redação de Charlie Hebdo já tinha sido destruída em um atentado em novembro de 2011. Seu editor, Charb, de 47 anos, estava sob proteção policial. Idem a redação, que havia sido transferida para um pequeno prédio nas proximidades da Praça da Bastilha. Charb aceitou o risco.

No momento, gestos guiados pelas grandes emoções prevalecem sobre aqueles ancorados na razão. Por essas e outras, representantes da mídia e o governo deram ajuda financeira ao Charlie Hebdo. Disse o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve: “Denfendemos a imprensa livre”. Na quarta-feira 14, 3 milhões de exemplares, em vez dos costumeiros 60 mil, estavam esgotados às 10 da manhã. Uma hora antes fui a cinco bancas, algumas delas com cartazes nos quais se lia: “Charlie Hebdo esgotado”. Indaguei  uma mulher, a empunhar um exemplar, onde ela tinha conseguido o dela: “Fiquei em uma fila desde as 6 da manhã”. Mais 2 milhões de exemplares, com charges inéditas dos cartunistas mortos, seriam impressos nos próximos dias. O diário italiano Il Fatto Quotidiano teve direito a reproduzir um suplemento com as 16 páginas do Charlie Hebdo. Disponíveis mais de 10 mil cópias do semanário satírico na Alemanha em francês e alemão. No mundo árabe, o quadro é diferente: proibidas as vendas no Egito, na Argélia etc. Quase 2 mil manifestantes gritaram em uníssono nas Filipinas: “Je ne suis pas Charlie”.

Um contraste com o povo a gritar “Je suis Charlie. Nous sommes touts Charlie”,  na marcha pela liberdade no domingo 11. Mais de 1,5 milhão de parisienses de um total de 3,7 milhões de cidadãos França afora foram às ruas para protestar contra o terrorismo e pela liberdade de imprensa, inclusive aquela de retratar agressivamente, no país da liberté, o Profeta. Não escassearam velas, buquês de flores nos lugares onde houve atentados. Desfilaram importantes símbolos da República: a tricolor, Joana D’Arc, e Marianne, a simbólica mãe da nação a encarnar os valores Égalité, Liberté et Fraternité. Cidadãos de todas as inclinações ideológicas e fés mostraram aos radicais islamitas que não se dobram diante do terrorismo.  O presidente François Hollande exprimiu-se com dignidade e no tom apropriado. Naqueles momentos de emoção à flor da pele reinava o patriotismo. Perigoso a curto prazo, quando a sobriedade pouco a pouco volta à tona.

Sob escolta policial e a viver com a família em endereços desconhecidos desde a publicação  de um texto seu criticando o Profeta publicado pelo diário Le Figaro em 2006, o filósofo Robert Redeker enviou, a meu pedido, um texto sobre os eventos. Nele se compara ao filósofo comunista Georges Politzer, fuzilado em maio de 1944, durante a Resistência, a entoar a Marselhesa. Mais: “Eles (os caricaturistas) morreram pela França”. São heróis. O artigo de Redeker, entrevistado em diversas ocasiões por CartaCapital, contrasta com a entrevista telefônica com Magid Shihade, professor visitante de ciências políticas da Universidade da Califórnia. Diz Shihade: “Assassinatos perpetrados por militantes treinados pelos EUA contra cidadãos inocentes no Afeganistão são acidentes colaterais e não têm repercussão alguma para americanos, europeus e as autoridades israelenses”. Por outro lado, observa Shihade, “essa violência simbólica, como desenhos animados ou queimar o Alcorão, são mais importantes do que matar milhões no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano e Palestina. Por quê?”

Embora tenha ganhado popularidade com os atentados, Hollande tem pela frente uma dura luta contra a legenda de extrema-direita Frente Nacional, de Marine Le Pen. Do seu canto, ela tem inflamado o povo com o costumeiro desdém pelo muçulmano. De qualquer modo, as gafes dos líderes moderados já começaram. Após a inflamada frase “A França é capital do mundo”, que parece conferir demasiado mérito à capital francesa, críticos perceberam o óbvio: várias autoridades convidadas às pressas eram líderes em cujos países o termo “liberdade” é palavrão. Com a exceção de alguns premiers, como o italiano Matteo Renzi e o britânico David Cameron, o israelense Benjamin Netanyahu, sem contar alguns líderes árabes, causou constrangimento. Às vésperas das eleições em Israel, Netanyahu foi, cercado de cem agentes do Mossad, ao supermercado kosher, onde morreram quatro  judeus. Anunciou: “Venham viver em Israel, terra dos judeus”. Irritado, rebateu o premier francês Manuel Valls: “Eles são franceses e judeus, esta é a terra deles”. Vários judeus franceses são antissionistas. Ou ateus e agnósticos. Como se isso não bastasse, Netanyahu entrou em outra polêmica: comparou os terroristas franceses com os integrantes da legenda com braço armado Hamas, em Gaza, e com o Hezbollah, a legenda xiita libanesa também com braço armado. E aproveitou para fundir todos os grupos terroristas no Hamas. Detalhe: este foi tirado da lista de grupos terroristas pela União Europeia. Observa Shihade: “Naturalmente, as autoridades israelenses estão felizes com o atual contexto, porque podem utilizar os atentados na sua manipulação cínica de tentar unir o mundo inteiro contra os palestinos”. Ao mesmo tempo, negam a violência de Israel e o “choque de civilização”, tese do sionista Samuel Huntington. “Nesse meio-tempo, os palestinos continuam subjugados à repressão e assassinatos, assim como milhões de árabes e muçulmanos.”

Luz
Luz substituiu Cabu e Wolinski para desenhar a charge da edição pós-massacre e vender 3 milhões de exemplares até 10h da manhã

Por outro lado, a França não é tão liberal, no sentido político, quanto parece. Em 20 de julho de 2014, Valls proibiu os protestos pró-Palestina, então sofrendo baixas de civis por conta de ataques israelenses, e da violência de alguns manifestantes. Outro motivo: o crescente antissemitismo nas redes sociais. Os manifestantes foram adiante. Ao norte de Paris, no bairro de Barbès, houve um confronto com a polícia: pedras e garrafas contra bombas de gás lacrimogêneo. Cenário de guerrilha urbana. Sob pressão de organizações muçulmanas, o governo cedeu. Fui a dois protestos, em agosto. Não houve nenhum conflito com a polícia.

Ex-ministro do Interior, Valls, como Nicolas Sarkozy, diz: “A França está em estado de guerra”. Slogans, inclusive Je suis Charlie. “São importantes porque definem as causas pelas quais lutamos.” Talvez Valls precise aprender um pouco sobre o tema. Como a direita reacionária, o conservador Valls certamente deve ser favorável a um Patriot Act francês. Em suma, uma legislação de exceção provisória, em princípio. Nos EUA, qualquer suspeito pode acabar em Guantánamo. Treze anos após ter sido aprovado, o Patriot Act continua em vigor. Na França haverá um “estado de urgência” com “centros de detenção”. Resta saber o quão o “estado de urgência” se assemelha ao Patriot Act. Em entrevista ao diário italiano La Repubblica, o filósofo Giorgio Agamben explica que se entende por “guerra” conflitos entre potências e, portanto, a palavra não se aplica ao caso do terrorismo. Agamben emenda que foi esse “equívoco” o motivo a ter levado George W. Bush, a invadir o Iraque em 2003. Matou “dezenas de milhares de pessoas”, cujas mortes provavelmente provocaram os assassinatos “pelos quais hoje chora Paris”.

Outra questão espinhosa: a França não tem uma lei contra a blasfêmia, como a Irlanda e a Grécia. No entanto, o racismo e a incitação racial são proibidos. Difícil distinguir entre as duas definições. Joelle Fiss, especialista em Direitos do Homem, explica em uma coluna no Libération: ao contrário da incitação racial e religiosa, o insulto não gera consequências. No entanto, Fiss parece não acreditar que a blasfêmia pode ser tida como incitação religiosa.

Encontro uma professora de nível colegial para entender como ela explica os atentados radicais para seus alunos. “Mostro para eles as caricaturas, digo que a França é um país livre. Os cartunistas não mereciam ser assassinados, mas exageraram.” A professora diz que, quando mostra as caricaturas de Maomé, alguns alunos ficam chocados, especialmente, é claro, os de origem árabe. “Eles até certa idade compreendem melhor a imagem, e muito menos a abstração.” O problema – continua a professora – é que seus alunos em uma escola dos subúrbios, especialmente os de origem árabe, sentem-se marginalizados. Acrescenta: “Do meu subúrbio, verdadeiro gueto, não há metrô direto para Paris”. Um jovem tem de tomar dois, três ônibus para vir paquerar em Paris. “Lembro de um deles, anos atrás, menino bonito, perdido, mais tarde sem emprego. Disse que encontrou na religião muçulmana um norte. Será que ele não poderia ter se radicalizado e ser hoje um jihadista?”

Quinta 15. O estado de alerta máximo continua. Mais de 10 mil policiais e soldados armados de metralhadoras em Paris testemunham o temor de uma nova onda de atentados. Em entrevista ao diário Libération, a brigada criminal de Paris fala em “um, dois, 12 cúmplices”. A polícia estaria atrás de um quarto terrorista, provável responsável pelo ataque com uma arma de fogo contra um homem que praticava jogging em um parque. Ele se locomoveria por Paris com um Mini Cooper, cuja dona seria Hayat, a mulher de Coulibaly. Antes de entrar em estado de coma, o atingido teria feito um retrato para a polícia que não corresponde a nenhum dos três terroristas mortos pela polícia.

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