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Número 833,

Sociedade

Brasiliana

A margem de Uchida

por Rodrigo Casarin — publicado 01/02/2015 09h27
Das torcidas organizadas aos protestos na rua, o fotógrafo interpreta o periférico
Gabriel Uchida
Etiópia

O futebol foi o primeiro objeto de Uchida

Meados de 2013. Black blocs e policiais se enfrentam na Rua da Consolação, em São Paulo, tomada por barricadas de lixo, algumas delas incendiadas. Um fotógrafo registra tudo, mas é intimidado por um mascarado. Eles não gostam da presença da mídia. Outro black bloc chega para apaziguar os ânimos: “Não, não, deixa ele, ele pode”. Ele é Gabriel Uchida, fotógrafo com livre acesso pelo mundo dos protestos, da periferia e de tudo o que está à margem.

Formado em jornalismo, Uchida começou na profissão enquadrando torcidas organizadas. Além do Brasil, suas fotos foram e são publicadas em meios de comunicação da Polônia, Inglaterra, Romênia e Estados Unidos. As próximas sairão na Colômbia. Já viajou para fotografar jogos de futebol no Uruguai, Argentina, Cuba, Namíbia e Etiópia. Suas fotos também estampam camisetas de marcas diversas pelo mundo, entre elas a Nike. Ao longo da Copa de 2014, enquanto auxiliava produtores estrangeiros pelo País, tinha seu trabalho exposto em São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Alemanha, onde seu primeiro livro será publicado, em meados do ano.

Em 2009, Uchida começou a fotografar o que acontecia nas arquibancadas e a publicar as imagens em seu blog, o FotoTorcida. “Há uma carga política muito forte no que faço. Fotografar a torcida é subverter a ordem das coisas, é estar com o povão, é preferir os cidadãos comuns às estrelas. É transformar o tio banguela em alguém tão importante quanto o Neymar. É evidenciar a periferia do jogo, os marginalizados, a criminalidade, e estar ali, junto com eles, não de longe, como fazem outros fotógrafos.”

A opção pela periferia dos acontecimentos veio com o amadurecimento. A experiência, erros e acertos levaram Uchida, hoje com 28 anos, a entender melhor a natureza do seu trabalho. Após uma conversa com o amigo Gabriel Bogossian, curador de artes, passou a compreender o seu próprio estilo, em muito moldado por ideais anarquistas e por obras de escritores ditos marginais, entre eles Charles Bukowski, Hunter Thompson, Henry Miller e Lourenço Mutarelli. Cineastas como Quentin Tarantino e Stanley Kubrick igualmente integram o universo de suas influências primordiais. “Nada do que consumimos de cultura é em vão. No meio da arte, tudo é referência”, filosofa.

A partir desse ponto, o fotógrafo começou a estudar mais o seu objeto antes de iniciar qualquer trabalho. Para executar o ensaio The Dark Side of the Game, realizou exaustivas pesquisas, conversou com integrantes de diversas torcidas e conferiu informação por informação até chegar exatamente ao ponto que desejava: a composição de imagens que evidenciam o lado mais obscuro das organizadas, como as armas comumente usadas em confrontos. “Foi como mostrar cada etapa do processo, não só o bolo pronto.”

A consequência desse amadurecimento profissional e artístico foi a abertura do horizonte. Uchida decidiu não ficar preso ao futebol e passou a fotografar movimentos marginais, encampar “projetos com pé no underground, no que acontece na rua, as histórias que ninguém se importa”, onde a violência estética também está presente. Nasceram dessa nova orientação as séries Racionais MC’S, Ethiopian Streets e o ensaio Nova Palestina, sobre as famílias que lutam por moradia em São Paulo.

O respeito adquirido no período de fotografia das torcidas permitiu a Uchida acessar outras partes desse mundo marginalizado, alguns bem mais difíceis de se penetrar do que as arquibancadas. “Não sou deus nem juiz, as pessoas perceberam que não julgo ninguém. Quero entendê-las, me aprofundar nos temas.” Segundo o fotógrafo, os torcedores lhe abriram espaço pelo fato de ele sempre manter sua palavra e mostrar as múltiplas realidades da arquibancada. Outro fator decisivo, afirma, é estar presente ao longo do trabalho, ao lado de grupos e indivíduos com os quais se envolve. Sem tomar partido, garante, mas sem esconder suas posições quando necessário.

O respeito tem sido fundamental no desenvolvimento de seu próximo ensaio, sobre os baloeiros, os fascinados por soltar balões, atividade proibida por seu potencial de criar acidentes. “Me interessei porque eles fazem algo fora da lei, sofrem perseguição policial, mas levam aquilo como um estilo de vida, é a diversão dos caras.” Atualmente, Uchida integra a Ponte, coletivo jornalístico especializados em temas de segurança pública, justiça e direitos humanos. Planeja viver um tempo fora do Brasil. Pensa em Cuba, onde poderia registrar as mudanças sociais e econômicas da Ilha, e nos Estados Unidos, onde o futebol cresce a cada dia. E sonha em cobrir uma guerra. À margem, o fotógrafo encontrou o seu espaço.

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Uchida mergulhou no submundo do futebol

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O fotógrafo entrou na realidade dos torcedores fanáticos

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Até chegar à cobertura dos protestos de junho foi um pulo