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Número 832,

Sociedade

Brasiliana

Um lote na Tatuí

por Rodrigo Casarin — publicado 16/01/2015 08h43
Três jovens paulistanos e um projeto inesperado: revitalizar uma banca de jornal
Letícia Moreira
Tatuí

Souza (em pé) auxilia Cecília Arbolave e Varella no dia a dia dos negócios

Ao caminhar diariamente pela Rua Tatuí, em Santa Cecília, na região central de São Paulo, João Varella sentia-se incomodado com a cena: uma banca parcialmente fechada, repleta de revistas antigas, muitas em péssimo estado, até mesmo molhadas. Quem tomava conta do lugar era uma senhora mais preocupada em acender um cigarro atrás do outro do que em zelar pelo espaço, tanto que dispensava as bitucas na calçada em frente.

“Pensava em como as bancas perderam o charme, se renderam ao crédito de celular, ao talão de zona azul... Deixaram de ser um ponto de difusão de cultura, de arte”, reflete Varella, que na infância sonhava em trabalhar em um fliperama, numa locadora de jogos ou numa banca de revistas e jornais.

Ele havia comentado com alguns conhecidos sua tristeza por causa da situa­ção da banca. Um dia, sem saber exatamente o motivo, deixou o restaurante onde estava e atravessou a rua para vê-la de perto. Deparou-se então com um pequeno anúncio de “Vende-se”. Ficou completamente empolgado diante da chance de realizar um de seus sonhos de criança. Não pensou duas vezes. Em frente ao ponto ligou para o proprietário. A negociação foi rápida.

A compra foi realizada por impulso, sem pesquisa de mercado ou planejamento. “Tem coisas legais que queremos ver feitas. Se eu fosse visar o lucro, não trabalharia nesse mercado.” Varella tem 29 anos e acredita que as bancas são um importante espaço de interação urbana, de convívio social. E aos poucos ele tenta cumprir essa missão: conectar a Banca Tatuí, como passou a chamá-la, às atuais tendências. Terá um site próprio, está nas redes sociais, servirá café aos clientes e, enquanto este texto era escrito, ele modificava a identidade visual, composta de módulos que simulam caixotes de madeira, como em bancas do passado. Haverá um pequeno jardim sobre o teto.

Apesar dos modestos recursos financeiros, o rumo é claro: transformar o lugar degradado em um endereço no qual os frequentadores se sintam bem, inclusive para consumir outros produtos. Se isso trouxer uma reformulação do espaço ao redor, ótimo. “Uma das poucas coisas que vejo como maniqueísmo é quando um ponto cultural fecha. Morre um pouco da cidade com isso. Tentamos trazer alguma luz para esta esquina que está morta”, defende. Um dos focos da Banca Tatuí será aproveitar os seus 6 metros quadrados para vender produções artísticas independentes, em especial livros de pequenas editoras.

 

A própria editora de Varella, a Lote 42, criada em sociedade com o amigo Thiago Blumenthal, terá um espaço de destaque no ponto de venda. Jornalistas, Varella e Blumenthal criaram a Lote 42 em um momento de incertezas profissionais e um drama pessoal (Varella fazia exames para verificar ou não um câncer na perna e repensava a vida). Com os recursos do seu FGTS, convocou o amigo e iniciou a aventura editorial. Outra amiga, Cecília Arbolave, se uniria à empreitada pouco tempo depois. O trio, ao lado de Ricardo Souza e Mayara Neris, é responsável por administrar a Banca Tatuí.

A Lote 42 acaba de lançar seu oitavo título no mercado, 42 Haicais e 7 Ilustrações, do próprio Varella em parceria com FP Rodrigues. A tarde de autógrafos aconteceu na banca em Santa Cecília. “Por mais que o comércio virtual sustente a editora, há uma fatia grande de leitores que querem pegar o livro, ver a arte, tudo que pensamos”, teoriza o editor, ao lembrar de uma obra cuja ilustração da capa recebeu grãos de areia.

A falta de espaço para exposição das novas publicações de editoras independentes reforça a iniciativa. Grandes redes de livrarias preferem trabalhar com casas estabelecidas, donas de vastos catálogos, com uma logística administrada por distribuidoras. Essa estrutura eleva o preço dos livros e limita a competitividade das pequenas. “Procuro pensar no outro para amenizar o radicalismo, isso é conveniente para grandes editoras, esse é o jogo deles.” Resta então buscar alternativas. “Já dividimos o espaço com outras editoras independentes e é um mercado em ascensão. Os empreendedores se ajudam e todos crescem juntos. É um movimento muito interessante, que será lembrado no futuro.”

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