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Número 831,

Economia

Análise/Paul Krugman

Uma medida precoce

por Paul Krugman — publicado 24/12/2014 10h40
A pressão para o Fed aumentar os juros pode levar a economia americana à armadilha da baixa inflação
ALEX WONG / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
Federal Reserve

Apesar de a inflação continuar abaixo da meta, o FED prepara-se para o arrocho monetário

O federal reserve prepara-se para o arrocho monetário, apesar de a inflação continuar abaixo da meta. Concordo com Ryan Avent, da The Economist: se isso acontecer, será um grande erro – assim como a decisão do Banco Central Europeu de aumentar as taxas de juro na Europa em 2011, o aumento precoce das taxas pelo Riksbank da Suécia e o aumento das taxas no Japão em 2000. Suspeito que as autoridades do Fed compreendem e de certa forma se deixam pressionar a fazer a coisa errada.

A questão não é sabermos que a economia americana está longe do pleno emprego, é sopesar os riscos. O dano da elevação das taxas cedo demais supera enormemente o de esperar demais.

Se o Fed adotar a segunda opção, a inflação acelera, mas não muito. Seria perturbador, desagradável, e haveria audiências no Congresso para criticar o Fed por desvalorizar o dólar. Mas não seria um grande problema.

Por outro lado, se o Fed aumentar os juros e perceber que deveria ter esperado, poderá ser desastroso. A economia poderia cair em uma armadilha de baixa inflação, em que as taxas de juro zero não são baixas o suficiente para reverter a situação – o que aconteceu no Japão e acontece na Zona do Euro. Uma recessão prolongada pode infligir grandes prejuízos à futura capacidade produtiva da economia americana.

Costumávamos ouvir que uma taxa de inflação de 2% era suficiente para minimizar os riscos de atingirmos o limite inferior zero – menos de 5% em qualquer ano. Porém, dos cerca de 20 anos desde que a inflação caiu para aproximadamente 2%, seis anos – 30% do tempo – foram passados em uma armadilha de liquidez. Deveríamos ter muito medo de perder a chance de escapar dessa armadilha por um desejo de normalizar a política monetária cedo demais.

Meu palpite é que as autoridades do Fed, talvez sem saber, foram forçadas a submeter-se aos constantes ataques ao dinheiro fácil. Todos os dias a imprensa financeira, muitos blogs e canais de notícias econômicas advertem que a política de juros baixos do Fed distorce os mercados, aumenta a pressão inflacionária e põe em risco a estabilidade financeira. Os argumentos a favor do dinheiro duro, por mais ridículos, recebem atenção respeitosa, e as condenações ao Fed são constantes.

Diante de um mercado de trabalho em alta nos Estados Unidos, o Fed será fortemente tentado a comprar um pouco de paz ao aumentar os juros levemente, só para calar os críticos por alguns meses.

Mas a tese objetiva para o aumento não existe. O risco de um endurecimento prematuro é enorme, e não deveria ser assumido até que tenhamos uma recuperação realmente sólida com fortes ganhos salariais e inflação claramente controlada para subir acima da meta.

A Declaração de Outono do chanceler do Exchequer (Tesouro), George Osborne, que delineia os supostos planos fiscais do governo do primeiro-ministro britânico, David Cameron, provocou incredulidade entre os comentaristas. Não importa a macroeconomia – os planos preveem cortes acentuados nos gastos públicos que supostamente teriam um impacto devastador sobre os serviços públicos, mas sem especificidades.

O roteiro de Osborne é o mesmo do deputado Paul Ryan, presidente republicano da Comissão de Orçamento da Câmara: alegar, com frequência e em voz alta, estar profundamente preocupado com o déficit, enquanto oferece propostas de orçamento cujos elementos concretos envolvem saquear a ajuda aos pobres e cortar impostos para os ricos, o que pouco ajudaria a reduzir o déficit ou até o aumentaria. E alegar que está diminuindo os déficits, porque aplica enormes cortes de gastos sem qualquer explicação do que envolverão ou como serão praticados.

O objetivo é  uma guerra ao Estado do Bem-Estar Social – os cortes de gastos implausíveis só estão lá para enganar as Pessoas Muito Sérias a acreditar que se trata de reduzir o déficit.

E funciona! Até hoje Ryan é tratado com luvas de pelica por repórteres. Osborne produz um orçamento ridículo e até comentaristas que reconhecem isso lhe dão crédito por mostrar “um agudo entendimento das restrições que o país enfrenta”, como fez Stephanie Flanders, uma estrategista de marketing do JP Morgan, no Financial Times. Comentaristas britânicos perplexos com a visão dessa combinação de firmeza emocional, desonestidade intelectual e farisaísmo: bem-vindos ao meu mundo.

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