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Número 831,

Economia

Sociedade

Expansão universitária ajuda desemprego a cair

por André Barrocal publicado 23/12/2014 08h52
Há mais jovens nos bancos escolares e menos nas filas de emprego
Davi Ribeiro
Julio

Julio aposta na faculdade de Engenharia de Produção

Julio Marks Morales de Silva, de 18 anos, acaba de concluir o primeiro semestre de Engenharia de Produção em uma faculdade paulista. No Rio Grande do Sul, Verônica Sallet Soster, de 19, encerrou o segundo em Arquitetura. Distantes 1,1 mil quilômetros, ambos vivem histórias parecidas. Com o apoio dos pais, concentram-se em livros e provas e adiam a busca de trabalho. “Às vezes, eles me dizem para eu procurar algo, pela experiência. Mas só estudar é bom, tenho mais tempo para me dedicar ao curso”, comenta Julio. “Eu vivo uma situação particular, tenho bolsa de 80% porque minha mãe é professora na universidade. Acredito que podendo me empenhar agora no estudo, terei mais qualidade”, avalia Verônica.

A dupla participa de um capítulo raro na biografia nacional. A rapaziada nunca foi tão numerosa nas faculdades, enquanto a massa de jovens com emprego é das menores do século. A combinação explica um paradoxo escancarado neste ano. A economia quase parou em 2014 e teve um de seus piores resultados dos últimos tempos (em 12 meses, o crescimento não chegará a 1%). O desemprego, contudo, seguiu declinante e chegou a pisos históricos, na casa dos 5%. A perda de fôlego na criação de vagas foi compensada pela redução da tropa a folhear classificados, graças à turma com dedicação exclusiva à conquista do diploma, entre outras causas.

A quantidade de brasileiros com idade entre 18 e 24 anos em cursos de ensino superior atingiu um recorde, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, divulgada em setembro. Era de 16,5% em 2013. Sobe sem parar desde 2004, quando estava em 10,5%. No período, a presença dos jovens no mercado de trabalho percorreu trajetória inversa. A proporção dos empregados, informa a Pnad, era de 60,8% em 2013. Após um pico de 64% em 2008, ano da crise financeira global, só fez recuar, até tornar-se a menor desde 2003.

A crescente opção dos graduandos por concentrar-se nos estudos ampara-se em duas razões. A primeira: os cursos ficaram mais acessíveis e baratos. Em uma década, dobraram as vagas e matrículas nas universidades federais. Programas como o Fies, de crédito estudantil subsidiado, e o ProUni, de isenção de impostos a instituições receptoras de alunos de baixa renda, duplicaram as inscrições na rede privada. Além disso, a criação de 20 milhões de vagas de trabalho e a alta dos salários abriram uma folga no orçamento das famílias capaz de tirar dos filhos a pressão por contribuir com o sustento da casa.

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O quadro fica nítido a partir de 2011, aponta Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, que elabora a Pnad. É quando a força de trabalho não ativa – indivíduos aptos, mas que por decisão própria não buscam emprego – começa a crescer e situar-se em outro patamar. Se, na década passada, estava em 31%, agora anda pelos 34%. Por causa dos universitários, em boa medida. “Os jovens são o grupo com mais barreiras para conseguir emprego, por falta de formação e qualificação, e o mercado está cada vez mais exigente. Se eles só estudam, melhoram seu desempenho educacional e suas oportunidades”, explica Azeredo.

A dedicação ao estudo abre uma perspectiva promissora, e não só para quem permanece nas escolas. Mais bem capacitada, a mão de obra nacional dotará a economia de melhores condições para enfrentar rivais estrangeiros aqui ou no exterior. As forças produtivas esperam por isso. E com êxito, ao que parece. Desde 2011, os cursos de Engenharia passaram a ser mais procurados do que carreiras como Direito. “Veremos resultados importantes daqui a 10, 15 anos. Teremos um incremento no valor agregado da nossa produção, o que vai permitir maior crescimento da renda e do PIB”, afirma o ministro da Educação, Henrique Paim.

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O aumento da chamada produtividade tende a causar demissões, pois um grupo menor de empregados consegue gerar mais riqueza. Se a preferência dos jovens por se dedicar à graduação ocorresse em um ambiente de elevado desemprego, os trabalhadores, em seu conjunto, teriam razões para temer. Como não é o caso, talvez até tirem proveito. “Eles vão poder participar mais dos resultados das empresas. Mas para isso o sistema público tem de investir em formação técnica e na intermediação da busca de trabalho”, aconselha Clemente Ganz Lúcio, diretor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico (Dieese).

O País também tem suas obrigações para com os caçadores de diploma. De nada adiantará um canudo, se não houver vagas para as funções cobiçadas. Os jovens são um fator determinante do mercado de trabalho e desequilibram os índices de desemprego. A desocupação na faixa entre 18 e 25 anos costuma ser o triplo da média, segundo estudos internacionais. “O mercado de trabalho juvenil até agora não foi afetado pelo baixo crescimento, mas, se for, o mercado de trabalho inteiro vai sentir. O Brasil precisa voltar a crescer”, afirma Waldir Quadros, um dos maiores especialistas do tema, professor aposentado do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho da Unicamp.

A perspectiva de dias piores passa longe dos pensamentos de Julio e Verônica, exemplos citados no início da reportagem. Eles estão certos da recompensa pelo esforço. “Não acredito que terei dificuldades para encontrar um emprego, pois arquitetura é muito importante hoje em dia”, acredita a gaúcha, que tem planos de conseguir estágio para realizar o sonho de um dia trabalhar pela recuperação do patrimônio histórico. “Como engenheiro de produção, posso trabalhar em qualquer área, a carreira oferece oportunidade em hospital, indústria, banco”, afirma o paulista. “O País vai precisar, independentemente do setor.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 831 de CartaCapital, com o título "Trabalho mental"