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Número 831,

Sociedade

Cariocas

De repente, o verão...

por Carlos Leonam — publicado 04/01/2015 08h16
No Posto 6, o jovem João Saldanha, com sua boia de pneu, atraía as meninas praieiras
Caetano Penna e Janaína Menezes
Rio

O verão no Rio favorece as emoções mais democráticas

Mudou o Verão ou mudamos nós? Boa pergunta, embora a resposta pareça óbvia: nesta 15ª temporada estival do Hemisfério Sul, no século XXI, tudo mudou e está mudando cotidianamente por esses brasis, pelo planeta afora. Ainda no fim do século passado, pouco antes de sua morte inesperada, em Nova York, 1997, Paulo Francis já me havia dito, num papo vadio na noite do Palm: “As emoções antigas, as da juventude, não podem ser revividas, na maturidade. O mundo é outro, a vida é outra, as emoções mudaram, nós somos outros. Há novas tecnologias a que logo nos acostumamos, nada é como antes, nada mais é o mesmo, inclusive nós. Não adianta ficar na saudade de outra época”.

Waaaal!

Como Francis, também acho que, relendo textos mais antigos, não sou mais o mesmo cara, ou que aquele autor tinha vaga semelhança comigo, Foram tempos atribulados, porém, de certa forma, felizes. Não tínhamos, para botar fim nessa conversa, a internet com o vale-tudo de coisas como o Facebook, o Twitter, o Instagram, os xeretas da CIA e que tais, vasculhando nossas vidas... Nem podía­mos imaginar que, no fim do verão nova-iorquino de 2001, o mundo, tal como o conhecíamos, mudaria para sempre.

E os nossos verões? Bem, os verões têm acompanhado o fio da meada desses novos tempos. Antigamente, ir à praia era o mais barato programa solar dos cariocas e dos forasteiros. Podia-se tomar banho de mar na Praia do Flamengo (!) ou nas areias de Copacabana, de onde os pontos na moda seguiam adiante: primeiro, o Posto 4, onde Heleno de Freitas imperava; depois, o Posto 6, com seu remanso tranquilo, onde o jovem João Saldanha, com a sua boia de pneu de avião, atraía as meninas praieiras.

De lá, chegou-se ao Arpoador, que, em meados dos 50, já era dominado pela corja do surfe e pelas pioneiras garotas ipanemenhas e seus biquínis “ousados”.

Já no início dos 60, a turma nômade chegou ao Castelinho – por ficar em frente ao “castelo”, em estilo mourisco, erguido pelo cônsul sueco Johan Edward Jansson, em 1904, e demolido pela especulação imobiliária em 1965. Era o território da turma de Carlinhos Niemeyer, Sandro Moreira e repórteres dos jornalões e das revistas. Na esquina em que está hoje o paulistíssimo Astor, ficava o Mau Cheiro, ponto de motoristas e trocadores.

A partir do fim dos 60, a esquerda festiva tomou conta do trecho em frente à antiga Rua Montenegro, famosa pelo Bar Veloso, de cuja varanda Tom e Vinicius viram a Garota de Ipanema. O ponto “pertencia” à intelligentsia carioca, que também ia ao Jangadeiro, legendário boteco onde Albino Pinheiro inventou a Banda de Ipanema (cinquentona em 2015). Foi na Montenegro que a patota começou a bater palmas para o pôr do sol e acompanhou a construção do píer das obras do emissário submarino (o merdô), que trouxe os surfistas e ripongos para as “Dunas da Gal”. Já nos 80, a velha-guarda deu lugar à garotada do Posto 9, até hoje ponto de rapazes e garotas sarados, com tatuagens, novo símbolo da liberdade individual da geração. Foi (e é) o território livre da diamba, principalmente depois do Verão da Lata, marcado por centenas de latas de Cannabis que deram à praia, desovadas pelo navio que as levava para os EUA.

Não dá para contar tudo, claro, como a invenção do frescobol por Millôr Fernandes. Nem ficar achando que antigamente era muito melhor. Realmente Arpoador, Ipanema e Leblon não são mais as mesmas. Lotearam sua areia, ocupada por barracas de bebidas, aluguel de cadeiras, comércio ambulante de comidas árabes, saladas, sandubas e até sushi. Nas calçadas, quiosques com preços surreais, a nova moeda inflação, em que um coco esta por 6 reais...

Enfim, como escreveu Stefan Zweig, de qualquer maneira, “no Rio, a vida pode mesmo ser boa para todos, pois é mais fácil ser pobre aqui do que noutra grande cidade (do planeta).” É isso aí, bicho.

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