Você está aqui: Página Inicial / Revista / 2014 / A crise da Rússia
Número 831,

Internacional

Análise/Luiz Gonzaga Belluzzo

A crise da Rússia

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 20/12/2014 08h37
A mobilidade de capitais tende a produzir valorizações indesejadas seguidas de desvalorizações abruptas
ALEXANDER NEMENOV / AFP
Putin

A mídia "ocidental" sugeriu que o governo russo iria impor restrições ao fluxo de capitais

No âmago da “crise russa” agitam-se os desequilíbrios, as assimetrias de um sistema monetário internacional que sustenta o poder do dólar e incita os achaques e chiliques da finança globalizada. Enquanto permanecer a assimetria de poder entre as moedas e a dependência do bom humor dos “mercados”, as políticas monetárias e fiscais dos emergentes e assemelhados dançarão ao compasso da música tocada nos valhacoutos da finança.

Os mercados agitaram-se com os rumores promovidos pelos correspondentes “ocidentais”, que sugeriam a imposição pelo governo russo de restrições ao fluxo de capitais. (Escrevo antes do pronunciamento de Putin.) A mídia e seus súditos, os que produzem as notícias e os que as leem, traficam uma versão falsificada do mundo das finanças no qual todos os gatos são pardos. Não consideram a realidade do sistema monetário constituído por uma hierarquia de moedas, umas mais “líquidas” do que as outras. É improvável, por exemplo, um exportador alemão e um importador japonês escolherem o real como moeda de transação nos seus negócios.

A abertura generalizada das contas de capital promovida pela globalização financeira inverteu as determinações dos balanços de pagamento. Nos tempos de Bretton Woods, os balanços de pagamento eram comandados pelas transações de mercadorias e serviços. Agora quem apita o jogo são os senhores que se empanturram com a arbitragem e a especulação com as moedas. Para as economias de moeda sem reputação e “ilíquidas”, a mobilidade de capitais tende a produzir valorizações indesejadas, seguidas de desvalorizações abruptas. Seja qual for o regime cambial adotado, as autoridades monetárias do país de “moeda fraca”, com “ponto de compra” imprevisível, poderão ser obrigadas a vender reservas ou subir as taxas de juro para estabilizar o curso do câmbio.

O montante relativamente elevado de reservas que os bancos centrais são obrigados a manter para garantir a estabilidade do câmbio é um dos sintomas da impossibilidade de adoção da flutuação cambial pura. Como os títulos de riqueza em moeda local e os denominados em dólares são substitutos muito imperfeitos, a arbitragem entre juros internos e externos não logra a convergência das taxas e acaba por impor a “intervenção” no mercado de câmbio. Muitos países da periferia, diz Michel Aglietta, revelam preocupação com a manutenção de suas vantagens competitivas e com a volatilidade dos movimentos de capitais. “Eles não podem, portanto, permitir que o mercado jogue com a taxa de câmbio. Alguns apreenderam à custa de muito sacrifício que valorizar a taxa de câmbio nominal em meio a fragilidade financeira pode desencadear um processo deletério de desconfiança. Regimes de câmbio intermediários, de flexibilidade controlada, constituem um caminho estreito para a coordenação entre os diferentes objetivos de política monetária.”

Os episódios de forte depreciação da moeda “ilíquida” impactam os ativos e passivos em moeda “forte” dos governos, bancos e empresas sediados no país de moeda fraca. Em geral, os balanços do setor privado nos ditos emergentes registram preocupantes desequilíbrios entre ativos e passivos denominados na moeda de curso internacional. (Na Rússia as empresas de gás e petróleo acumularam elevado passivo em moeda estrangeira, empréstimos intermediados pelos bancos nacionais.)

No caso das finanças públicas, a relação dívida bruta/PIB sofre na veia o impacto da subida defensiva das taxas de juro. Mesmo quando o passivo do governo é denominado em moeda “local”, a súbita mudança de rumos nos movimentos de capitais é desastrosa. A elevação da taxa de juro destinada a apaziguar a derrocada do câmbio determina uma dinâmica perversa da dívida bruta, a despeito da redução da dívida líquida agraciada com “valorização das reservas” acumuladas em dólares.

A tentativa de reverter essa dinâmica mediante o ajustamento dos fluxos de receita e despesas com o propósito de alcançar “meta de superávit primário” torna draconiana a execução da política fiscal. Com juros altos, crescimento baixo ou recessão, a “confiança” do setor privado escorre pelo ralo. O desemprego e a queda dos rendimentos encolhem as receitas fiscais e dificultam a obtenção dos almejados superávits primários.

registrado em: , ,