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Número 830,

Cultura

Futebol

Nada de saudosismo

por Afonsinho publicado 17/12/2014 06h30
Para esquecer 2014: a chegada ao Rio, 50 anos atrás, o XV de Jaú, o Santos bi do mundo...
Rafael Ribeiro/ CBF

Neste arrastado 2014 do futebol, muito me tem valido ler a seção “Há 50 anos”, do jornal O Globo. Algumas vezes no barbeiro, outras no Caderno de Esportes que o seu Antônio, porteiro do edifício, guarda para eu me atualizar, juntamente com as notícias que me dá do pessoal do Santa Marta, nosso querido morro de Botafogo onde ele mora.

Muita emoção na leitura. Com o coração aos pulos, querendo sair pela boca, a respiração interrompida, é como reviver os acontecimentos daqueles dias que precederam minha vinda para o Rio de Janeiro, exatamente há 50 anos.

Atropelo de um número infinito de imagens e sentimentos do que vivi até aqueles 17 anos, quando saí de Jaú, depois da infância em Marília, também no interior paulista.

Chegava ao fim o ano de 64, do golpe militar de consequências funestas (até nossos dias sofremos as sequelas desse descaminho). O jornal guarda o anúncio feito pelo ditador, de breve convocação de eleições gerais já para o ano seguinte – amarga ilusão.

Na minha avaliação, reside aí o início da decadência do nosso futebol, como de toda a sociedade brasileira. Pegamos a estrada errada e viemos desgovernados, até bater de frente com a Alemanha na Copa-14. Cinquenta anos depois.

Ficamos 24 anos sem título mundial, voltamos a ganhar em duas ocasiões, nunca com o mesmo brilho, e sem lavar a alma.
Tudo que aconteceu naquele período vem carregado de uma carga pesada.

Pouco tempo antes, eu via na tevê em preto e branco aquelas bolinhas negras mágicas parecendo fantasmas em seus uniformes brancos trançarem combinações inacreditáveis; o fantástico time do Santos de Haroldo, Dorval, Coutinho, difíceis de não se confundir uns com os outros. O Santos bicampeão mundial, como já fora o Brasil em 62.

E o Botafogo de Garrincha, Didi, Nilton Santos,“entre tantos”, como louvava o Armando Nogueira. E o Palmeiras de Tupãzinho, Servílio, Gildo numa ponta, Rinaldo na outra. Mais um pernambucano que chegava e logo estava na Seleção Brasileira.

A memória procura o gaúcho Chinesinho, que se fora para a Itália, e não alcançou, para nós do interior, a televisão dos vizinhos ou dos bares. Mas tive a ventura de vê-lo, vivinho e em cores, no improvisado estádio de madeira do XV de Jaú. Que estava na Primeira Divisão, hoje está na Quarta. O estádio? “O vento levou”, literalmente.

Lembrança muito forte do Fluminense campeão carioca de 64, treinado pelo grande Tim, El Peón (contam que ele me indicou ao Flu), com suas revelações: Gilson Nunes na ponta esquerda e Jorginho D’Andrea na outra extrema. Jorginho se tornaria adversário e, mais tarde, amigo e companheiro no nosso resistente Trem da Alegria.

Eu já tinha sido convidado a fazer testes no Tricolor carioca e vi a decisão com muito interesse, arregalado. Na virada do ano, fui parar no Botafogo, que também fizera contato. O dirigente da base tricolor transferiu-se para o Alvinegro. Mas essa já e outra história.

Outra informação instigante: Garrincha concordava em operar o joelho depois de tratamentos diversos e ter recorrido à sua rezadeira de confiança.

Evaristo de Macedo regressou ao Flamengo depois de anos na Espanha, onde ainda é reverenciado. Fez sucesso no Barcelona e no Real Madrid, dirigiu a Seleção Brasileira num curto período. O Rubro-Negro anunciava mudança na estrutura administrativa; autonomia do futebol, medida tentada até hoje em vários clubes.

Por minha vez, terminava o ano disputando a Segunda Divisão na condição legal de amador (mas que prendia o jogador). Achei o máximo atravessar a divisa do Paraná para um amistoso em Jacarezinho. A convivência riquíssima com jogadores experientes, rodados, acabou por me amarrar de vez nos ritmos brasileiros.

As oportunidades surgiam num período de crise. A economia da cidade de Jaú passara do café para a cana-de-açúcar. Eu era muito jovem e a gente viajava em peruas Kombi de aluguel, saindo, pelas dificuldades de recursos, no mesmo dia dos jogos. Na volta, tarde da noite no frio de São Paulo, vinha eu dormindo na parte de trás, no quentinho do motor. Quase sempre uma parada na ”zona”, onde menor de idade não podia entrar, era só um sonho. Na manhã seguinte ao jogo, às 7 e meia, de bicicleta até o Instituto de Educação.

O Brasil vinha de período riquíssimo no esporte. Eder Jofre defendia seu cinturão mundial com varias vitórias. Lá fora, Cassius Clay, que ainda não era Muhammad Ali, enfrentava Sonny Liston, entre outros pesos pesados...

O mundo era uma maravilha.

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