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Número 830,

Internacional

EUA

O Pentágono fica mais agressivo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 26/12/2014 09h25
A nomeação de Ashton Carter para o Departamento de Defesa torna a diplomacia de Washington menos previsível
Brendan Smialowski / AFP

Ministros também servem para assumir erros de seu governo, ser substituídos e dar ao superior a chance de tentar algo diferente.  Dada a dimensão do fiasco no Oriente Médio, não é surpresa a demissão do secretário de Defesa Chuck Hagel. Mas o que esperar de seu sucessor, Ashton Carter?

Quando Hagel foi nomeado, em janeiro de 2013, a Rússia era um integrante tranquilo do G-8, o Iraque não parecia mais um problema, depositavam-se esperanças nas negociações de paz entre Israel e Palestina, o Irã parecia a ponto de ceder às sanções ocidentais e ainda se queria acreditar que o os rebeldes sírios pró-ocidentais estavam a caminho da vitória, o Egito da democracia e a Líbia da estabilização, apesar do atentado que vitimara o embaixador de Washington em Bengasi. A missão do secretário era cortar os gastos do Pentágono inchados pelas guerras no Iraque e Afeganistão, organizar a retirada e remanejar bases e recursos para uma nova prioridade: conter a expansão da influência da China.

Não é preciso insistir em como essas expectativas foram frustradas. A incompetência do governo iraquiano, a ousadia imprevista de Vladimir Putin e dos fundamentalistas árabes e a sabotagem dos planos de Obama por Tel-Aviv e monarquias do Golfo tiveram seu papel, mas os erros de avaliação da inteligência e da diplomacia de Washington saltam à vista, bem como a resistência a reconhecer os fracassos e reavaliar estratégias. O Estado Islâmico é apenas o resultado mais visível dos equívocos no relacionamento com o mundo árabe, especialmente quanto ao envolvimento na Síria e ao uso desenfreado de drones. Foi conveniente para o público interno e para a indústria militar, mas desastroso ante as populações muçulmanas.

Mas qual a direção da mudança? Quando Hagel, ex-senador republicano, foi indicado, os lobbies armamentista e sionista o acusaram de “ser antissemita” (leia-se “não dar apoio incondicional a Benjamin Netanyahu”), opor-se a bombardear o Irã e ter uma relação “difícil” com os militares em assuntos de orçamento. O físico e historiador Ashton Carter, pelo contrário, é um intelectual e tecnocrata bem-visto pelos militares e pela indústria bélica, tido como amigo fiel de Israel e particularmente obcecado em impedir países rivais de obter tecnologia nuclear. Em nome da “não proliferação”, defendeu ameaçar militarmente Teerã e bombardear a Coreia do Norte. Provavelmente, tentará endurecer sanções e forçar o governo iraniano a ceder mais, bem como aproveitar a conjuntura desfavorável aos exportadores de petróleo para desestabilizar a Venezuela e, se possível, a própria Rússia.

É disso que o mundo precisa, ou mesmo os Estados Unidos? Parece mais um esforço de Barack Obama para aplacar os republicanos e assim conseguir um mínimo de margem de manobra em política interna, principalmente quanto ao orçamento da União. A partir de janeiro e até o fim do mandato presidencial, a oposição terá maioria nas duas casas do Congresso e poderá (e quererá) bloquear todas as suas iniciativas se não receber algo em troca como, digamos, mais vendas de armas ao Pentágono e aliados e o silêncio em relação à oficialização de Israel como Estado de apartheid. Por outro lado, John Kerry, defensor da negociação desprezado por Netanyahu e associados, continua secretário de Estado. O objetivo pode ser um jogo de policial mau e policial bom, embora dependa do ponto de vista, Tel-Aviv ou Teerã (ou Ramallah) qual seja o “bom”. A diplomacia tornou-se menos previsível.

Ao mesmo tempo, os democratas do Senado aproveitaram seu último mês de maioria para liberar o relatório sobre tortura na CIA, contra a vontade tanto dos republicanos quanto de Obama. Seu governo puniu não os torturadores, mas o agente que denunciou à mídia os abusos, John Kiriakou, hoje em meio a uma pena de 30 meses de prisão.

Por exigência do Executivo, a maior parte da informação continua secreta, mas a parcela liberada demonstra que a agência mentiu ao Congresso e à mídia, violentou e matou inocentes e praticou torturas mais cruéis e em maior número do que jamais admitiu, Kiriakou denunciou ou Bush filho formalmente autorizou (apesar de Ronald Reagan ter assinado a Convenção contra a Tortura da ONU). Isso foi, ademais, inútil para prevenir atos de terrorismo ou encontrar lideranças terroristas (inclusive Osama bin Laden, ao contrário do sugerido por Hollywood em A Hora Mais Escura. Os métodos pouco diferem dos ensinados às ditaduras latino-americanas nos anos 1960, salvo pelo requinte da terceirização. Foram em parte planejados e executados por uma empresa privada de psicólogos (Mitchell Jessen & Associates, criada por ex-militares), à qual foram pagos mais de 81 milhões de dólares de 2005 a 2009.

Poucos árabes ficaram surpresos, mas o embaraço é grande para os EUA e seus aliados. Foram 54 os países a participar do programa de tortura com graus variáveis de cumplicidade, entre eles Reino Unido, Canadá, Austrália, Alemanha, Itália, Egito e Turquia. Os mais diretamente envolvidos, com centros de tortura secretos da CIA, foram Bósnia, Lituânia, Polônia, Romênia, Marrocos e Tailândia, sem contar os controlados diretamente por Washington no Iraque, Afeganistão e Guantánamo. A promessa de Obama de não voltar a permitir isso soa tão vazia quanto aquela de não espionar líderes aliados. É de se pensar na advertência de Immanuel Wallerstein: na ânsia de recuperar a hegemonia perdida e divididos quanto ao caminho para tanto, os EUA agem como uma metralhadora giratória (loose cannon), mudam continuamente de posição e tornam-se cada vez menos capazes de inspirar confiança aos próprios parceiros.

*Reportagem publicada na edição 830 de CartaCapital, com o título "Canhão à solta"