Você está aqui: Página Inicial / Revista / Na capital do Estado Islâmico / O rei e eu
Número 829,

Cultura

Crônica

O rei e eu

por Carlos Leonam — publicado 07/12/2014 10h01, última modificação 07/12/2014 10h03
Conheci Pelé em 1961, num treino da Seleção. Desde então, o reencontrei em datas memoráveis, como a feijoada noturna oferecida em Nova York. Por Carlos Leonam
Carlos Leonam
Pelé

Mesmo machucado, Pelé entrou em campo em Milão, contra a Itália. Era 1963

Disse outro dia um amigo, “quem está doente é o Edson, o Pelé é imortal”. Assim, acho que também posso falar de Pelé. A gente se conheceu num treino da Seleção, no campo do Fluminense, em 1961 – ele, com 21, eu com 22 anos. De lá para cá, nos encontramos, nesse mais de meio século, em momentos que, acho, alguns merecem ser recordados, antes que se percam e fiquem na saudade. Pelo menos na do meu coração.

Fomos nos reencontrar em 63, quando fazia parte da equipe de O Cruzeiro, que acompanhava a Seleção numa daquelas excursões caça-níqueis. Ao meu lado, sempre, o meu compadre Gheorghe Torok, fotógrafo da revista, que avalizou o início de minha amizade com o Rei.

A ponto de ele, Pelé, ter me dedicado o gol da vitória que fez em Hamburgo, contra a Alemanha Ocidental. Era o dia 5 de maio, meu aniversário, e, ao sair de campo, me disse: “O gol de hoje foi um presente para você”. Os tedescos estavam virando nossos fregueses de caderno e, claro, jamais poderíamos imaginar o que aconteceria no Mineirão, 51 anos mais tarde...

Depois, fomos para a Itália, quando Pelé, machucado, teve de entrar em campo contra a Itália no San Siro, em Milão, por exigência contratual (a CBF, então CBD, começava a fazer essas coisas). Perdemos de 3 a 1 e Trapattoni levou a fama de ter sido o único zagueiro que não deixou Pelé jogar. Pudera, o Negão estava contundido na coxa. Depois, a Seleção passou por Roma, presente naquela que seria a última bênção de João XXIII. A Basílica estava lotada e, quando Sua Santidade, na homilia em francês, sapecou algo como s’appelle, os fiéis deliraram como se fosse um gol de Pelé. Detalhe: o chefe do cerimonial passou um papel para um autógrafo, mas o Rei recusou. Me disse que aquilo era “falta de respeito”.

Em 65, pedi para tirar, para um cartaz, uma foto promovendo o IV Centenário do Rio de Janeiro. Ele topou – não cobrou nada. Foi comigo ao estúdio de Indalécio Wanderley e Ubiratan de Lemos, no Catete. Posou com o uniforme canarinho, uma Superball nº 5 numa das mãos, e com a outra um quatro com os dedos. Uma vista do Rio ao fundo. Como Pelé havia dito a Torok em Roma que gostaria de fotografar, “de ser fotógrafo”, sugeri a quem de direito, no governo da Guanabara, que lhe dessem de presente uma Nikon F. Dito e feito.

A linha do tempo segue, bissexta: em 66, nos encontramos durante a Copa da Inglaterra; antes da de 70, entre as feras do Saldanha, num treino no Gávea Golf Club, estivemos juntos em Frankfurt, em campo e no bunker que servia de concentração para o scratch, na Copa de 74; de quebra, na noite do Hippopotamus, em Ipanema, quando tentei flertar com Gal Costa, mas o Negão apareceu, tomou conta do meio de campo, me mandou para escanteio...

Em Nova York, em 76, a caminho das Olimpíadas de Montreal, Lucas Mendes, Luciano do Valle e eu ganhamos uma feijoada noturna (sic!), no apartamento que tem até hoje, na esquina da Rua 54 com a Segunda Avenida; em 77, quando já se tornara diretor da Warner Communications, dona do Cosmos, fiz uma entrevista para a IstoÉ, em que previu, sem errar, o futuro do soccer; em 94 fui à Copa com meus filhos Manoela e Caetano a convite dele; e em 2000, convidei-o, em nome da Petrobras, para lançar as ações da empresa na Bolsa de Nova York – dizer que o Negão parou a NYSE é pouco. Pelé, até hoje para Manhattan, como parara o Vaticano. Meninos, eu vi.

registrado em: ,